Vorcaro, Pixbet e os clubes brasileiros

As mensagens encontradas pela Polícia Federal que apontam Daniel Vorcaro como o verdadeiro dono da Pixbet obrigam alguns dos principais clubes brasileiros a revisitar contratos milionários assinados nos últimos anos.
Diante do histórico conhecido do banqueiro e das investigações que cercam seus negócios, urge saber quem negociou, quem intermediou e quem recebeu comissões nesses acordos.
Se comprovado que Vorcaro era o verdadeiro beneficiário final oculto da empresa, será necessário esclarecer também qual era, de fato, o papel daqueles que formalmente apareciam como seus donos.
No Flamengo, a parceria, iniciada por R$ 48 milhões, acabou transformada, por meio de sucessivos contratos e aditivos, num negócio que poderia alcançar R$ 470 milhões até 2027.
No Corinthians, a Pixbet entrou durante a presidência de Duílio ‘do Bingo’ Monteiro Alves, pagou R$ 30 milhões em luvas e chegou a encaminhar proposta de R$ 75 milhões anuais para assumir o patrocínio máster.
No Cruzeiro, há registro de que o então presidente Sérgio Santos Rodrigues negociou pessoalmente o contrato, que previa cerca de R$ 5 milhões fixos por ano, além de participação variável sobre receitas relacionadas às apostas.
No Vasco, a negociação teve a participação de executivos do clube e a intermediação da Esportecom.
No Santos, a própria apresentação oficial informa que a operação foi intermediada pela Wolff Sports.
É necessário verificar contratos, aditivos, notas fiscais, contas bancárias utilizadas nos pagamentos, contratos de intermediação, percentuais de comissão, mensagens de dirigentes, eventuais consultorias paralelas e possíveis relações financeiras entre pessoas envolvidas nas negociações e empresas relacionadas ao grupo econômico.
O futebol brasileiro já demonstrou que contratos de patrocínio podem abrigar intermediários milionários sem participação efetiva nas negociações, eventualmente utilizados para fazer chegar recursos a terceiros.
Exemplo claro é o Corinthians e o escândalo da Vai de Bet.
Em dezembro de 2022, o Blog do Paulinho trouxe aos seus leitores investigação do Intercept Brasil, originalmente publicada meses antes, que já apresentava questionamentos relevantes sobre a trajetória da Pixbet, suas estruturas societárias e as empresas utilizadas em sua operação.
Portanto, ao menos a partir daquele momento, o desconhecimento absoluto deixou de ser justificativa razoável para dirigentes que renovaram ou ampliaram negócios com a empresa.
Agora há muito mais a ser explicado.
A Polícia Federal e a Receita Federal investigam operações envolvendo a Pixbet e estruturas no Brasil e no exterior utilizadas, segundo as autoridades, de maneira suspeita para dificultar a identificação da origem, do destino e dos beneficiários finais dos recursos.
Se Vorcaro realmente estava por trás da Pixbet, a investigação não pode parar na casa de apostas.
Precisa entrar também nos clubes, identificar quem sentou à mesa, quem assinou os contratos, quem intermediou os negócios e, principalmente, para onde foi cada centavo pago a título de comissão.

