Oscar Schimidt: ‘A maior emoção da minha carreira’

Do ESTADÃO

(originalmente publicado em 28 de agosto de 1997)

Por OSCAR SCHIMIDT

Campeão e ídolo do basquete (1958-2026) escreveu artigo para o Estadão no aniversário de dez anos da façanha brasileira nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis

Quando ganhamos do México, na semifinal, nos abraçamos como se tivéssemos cumprido nosso papel. Nosso time era bom e já estava junto há muito tempo, mas ninguém esperava vencer o time olímpico dos Estados Unidos, na casa deles.

Esperamos três dias pela final, pois os organizadores queriam encerrar os Jogos com o basquete. Nesses dias, a gente ia treinar e depois ficava buraqueando o treino deles. Era cada cavalão! Eles enterravam, passando por cima de todo mundo. A gente via aquilo e se olhava, perguntando: “olha o tamanho da encrenca que a gente foi arrumar”.

Na noite anterior à final, ninguém dormiu direito. Eram três da manhã e um ficava perguntando para o outro: “Tá dormindo?”. “Eu não, e você”. “Também não”. Antes de entrar na quadra, esperamos que o Ary Vidal falasse algumas palavras para nos confortar. “São cinco contra cinco e eles têm duas pernas e dois braços como vocês”, essas coisas. Mas ele só disse: “Vão lá e joguem”.

Entramos como bois para o matadouro. A previsão é de que tomaríamos uma lavada e foi isso que aconteceu no primeiro tempo, quando ficamos a maior parte com 20 pontos atrás. No intervalo, o Ary e o José Medalha disseram que nossa única chance era chutar, chutar pra burro. Nós também pedimos para o Cadum e o Guerrinha acelerarem o jogo.

A tática deu certo e em pouco tempo encostamos no placar. Nessa hora, também usamos de malícia para enervar os americanos. Eles tinham um time bem melhor que o nosso, com muitos jogadores que depois iriam para a NBA – como David Robinson, Rex Chapman, Danny Manning, Willie Anderson, Dean Garrett, Pervis Ellison e Keith Smart -, mas a gente tinha mais experiência.

Eu, o Marcel e o Israel tínhamos muitos anos de basquete europeu e começamos a usar dessa experiência para pressionar os americanos. A gente dava dois metros para eles e provocava: “shoot, shoot now (chuta, chuta agora)”. Isso fez com que eles errassem algumas bolas, enquanto eu e o Marcel metíamos todas. Cheguei a meter três de três pontos seguidas.

Quando empatamos (na verdade, passamos um ponto na frente), olhamos para o marcador e faltavam dez minutos. Meu Deus, dez minutos em basquete é uma eternidade! Mas aí, eu olhava nos olhos dos meus companheiros e via que todo mundo estava ligado, acreditando na vitória. O Israel e o Gérson brigando como leões no rebote, o Cadum ou o Guerrinha armando para eu e o Marcel chutarmos. Cada um fazendo o seu papel da melhor maneira.

A energia que tomou conta da equipe nos últimos minutos é indescritível. A gente chegou a desafiar a torcida americana na terra deles! O jogo estava equilibrado e foi assim até o final, mas a gente já se sentia campeão, como se a diferença fosse maior. Os Estados Unidos nunca haviam perdido um título em casa, muito menos por uma contagem como aquela (120 a 115).

Aquele jogo causou um trauma tão grande nos americanos, que eles passaram vários anos sem ganhar nada, até que decidiram colocar os profissionais na olimpíada. Sinto-me superorgulhoso de ter contribuído para essa mudança no basquete mundial. Toda geração de esportistas precisa de uma grande conquista para ser lembrada e nós seremos lembrados pela de Indianápolis.

Não há emoção maior do que conquistar uma vitória que todos acham impossível. Ela serviu para coroar minha geração. Nós éramos um grande time, amigo, unido, mas faltava uma grande conquista. E nós tivemos em Indianápolis uma conquista que é uma das maiores do esporte no Brasil. Não foi só ganhar o Pan-Americano. Foi ganhar dos Estados Unidos, na frente de 17 mil pessoas no ginásio, além de milhões que viram o jogo pela tevê.

A partir dali, passamos a jogar de igual para igual com qualquer seleção do mundo, ganhamos uma Copa América, atropelando todo mundo e só não ganhamos uma medalha na Olimpíada de Seul porque perdemos da Rússia na última bola, depois de termos 15 pontos de vantagem. Os russos ficaram com o ouro.

De qualquer forma, a vitória em Indianápolis foi um marco. Conquistar uma vitória previsível é uma coisa, agora conquistar uma vitória impossível é algo que não se esquece. Sem dúvida foi a maior emoção da minha carreira e uma das maiores da minha vida, só comparada aos nascimentos dos meus filhos Felipe e Stephanie. Estou muito feliz que ela seja lembrada agora, dez anos depois. É mais uma oportunidade de curtir de novo aquela emoção.


ESTADOS UNIDOS 115 X 120 BRASIL

Market Square Arena – Indianápolis (EUA) – 23/8/1987

Estados Unidos – Smart (12), Richardson (7), Lebo (7), Nerry (2), Dembo (3), Lane, Anderson (16), Chapman (17), Ellison (13), Manning (14), Garrett (4) e Robinson (20). Técnico: Denny Crum.

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