O terrorismo de clubes e FPF para defender o dinheiro das bets

Há poucos dias, o Blog do Paulinho classificou como papelão a mobilização de Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos e outros clubes para combater projetos que restringem a publicidade das casas de apostas.
Conseguiram piorar.
Agora, clubes e federações divulgaram um manifesto praticamente apocalíptico contra eventuais restrições às bets.
Deram-lhe o título de “O fim do futebol brasileiro”.
Os cartolas reuniram-se com representantes das próprias casas de apostas para coordenar o conteúdo e o tom da reação.
As bets não criaram o futebol brasileiro.
Nem Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo surgiram sustentados por casas de apostas, legalizadas no Brasil apenas em 2018 e regulamentadas em 2025.
Portanto, se, tão pouco tempo depois, os maiores clubes do país afirmam que perder esse dinheiro poderá levá-los à insolvência, talvez o problema não esteja na eventual mudança da lei.
Está na gestão.
Nenhuma empresa minimamente responsável concentra parcela decisiva de suas receitas num segmento sujeito a tamanho risco regulatório.
Se os clubes fizeram isso, assumiram conscientemente o risco.
Nesse sentido, a nota conjunta da cartolagem é puro terrorismo argumentativo.
Existem bancos, montadoras, companhias aéreas, varejistas, empresas de tecnologia, indústrias e multinacionais com capacidade financeira para investir no esporte.
O trecho mais constrangedor do manifesto talvez seja aquele que utiliza categorias de base, futebol feminino, projetos sociais e clubes do interior como escudo moral para a defesa das bets.
Segundo as entidades, seriam esses alguns dos primeiros setores atingidos por eventual redução das receitas.
Curiosamente, são lembrados justamente quando o dinheiro está ameaçado.
O documento reconhece, quase de passagem, que as apostas provocam problemas sociais, “especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis”.
Logo depois, retorna ao que efetivamente interessa aos signatários: preservar os contratos.
Além de chantagista, o manifesto dos clubes é uma confissão pública.
Expõe a irresponsabilidade de dirigentes que ajudaram a transformar torcedores em alvo permanente da publicidade das apostas e, ao mesmo tempo, revela a incapacidade administrativa de quem agora admite que alguns dos maiores clubes do país não conseguiriam sobreviver sem o dinheiro da jogatina.

