O Brasil precisa resistir. Ainda há votos para minimizar a barbárie

Por 47,03% a 45,16% — diferença de apenas 1,87 ponto percentual —, o Brasil votou, no primeiro turno, pelo retorno à Presidência de uma família antidemocrática, entreguista e notoriamente miliciana.
Pior: por margens ainda maiores, elegeu um Congresso Nacional dividido entre ladrões e fascistas.
O mal está posto.
A esperança, agora, é minimizá-lo.
Não será fácil.
É necessário convencer os 21,08% de eleitores que prezam pela democracia, mas que, sabe-se lá por quais razões, deixaram de comparecer às urnas — um universo de 33.469.244 pessoas — da necessidade de fazê-lo no segundo turno.
Houve também 4,77% de votos brancos ou nulos.
Parte desse contingente, tudo indica, é formada por pessoas insatisfeitas com o atual governo, mas que não enxergaram, entre as alternativas apresentadas, uma opção que considerassem qualificada para substituí-lo.
Não são, necessariamente, eleitores polarizados.
Há, portanto, espaço para fazê-los compreender o que está em jogo, ainda que permaneçam insatisfeitos com os nomes entre os quais terão de escolher para evitar uma mudança de regime capaz de lhes retirar liberdades, direitos e outras conquistas importantes.
É pouco provável que desejem, apesar da insatisfação, trocar a democracia pela barbárie.
Conquistar votos daqueles que escolheram outros candidatos no primeiro turno parece tarefa mais difícil, mas, ainda assim, não impossível.
É importante lembrar que a conta dos percentuais que, desde o encerramento da apuração do primeiro turno, tem tirado o sono do campo progressista reflete apenas o quadro atual, considerando votos válidos, brancos, nulos e ausências.
A cada eleitor ausente que retorna às urnas, altera-se também o peso dos votos válidos.
Em números absolutos, por exemplo, é razoável imaginar que parcela significativa dos 3,4 milhões de eleitores de Augusto Cury, ao optar por um escritor, tenha apreço pela cultura e, consequentemente, rejeição por quem a despreza.
Quantos eleitores de direita escolheram Caiado, Renan ou Zema justamente por repulsa ao que representa Flávio?
Ainda que muitos deles “odeiem o PT”, como provavelmente ocorre, certamente há entre esses eleitores quem, mesmo contrariado, não deseje ver seus familiares vivendo sob um regime de exceção.
Se a esquerda foi, de fato, amplamente derrotada nestas eleições, a direita conservadora, tradicional e democrática também foi.
Acabou substituída por personagens que se apresentam como representantes da direita, mas que desejam o poder para atender a interesses pessoais e aos das quadrilhas que os cercam.
Não há, no campo da civilidade, alternativa à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
Resta convencer aqueles que, de fato, desejam um Brasil menos ruim de que a omissão, neste momento, equivale a entregar todos nós às mãos de quem governará ao lado dos marginais recém-eleitos.
Há, porém, uma possibilidade real de resistência: manter na Presidência alguém que, pelo enorme peso político que possui, tenha condições de enfrentar esse cenário.
É disso que se trata o segundo turno.

