Saiba como Leila Pereira dobrou a dívida do Palmeiras

A análise dos balanços oficiais do Palmeiras, de 2018 a junho de 2026, realizada pelo Blog do Paulinho, revela um clube que transformou receitas recordes e uma situação financeira confortável num modelo muito mais caro, endividado e dependente da venda de jogadores.

Em 2018, aportes da Crefisa utilizados na contratação de atletas deixaram de ser tratados como patrocínio e foram transformados em empréstimos.

A mudança ocorreu após a Receita Federal entender que havia possibilidade de devolução do dinheiro.

O Palmeiras reconheceu R$ 142,7 milhões devidos à empresa, com correção pelo CDI e garantia em receitas de bilheteria e patrocínio.

O próprio COF registrou que não havia sido consultado para autorizar a operação de crédito, apesar da exigência estatutária.

A conversão ainda impôs R$ 8,8 milhões em juros ao clube naquele exercício.

Na época, o passivo contábil total do Palmeiras era de R$ 586,3 milhões.

Retiradas as receitas antecipadas, que não representam necessariamente dinheiro a ser devolvido, restavam aproximadamente R$ 477,5 milhões em dívida ajustada.

Em fevereiro de 2019, no texto “As contas do Palmeiras”, o Blog do Paulinho recomendou cautela diante do superávit de R$ 30,7 milhões porque o resultado convivia com a dívida milionária junto à Crefisa.

Dois meses depois, em “As ‘vírgulas’ do contrato de empréstimo do Palmeiras com a Crefisa”, demonstramos que os aportes não eram doações, como se propagandeava, mas empréstimos que deveriam ser devolvidos mesmo se os jogadores envolvidos não fossem vendidos por valores suficientes.

O texto terminava com um alerta: chegava a dar calafrios imaginar credor e devedor sob influência da “mesma caneta”.

As contas de 2019 reforçaram a preocupação.

A dívida ajustada subiu para R$ 551,3 milhões, o caixa terminou em apenas R$ 15,6 milhões e o superávit despencou para R$ 1,7 milhão.

A provisão para processos judiciais caiu de R$ 38,7 milhões para R$ 11,3 milhões, enquanto as perdas classificadas apenas como “possíveis” — que não são contabilizadas como despesa — saltaram de R$ 220,1 milhões para R$ 294,2 milhões.

A contabilidade permitia o procedimento, mas a mudança dependia da avaliação dos advogados e não foi detalhada processo por processo.

O COF aprovou as contas por apertados nove votos a sete.

Naquele período, o Palmeiras possuía R$ 35,8 milhões a receber da Real Arenas, enquanto parte da disputa permanecia sob arbitragem sigilosa.

Em 2020, a pandemia produziu o pior resultado da série: déficit de R$ 151 milhões.

O fechamento dos estádios, a redução do Avanti, a interrupção das atividades sociais e o efeito cambial derrubaram receitas e elevaram despesas financeiras.

O caixa terminou em apenas R$ 5,9 milhões, e a dívida ajustada chegou a R$ 621,7 milhões.

Foi nesse momento que a administração passou a destacar o chamado “Passivo Real”, de apenas R$ 350,3 milhões, obtido após excluir, além das receitas antecipadas, dívidas tributárias antigas e R$ 161,4 milhões devidos à Crefisa.

Tratava-se de uma métrica inventada pela gestão, não de conceito contábil.

Débito histórico continua sendo dívida.

Empréstimo garantido pelo valor de jogadores também.

Em 2021, com a retomada das competições e das receitas, o Palmeiras registrou superávit reapresentado de R$ 133,1 milhões e reduziu a dívida ajustada para R$ 525,6 milhões.

Esse foi o último exercício praticamente todo conduzido por Maurício Galiotte.

Leila Pereira assumiu a presidência apenas nos 16 dias finais do ano.

Foi essa a situação financeira herdada pela nova gestão: dívida de R$ 525,6 milhões, patrimônio líquido positivo, elenco vencedor, receitas em recuperação e nenhuma ressalva dos auditores sobre a continuidade das operações.

No balanço de 2022, o Palmeiras fez uma correção relevante.

Reconheceu no ativo o custo de construção do Allianz Parque, de R$ 581,6 milhões, e registrou a obrigação correspondente no passivo.

Por causa disso, o passivo contábil bruto de 2021 foi reapresentado de R$ 596,4 milhões para R$ 1,041 bilhão.

Esse salto não representou empréstimo novo ou saída imediata de dinheiro, mas o reconhecimento tardio de um ativo e de uma obrigação que existiam desde a inauguração do estádio.

Em 2022, primeiro ano integralmente administrado por Leila, a dívida ajustada subiu para R$ 596,9 milhões.

Em 2023, caiu para R$ 571 milhões.

Até aquele momento, portanto, o endividamento permanecia relativamente controlado.

O conflito com a Crefisa, porém, tornara-se ainda mais evidente.

Leila comandava simultaneamente o clube devedor e a empresa credora.

A dívida antiga caiu de R$ 119,5 milhões em 2021 para R$ 65,7 milhões em 2022 e R$ 25 milhões em 2023, até ser integralmente quitada no ano seguinte.

Atas internas registraram pedidos de conselheiros para examinar contratos.

Segundo os documentos, as informações não foram fornecidas. T

Também houve questionamentos sobre o pagamento acelerado da Crefisa enquanto o Palmeiras tomava novos empréstimos bancários.

Em 2024, a situação começou a mudar rapidamente.

A dívida saltou de R$ 571 milhões para R$ 852,1 milhões.

Ao mesmo tempo, as contas a pagar a clubes, representantes e terceiros atingiram R$ 554,7 milhões.

Foi também em 2024 que a disputa histórica com a Real Arenas terminou por meio de acordo confidencial.

O acerto produziu reversão de R$ 71,2 milhões em contingências e R$ 81,9 milhões em receitas relacionadas à Arena.

Em 2025, o endividamento disparou.

A dívida ajustada alcançou R$ 1,132 bilhão.

Em relação aos R$ 525,6 milhões herdados em 2021, o crescimento foi de R$ 606,1 milhões, ou 115%.

A causa principal está nas contratações parceladas de jogadores.

As contas a pagar subiram de R$ 554,7 milhões para R$ 771,2 milhões.

Desse total, R$ 764,3 milhões estavam relacionados principalmente a compromissos com clubes e representantes.

As obrigações com equipes estrangeiras avançaram de R$ 132 milhões para R$ 457,8 milhões.

O valor contábil do elenco subiu de R$ 345,7 milhões para R$ 971,6 milhões.

Somente em 2025, foram adicionados R$ 820,8 milhões em atletas contratados.

As despesas futuras acompanharam as compras.

Pessoal e encargos cresceram de R$ 391,1 milhões para R$ 525,8 milhões; direitos de imagem, de R$ 87,3 milhões para R$ 113,8 milhões; e amortizações de jogadores, de R$ 107,6 milhões para R$ 228,2 milhões.

Apesar disso, o Palmeiras encerrou 2025 com receita operacional líquida recorde de R$ 1,628 bilhão e superávit de R$ 292,4 milhões.

A aparente contradição é explicada por receitas excepcionais.

As vendas de jogadores renderam R$ 602,2 milhões, enquanto as premiações somaram R$ 318,9 milhões, impulsionadas pela Copa do Mundo de Clubes.

Juntas, essas duas fontes responderam por mais de 56% da receita.

Vitor Reis, Estêvão e Richard Ríos produziram aproximadamente R$ 501,5 milhões nas negociações.

O Palmeiras utilizou receitas extraordinárias para sustentar custos que permanecerão nos exercícios seguintes.

Enquanto houver jogadores valorizados e compradores dispostos a pagar centenas de milhões, a conta poderá fechar.

Se as vendas atrasarem, o desequilíbrio aparecerá.

Foi o que ocorreu no primeiro semestre de 2026.

O orçamento previa quase R$ 400 milhões em negociações de atletas.

Até junho, a receita total havia alcançado R$ 432,4 milhões, diante de R$ 619,1 milhões previstos.

O déficit acumulado chegou a R$ 124 milhões.

O rombo não nasceu de um estouro geral das despesas.

O Palmeiras gastou R$ 608,1 milhões, praticamente os R$ 607,1 milhões orçados.

A diferença surgiu principalmente porque as vendas de jogadores esperadas não aconteceram.

Entre dezembro de 2025 e junho de 2026, o caixa caiu de R$ 118,4 milhões para R$ 57,1 milhões.

O clube possuía R$ 814 milhões em obrigações de curto prazo diante de apenas R$ 220 milhões em ativos circulantes — R$ 0,27 disponíveis para cada R$ 1 a vencer.

O passivo contábil total chegou a R$ 1,643 bilhão.

Descontadas as receitas antecipadas, a dívida permanecia próxima de R$ 1,134 bilhão.

É nesse cenário que surge a informação sobre um possível novo empréstimo de R$ 125 milhões da Crefisa ao Palmeiras.

A operação, se concretizada, porém, colocará novamente Leila Pereira dos dois lados da mesa: presidente do clube que precisa do dinheiro e dirigente da instituição financeira que poderá lucrar com os juros.

Os balanços de 2018 a 2025 receberam opiniões de auditoria sem modificação.

Há, porém, indício formal de descumprimento estatutário na operação de 2018, falta de transparência em negócios com partes relacionadas e uma política financeira cada vez mais dependente de receitas extraordinárias.

O Palmeiras ainda consegue pagar a conta porque fatura muito, forma jogadores valiosos e possui patrimônio líquido positivo.

Mas a gestão Leila Pereira mais do que dobrou a dívida, multiplicou os compromissos com clubes e empresários e reduziu a margem de segurança do caixa.

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1 Comentário

  1. Paulinho, ja checou a venda do Vitor Reis??2 meses antes da venda, O Mansur, dono da Reag, fechou um patrocinio inédito com o atleta. Detalhe, era e é conselheiro do clube. E mesmo o atleta sendo reserva, fizeram a maior venda de um zagueiro brasileiro da história…Foi tudo sorte e coincidencia mesmo??Ja chegou a checar??Abs

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