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O surgimento da Lei de Gérson

Por JOSÉ RENATO SÁTIRO SANTIAGO

O habilidoso menino, nascido em Niterói, Rio de Janeiro, que batia bola nas ruas próximas a sua casa, logo passou a disputar seus ‘rachas’ nas praias do bairro de Santa Rosa. Ainda com 16 anos, sua canhotinha só perdia em garbosidade para a potência de seu nome, Gérson de Oliveira Nunes. Logo trocou as areias pelas quadras do futebol de salão e em seguida aos gramados. Primeiro na pequena equipe do Canto do Rio, por muito pouco tempo, para em seguida, vestir a mais popular de todas as camisas do futebol brasileiro, a do rubro negro carioca, o Flamengo, onde estreou na equipe principal em 1959 com apenas 18 anos.

No ano seguinte lá estava ele como titular da seleção brasileira que disputou os Jogos Olímpicos de 1960 em Roma. A estreia com a equipe canarinha principal aconteceria em 1961. Ainda que jamais tenha sido considerado um atleta em campo, sua habilidade com a bola nos pés, sobretudo com a precisão cirúrgica de seus lançamentos, fez dele um dos maiores meio campistas de seu tempo. Após ser campeão carioca pelo Flamengo em 1963, foi contratado pelo Botafogo do Rio, onde voltaria a ser campeão carioca em 1967 e 1968, quando também conquistou a Taça Brasil. Suas grandes atuações vestindo a camisa alvinegra da equipe da Estrela Solitária acabaram por levá-lo a sua primeira Copa do Mundo, em 1966 na Inglaterra.

Mas foi no Mundial de 1970 no México, que Gérson viveu seu grande momento com a camisa amarela. Ele foi o grande líder da equipe, para muitos a melhor de todos os tempos, que conquistou o tricampeonato mundial. Segundo muitos atletas daquele time, Gérson tinha ascensão até mesmo sobre Pelé, o maior de todos na história do futebol mundial. A carreira vitoriosa continuou no São Paulo, onde liderou a equipe que deu fim a um incomodo tabu de 13 anos sem conquistas, logo com um bicampeonato paulista nos anos de 1970 e 1971. Por fim voltou ao Rio de Janeiro para realizar um sonho, vestir a camisa de seu time do coração, o tricolor das Laranjeiras, o Fluminense, onde seria novamente campeão carioca em 1973 e encerraria sua carreira no ano seguinte, em 1974, com 33 anos.

A carreira irretocável é um dos maiores patrimônios de Gérson, que sempre foi lembrado por seus companheiros pelo apelido de papagaio, uma vez que costumava passar o jogo inteiro falando com todos aqueles com quem atuava sempre orientando, reclamando ou estimulando para que fizessem o melhor. O único momento em que Gérson costumava se silenciar era nos intervalos das partidas ou logo ao final delas, quando aproveitava para fumar. Isto mesmo. O ‘canhotinha de ouro’, como também passou a ser conhecido, sempre foi um fumante inveterado e nunca escondeu isso de ninguém, ainda que pudesse significar uma contradição à imagem de um jogador vencedor que foi durante toda a sua carreira.

Já aposentado, foi convidado em 1976 para estrelar a propaganda dos cigarros Vila Rica. O comercial começava destacando Gérson como o “cérebro do time campeão do mundo de 70” tendo como pano de fundo a imagem de seu gol na final da competição frente aos italianos. Em seguida o repórter o perguntava: “você, que sempre fumou, por que Vila Rica?”. Ao fim da explicação dada, Gérson arremata sua fala com a seguinte sentença: “Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!.” Ninguém poderia imaginar no que aquilo se transformaria.

Retirada do contexto, o “gosto de levar vantagem em tudo” passou a ser utilizada, desde então, como uma regra tácita daqueles que querem levar vantagem sobre os demais, de forma antiética, como que passando os demais para trás. Pior que isso, esta frase passou a ser chamada a Lei de Gérson, que ainda nos dias atuais é usada de forma pejorativa. Os diretores de criação da Caio Domingues & Associados, agência responsável pela peça comercial, ainda tentaram reverter o significado negativo da frase, ao desenvolver outra “levar vantagem não é passar ninguém para trás, é chegar na frente” mas esta, de longe, não teve a mesma repercussão. E poucos sequer lembram que ela tenha sido veiculada.

Comercialmente falando, a propaganda foi um grande sucesso e fez do cigarro Vila Rica um campeão de vendas. Já quanto à frase, para sempre ficou associada ao famoso jeitinho brasileiro, algo com forte denotação negativa, que acabou se impregnando ao nome de Gérson, que sequer tenha sido autor da frase, e sim, seu mero interprete. Anos depois, ele afirmou ter se arrependido de ter participado da propaganda.

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