A façanha de Piu, o homem mais rápido de todos os tempos nos 400m com barreiras

Alison dos Santos, o Piu, alcançou nesta quinta-feira (27) uma façanha que nenhum brasileiro havia atingido na história do atletismo: tornou-se recordista mundial de uma prova de corrida disputada na pista.

Na etapa de Zurique da Diamond League, o brasileiro venceu os 400 metros com barreiras em impressionantes 45s80.

Piu superou em 14 centésimos o recorde de 45s94 estabelecido pelo norueguês Karsten Warholm na final dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021 — justamente a prova em que o brasileiro havia conquistado sua primeira medalha olímpica.

Warholm também estava na pista em Zurique.

Terminou em segundo lugar, com 46s69, quase nove décimos atrás de Piu.

O nigeriano Ezekiel Nathaniel completou o pódio, com 47s50.

Mais do que vencer o antigo recordista, o brasileiro dominou uma das gerações mais fortes da história da modalidade e tornou-se o primeiro homem a correr os 400 metros com barreiras em menos de 45s90.

O tamanho da façanha pode ser medido pela própria história do atletismo brasileiro.

Antes de Piu, quatro atletas do país haviam estabelecido recordes mundiais adultos.

Todos, porém, fora das corridas de pista.

Adhemar Ferreira da Silva quebrou cinco vezes o recorde mundial do salto triplo entre 1950 e 1955.

Nelson Prudêncio alcançou a marca de 17,27 metros na final olímpica de 1968, embora tenha permanecido como recordista por apenas alguns minutos.

Em 1975, João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, saltou 17,89 metros e manteve o recorde durante uma década.

O último brasileiro a alcançar o topo de uma lista mundial havia sido Ronaldo da Costa, que venceu a Maratona de Berlim de 1998 em 2h06min05s.

A maratona, porém, é disputada nas ruas.

Foram necessários 28 anos para que o Brasil voltasse a ter um recordista mundial no atletismo.

E mais de um século de competições oficiais para que o país produzisse o homem mais rápido do planeta numa prova de pista.

O feito coroa a trajetória de um menino que precisou superar barreiras muito antes de conhecer as que encontraria no atletismo.

Nascido em São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo, Alison Brendom Alves dos Santos sofreu, aos dez meses, um grave acidente doméstico.

Uma panela com óleo quente caiu sobre ele, provocando queimaduras de terceiro grau na cabeça, na testa, no braço e nas costas.

Durante parte da infância e da adolescência, utilizava boné para esconder as cicatrizes.

Começou no atletismo aos 14 anos, num projeto social do Instituto Edson Luciano Ribeiro.

Descoberto pela treinadora Ana Cláudia Fidélis, deixou posteriormente o interior para treinar em São Paulo, no Pinheiros, sob orientação de Felipe de Siqueira, seu técnico até hoje.

Em 2017, foi campeão mundial sub-18 no revezamento 4 x 400 metros misto.

No ano seguinte, conquistou o bronze nos 400 metros com barreiras no Mundial Sub-20.

A ascensão ganhou velocidade em 2019.

Piu bateu sucessivamente os recordes brasileiro e sul-americano da categoria, venceu os Jogos Pan-Americanos de Lima e, ainda muito jovem, terminou em sétimo lugar no Mundial adulto de Doha.

Nos Jogos de Tóquio, disputados em 2021, correu em 46s72 e conquistou o bronze numa das maiores provas da história do atletismo.

À sua frente estavam Rai Benjamin e Warholm, que naquela noite estabeleceu o recorde agora derrubado pelo brasileiro.

No ano seguinte, Piu chegou ao topo: foi campeão mundial em Eugene, nos Estados Unidos, com 46s29, então recorde sul-americano e do campeonato.

Terminou 2022 invicto e conquistou também o título da Diamond League.

Uma lesão no joelho direito e uma cirurgia prejudicaram a temporada de 2023.

Piu retornou sem o ritmo ideal e ficou em quinto lugar no Mundial de Budapeste.

Recuperado, mudou-se com o treinador para Clermont, na Flórida.

Em 2024, conquistou seu segundo bronze olímpico, em Paris, e voltou a vencer a Diamond League.

No Mundial de Tóquio de 2025, ficou com a medalha de prata.

Falta-lhe apenas o ouro olímpico.

Piu terá 28 anos nos Jogos de Los Angeles, em 2028, idade em que deverá reunir força, experiência e maturidade para disputar a principal conquista de sua carreira.

Se mantiver a longevidade, ainda poderá chegar competitivo a Brisbane-2032, aos 32.

Até lá, carregará algo que nenhum adversário poderá retirar de sua história: pela primeira vez, o recorde mundial de uma corrida de pista pertence a um brasileiro.


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