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Nós, da imprensa esportiva, contribuímos para trituração de técnicos

Da FOLHA

Por RENATA MENDONÇA

Não é sempre a imprensa que levanta o debate sobre a demissão, mas é a partir dela que ecoa

Passada a terceira rodada do Campeonato Brasileiro, é comum vermos circulando nas redes sociais e na mídia esportiva aquilo que escolhi chamar de “não-notícia”. O clube tal não cogita demitir o técnico após derrota. Oras, se não há demissão à vista, então não há nada novo a ser noticiado, certo? Por que a permanência de um treinador ganha as manchetes de maneira tão corriqueira no Brasil?

Escolhi fazer esse texto como autocrítica. Não para apontar dedos, mas para levantar o dedo e admitir: como parte da imprensa esportiva, tenho minha contribuição nessa máquina trituradora de técnicos que vemos por aqui. Todos nós, jornalistas esportivos, temos. E o primeiro passo para resolver um problema é reconhecê-lo —faço aqui a minha parte.

Não é sempre a imprensa que levanta o debate sobre a demissão do treinador x ou y. Mas é a partir dela que esse debate ecoa. Somos nós, jornalistas, que chancelamos a crise ou não crise de um técnico num clube. Quando fica “só” na pichação do muro do CT por torcedores isolados, não é nada. Quando vira discussão nos programas esportivos, o assunto ganha corpo.

Às vezes, são os próprios dirigentes interessados em uma demissão que plantam a notícia. Às vezes, nós mesmos vamos atrás da “não-notícia”. Então o time é eliminado de um campeonato ou perde dois ou três jogos consecutivos, e nós vamos ao presidente do clube ou diretor de futebol questionar: e aí, vão manter o técnico?

Nós somos os primeiros a defender a tese de que um treinador precisa de tempo de trabalho para conseguir resultados numa equipe. Mas também somos os primeiros a cobrá-los após os três primeiros jogos ou a primeira eliminação.

Jurgen Klopp chegou ao Liverpool em 2015. Seu primeiro título no clube foi a Liga dos Campeões, em 2019. Foram quatro anos para uma conquista, cinco para o tão sonhado título da Premier League. Tudo isso num dos maiores clubes do mundo, com um dos maiores orçamentos e um dos melhores elencos.

Quando assistimos à Liga dos Campeões e ficamos perplexos com a qualidade do futebol, não nos damos conta de que seria impossível conseguir qualquer coisa parecida por aqui quando 90% dos times que começaram a Série A em 2020 têm técnicos diferentes dos que tinham quando começaram o mesmo campeonato um ano atrás. Ninguém consegue milagre em três meses de trabalho —é verdade que Jesus conseguiu em 2019, mas essa é a exceção, não a regra.

Vale reforçar que ele tinha nas mãos o melhor elenco do Brasil. Mas, se não tivesse conquistado títulos já no primeiro ano de trabalho, será que teria sido tão elogiado por nós?

A gente reclama do futebol reativo, excessivamente defensivo, praticado por tanto tempo nos clubes daqui, mas quando algum técnico aparecia propondo jogo com saída de bola desde o goleiro, um erro era o bastante para questioná-lo: “você pretende insistir nessa saída mesmo correndo risco de tomar gol do adversário?”.

Passamos muitos anos rasgando elogios para os treinadores que hoje viraram os principais alvos das críticas por serem muito “pragmáticos”. Mas eles ganhavam logo no primeiro ano de trabalho, e nossa análise de futebol foi sempre condicionada a resultado.

O resultado, aliás, é essencial, mas a discussão sobre o jogo só evoluiu porque técnicos (coincidentemente estrangeiros) vieram nos mostrar que um time de futebol era mais interessante quando buscava o gol —não quando só se preocupava em não tomá-lo. Para conseguir ver mais ideias diferentes dentro de campo, a gente precisa evoluir também no debate de ideias fora dele.

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