O Brasil e a democracia como intervalo

Por XICO MALTA

Às vezes, tenho a impressão de que minha vida democrática foi apenas um intervalo entre a ditadura militar e a ascensão de um autoritarismo que mistura religião, ressentimento de classe e violência. Cresci sob a agonia dos militares no poder. Vi a derrota das Diretas Já, a transição desembocar em Sarney e a televisão ajudar a vender Collor como salvação nacional. Depois vieram anos em que pareceu possível construir outro país. Hoje me pergunto quanto daquela construção chegou às nossas estruturas e quanto ficou na superfície.

O Brasil é profundamente conservador em boa parte de seu território. Mas o conservadorismo, sozinho, não explica nossa facilidade para aceitar o autoritarismo. O problema começa quando conservar significa preservar hierarquias, impedir a mobilidade dos outros e tratar qualquer distribuição de poder como uma ameaça à ordem natural.

Parte da burguesia brasileira se comporta como uma casta. Uma sociedade de castas que dispensa justificativa religiosa: basta o sobrenome, o patrimônio, o endereço e a certeza de pertencer a uma categoria superior. Seu egotismo é tão profundo que o país inteiro parece existir para servir à sua posição social. Pode admitir que o pobre melhore de vida, desde que continue sabendo o seu lugar.

É por isso que o paternalismo lhe serve tão bem. O favor mantém a dependência; o direito cria autonomia. A cesta básica permite gratidão pessoal; o salário digno permite liberdade. Compartilhar uma pequena parcela da riqueza pode render prestígio. Compartilhar poder exige aceitar que o outro deixe de pedir licença.

A educação avançou, mas nossa formação democrática não acompanhou esse avanço. Superamos um Brasil majoritariamente analfabeto sem garantir a todos uma educação capaz de desenvolver leitura, interpretação e pensamento crítico. Expandimos matrículas, diplomas e faculdades, muitas vezes com uma base escolar precária. Confundimos certificação com formação. Uma sociedade pode produzir milhões de diplomas e continuar vulnerável a slogans, charlatães e salvadores da pátria.

Aprender a pensar exige história, filosofia, literatura, ciência, debate. Exige ferramentas para reconhecer uma mentira e disposição para questionar a própria certeza. Quando a educação se resume a indicadores, o país pode melhorar na planilha e continuar indefeso diante do púlpito e da tela.

Nesse terreno, lideranças neopentecostais fizeram da religião uma poderosa estrutura de intervenção política. A fé de milhões de pessoas passou a servir a projetos de ocupação da máquina pública. O voto virou demonstração de obediência; o adversário político, inimigo de Deus. A promessa de prosperidade encontrou a ambição de poder.

Minha crítica é dirigida a esse projeto, a seus dirigentes e a seus métodos. A pessoa que procura consolo numa igreja merece respeito. Justamente por isso, sua esperança não deveria ser transformada em instrumento eleitoral nem sua dificuldade material apresentada como insuficiência de fé.

Parte da Igreja Católica respondeu a essa expansão investindo no espetáculo. Padres que dançam, celebridades religiosas, coreografias e grandes plateias. Enquanto isso, o testemunho de alguém como Júlio Lancellotti, que se aproxima dos pobres e dos desabrigados, incomoda até dentro da própria Igreja. O Evangelho exige presença junto a quem sofre. A competição por audiência oferece um caminho muito mais confortável.

Uma Igreja que troca o compromisso com os pobres pela disputa de palco enfraquece sua própria razão de existir. A promessa de enriquecimento já tem seus empresários. O cristianismo deveria ter coragem de falar de justiça, humildade e partilha.

As redes sociais e os púlpitos passaram a comandar grande parte de um debate político cada vez mais raso. A frase curta substitui o argumento. O medo substitui a discussão. A repetição concede aparência de verdade ao absurdo. As ruas ainda importam, mas a mobilização coletiva disputa espaço com uma propaganda que acompanha cada pessoa no bolso, durante o dia inteiro.

A centro-direita e setores que se apresentam como liberais aceitaram essa engrenagem porque derrotar a esquerda passou a valer mais do que preservar a democracia. O liberalismo tornou-se seletivo: liberdade para o capital, tolerância com a coerção sobre os outros. A brutalidade foi aceita como serviço terceirizado.

Bolsonaro foi o capataz escolhido por uma parcela das elites para fazer esse serviço. Elas puderam conservar os modos à mesa enquanto alguém gritava, ameaçava e mobilizava o ressentimento em seu nome.

O ódio a Lula tem uma dimensão de classe que não pode ser escondida atrás de toda e qualquer crítica ao PT. Há oposição legítima, há erros a discutir, há decisões a cobrar. Mas existe também o incômodo com a origem, a fala, a trajetória e, sobretudo, com aqueles que ele representa. Em setores conservadores do Sul e de outras regiões, o bolsonarismo encontrou reconhecimento: alguém percebido como “um dos nossos”. Lula, mesmo depois de tantas décadas na vida pública, continua sendo tratado como um intruso.

O Brasil melhorou desde 1994. A estabilização da moeda teve importância decisiva. Os governos do PT transformaram a vida de muita gente que conhecia apenas a miséria. Os períodos de FHC e Lula, com diferenças e conflitos reais, alimentaram a expectativa de uma democracia que pudesse se consolidar.

Mas confundimos convivência institucional com superação histórica. A cordialidade daquele período permitiu imaginar que as forças autoritárias perderiam espaço naturalmente. Deixamos a serpente circular como se ela não fosse se reproduzir.

O país evitou suas feridas: a escravidão, o racismo, a concentração da terra, a violência policial, a impunidade da ditadura. Preferiu administrar o desconforto. Deixou a formação política à deriva, a educação entregue a soluções estatísticas e a exploração religiosa crescer sob o abrigo da conveniência.

A direita tinha o PSDB. Tinha FHC, Covas, Serra e uma tradição com a qual se podia divergir dentro de um horizonte democrático. Essa tradição se desgastou e perdeu direção. Aécio e Doria não conseguiram lhe dar um futuro. Parte desse campo encontrou então o atalho mais eficaz, simplista e canalha: mergulhar na extrema-direita.

Não atribuam ao PT a responsabilidade por essa escolha. Cobrem seus erros, todos eles. Mas cada campo político responde pelas forças que promove, pelos aliados que aceita e pela violência que decide tolerar. Lula continua na disputa. A direita democrática precisava produzir suas próprias lideranças, enfrentar sua própria crise e defender a democracia sem condicioná-la à derrota da esquerda.

O que chamo de fascismo brasileiro nasce dessa convergência: hierarquia social, culto à força, fabricação de inimigos, religião usada como autoridade política e desprezo pelo pluralismo. Não precisa repetir cada detalhe do passado para carregar sua lógica.

Minha angústia é esta: ter vivido a democracia como um hiato. Ter acreditado que construíamos um caminho e descobrir que tantos apenas aguardavam a oportunidade de restaurar a submissão.

Que Deus abençoe os pobres deste país. E, por favor, não os culpem pelo abandono a que foram submetidos.

A esperança aqui dura segundos. A tarefa de defendê-la ocupa uma vida.

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