RIP Gaviões da Fiel

Por XICO MALTA
A Gaviões virou um negócio. E, ao virar um negócio, vendeu parte da sua alma.
O próprio Alê, seu presidente, hoje tem muito mais cara de CEO do que de líder de uma torcida organizada. É a imagem perfeita dessa transformação: gestão, compromissos, marketing, relações institucionais, preservação da marca.
Porque é disso que se trata: a Gaviões deixou de pensar como movimento e passou a pensar como marca.
Movimento existe para pressionar. Marca existe para se preservar.
Movimento compra briga. Marca calcula o prejuízo.
Movimento incomoda. Marca administra crise.
E a Gaviões nasceu movimento.
Por isso também é preciso revisitar sua relação com o ciclo político de Andrés Sanchez.
Houve um tempo em que Andrés não era tratado como o símbolo de um sistema a ser combatido. Em 2009, há registro de apoio da Gaviões à sua candidatura. Em 2010, Andrés estava numa festa da própria organizada discursando sobre o futuro do Corinthians, anunciando estádio e prometendo um clube que se tornaria um dos maiores do mundo.
Veio o estádio.
Veio a Copa.
Veio o sonho de Itaquera.
E vieram também a conta, os juros, as renegociações e uma dívida que atravessou administrações e chegou até hoje como um dos maiores problemas financeiros do Corinthians.
Onde estava a fiscalização feroz enquanto aquele projeto era vendido como a grande redenção corintiana?
Essa pergunta é ainda mais incômoda porque, anos depois, a própria Gaviões passou a cobrar aquilo que deveria ter sido cobrado com muito mais força desde o começo: “Cadê as contas do estádio?”
E há uma ironia quase perfeita nisso tudo: hoje a própria Gaviões lidera uma campanha para ajudar a pagar a dívida da Arena.
A torcida que deveria fiscalizar o poder acabou convocando o torcedor comum para ajudar a pagar a conta deixada pelo projeto político que durante anos não enfrentou com a mesma contundência que se esperaria de sua história.
Isso não apaga as cobranças que a Gaviões fez a Andrés em diferentes momentos — elas existiram. Mas torna impossível ignorar a proximidade que marcou parte importante daquele ciclo.
E ajuda a entender a metamorfose.
Porque talvez tenha sido ali que o movimento começou a descobrir as vantagens — e as amarras — de se tornar instituição.
Hoje, na Artur Alvim, há loja, bar, patrimônio, estrutura e negócios que não param de crescer. Há também o Carnaval. Caríssimo.
O Carnaval acabou funcionando como um câncer institucional: quanto maior ficou, mais dinheiro passou a exigir; quanto mais dinheiro, mais relações, compromissos e interesses surgiram; e quanto mais há a preservar, mais difícil fica confrontar.
Quanto maior ficou a marca, menor ficou o movimento.
A passividade de ontem escancarou essa transformação.
Onde estava aquela Gaviões que eu admirava justamente por sua capacidade de ação e reação?
A Gaviões cresceu graças ao Corinthians. Mas cresceu tanto que virou uma instituição à parte, com patrimônio, imagem, Carnaval, negócios e prioridades próprias.
E aí nasce uma contradição perigosa:
o Corinthians deveria ser a razão de existir da Gaviões. A Gaviões não pode se transformar na razão de existir da própria Gaviões.
A marca tem patrimônio a defender.
O movimento tem uma causa.
A marca precisa de relações.
O movimento precisa de independência.
A marca teme perder.
O movimento existe porque não aceita.
A marca pergunta quanto custa.
O movimento pergunta o que precisa ser feito.
Uma torcida organizada pode ter CNPJ, patrimônio, Carnaval, loja e bar. Pode se profissionalizar.
O que ela não pode é permitir que a lógica da marca engula a razão de existir do movimento.
Porque, quando preservar a Gaviões passa a ser mais importante do que fiscalizar e defender o Corinthians, sobra o escudo, sobra o nome, sobra o patrimônio, sobra o CNPJ.
Sobra a marca.
Mas morre o movimento.
RIP Gaviões da Fiel.

