As crianças na jogatina

Do ESTADÃO
EDITORIAL
Pesquisa mostra que crianças e adolescentes brasileiros estão apostando em bets, uma falha grave das famílias, das empresas do ramo e do Estado no dever de proteção dos menores
Tragédia anunciada por este jornal desde que foi cogitada a sua liberação no Brasil, a jogatina online hoje tem vitimado, com a ludopatia, o endividamento e a dilapidação de patrimônio, pais e mães de família. Não bastasse isso, crianças também estão fazendo suas apostas nas chamadas bets. E os meninos começam a jogar muito cedo, com apenas 11 anos de idade.
Esses dados constam de uma pesquisa divulgada recentemente pela Frente Parlamentar Mista da Educação, do Congresso, feita em parceria com o Equidade.info, uma iniciativa do Lemann Center da Faculdade de Educação da Universidade Stanford. O levantamento, que ouviu 1.912 garotos e garotas em 191 escolas de educação básica do País, revelou um comportamento de alto risco.
Segundo a pesquisa, 27,8% dos meninos disseram já ter feito apostas online, enquanto entre as meninas o índice é de 12,6%. E, conforme a idade avança, cresce o porcentual dos meninos apostadores, passando de 19% entre aqueles que estão matriculados nos anos finais do ensino fundamental para mais de 40% dos frequentadores do ensino médio.
Tais achados revelam a vulnerabilidade das crianças e dos adolescentes. E há explicações para a exposição ao perigo nessa fase da vida, como a menor capacidade de controle dos impulsos, a maior propensão a atividades que prometem recompensas rápidas e a imaturidade biológica e emocional. Por isso, os menores precisam de cuidado e vigilância.
No Brasil, as apostas são proibidas para quem tem menos de 18 anos. Logo, como bem afirmou ao Estadão o supervisor técnico da pesquisa e professor da Universidade Stanford Guilherme Lichand, o número de menores apostadores “tinha de ser zero”. E, por força do ECA Digital, as plataformas têm o dever de criar mecanismos eficientes para bloquear o acesso do público infantojuvenil.
Mas a primeira barricada contra as apostas deve ser erguida dentro de casa. Os pais precisam, de um lado, intensificar a vigilância sobre o comportamento online de seus filhos, mantendo rigoroso monitoramento dos conteúdos visitados e proibindo o acesso a sites ilegais. E, de outro, não podem jamais ser lenientes, liberando o acesso a sites legais de apostas por meio de seus perfis de usuário adulto.
É fato que, mesmo com toda a atenção dispensada pelos pais mais zelosos, os filhos podem ficar sujeitos às influências negativas. É justamente por isso que preocupa a proximidade dos meninos, os mais suscetíveis à jogatina de fácil acesso nos celulares, com o futebol. Nesse mundo, as bets estampam as camisas de grandes clubes, patrocinam campeonatos e contratam atletas famosos para estrelar suas campanhas publicitárias. Esses jogadores deveriam fazer um exame de consciência para refletirem se querem ser bons ou maus exemplos para seus fãs mirins.
O ciclo da jogatina online, seja para os adultos, seja para as crianças, oscila entre o vício e a fantasia de ganho fácil, sem que o jogador seja capaz de medir os efeitos das apostas em sua vida. A pesquisa da Frente e do Equidade.info reforça esse diagnóstico de falta de conhecimento e de ilusão: a maior parte dos estudantes não tem a menor ideia se vai ganhar ou perder dinheiro ao jogar.
As autoridades públicas precisam agir. Em primeiro lugar, o poder público precisa implementar uma eficaz política pública de educação financeira, para que as crianças e os adolescentes entendam que aposta não é investimento. Ademais, os órgãos competentes precisam levar a sério o combate às casas ilegais, fechando o cerco, com a derrubada ou bloqueio dos sites não autorizados.
É urgente uma mudança de rota, com a proibição total da publicidade das bets, classificando a jogatina como um produto tão nocivo à saúde quanto o cigarro. Um projeto de lei suprapartidário, com o apoio de parlamentares do PSOL ao PL, avança no Senado. É um dever cívico do Congresso aprová-lo e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancioná-lo.
É passada da hora de todos – pais, Estado e empresas do ramo – assumirem suas responsabilidades para proteger as crianças, os adolescentes e os jovens com “absoluta prioridade”, conforme manda o artigo 227 da Constituição.

