Deus, pátria e orgia

Da FOLHA
Por MARILIZ PEREIRA JORGE
- Me senti uma senhorinha religiosa ao ler que Flávio fez uma festinha com prostitutas no lago Paranoá
- Atrás de cada paladino da virtude, há um falso puritano que chafurda na sacanagem no quarto
Bonita a cena em que Flávio Bolsonaro posa ao lado da mulher, Fernanda, com um buquê de rosas vermelhas na comemoração do aniversário dela. Pelo meu olhômetro, eram umas 120 colombianas bem parrudas. Haja flor para compensar a humilhação de ser traída com prostitutas em orgias e ainda precisar sorrir para a foto da campanha.
Eu, que me considero uma mulher progressista, me senti uma senhorinha religiosa ao ler que o “zero um” fez uma festinha numa lancha no Lago Paranoá com direito a profissionais do sexo, bebidas e lobistas para negociar vacina superfaturada com o governo do pai.
Foi em 17 de julho de 2020, dia em que a Covid matou 1.110 brasileiros. Na saída, um executivo da Precisa (a da Covaxin, que o senador defendeu na CPI) tirou o próprio Rolex do pulso e o deu ao parlamentar. O relógio nem me choca mais diante do histórico da “familícia”. Mas as três garotas de programa levadas de São Paulo para animar o candidato do “Vem com Fé” testaram meu moralismo.
O fato é que nem deveria me espantar. Venho de uma cidade do interior do Paraná que já foi chamada de capital da Reaçolândia. Coleciono histórias de ex-amigos –por quem fui cancelada por meu posicionamento político–, que na juventude e bem depois dela eram muito chegados em festinhas com puta e pó. Mais de um deles obrigou a namorada a abortar. Fora os homens que mantinham casamentos de fachada quando o município inteiro sabia que eram gays nem um pouco enrustidos. Todos votam 22.
Quem sou eu para julgar a vida dos outros? Pois é, não julgo. Quem fez isso com maestria foi Nelson Rodrigues, que transformou em clássicos da literatura toda a devassidão e as taras inconfessáveis que os homens de bem praticam debaixo dos panos. O dramaturgo sabia como ninguém que, atrás de cada paladino da virtude, há um falsos puritano que posa de santo na sala e chafurda na sacanagem no quarto. E, convenhamos, pulada de cerca de político não tem ideologia, a crônica em Brasília está recheada de casos.
O duro é a cara de pau dessa gente que sempre transforma a disputa eleitoral numa “batalha moral” e jura viver sob o lema “Deus, pátria e família” quando o slogan deveria ser atualizado para “Deus, pátria e orgia”, como fez a internet. Mas o problema, segundo essa turma, são as feministas, a autonomia feminina, a liberdade sexual das mulheres, os gays, as lésbicas, a maconha, o aborto legal de menores de idade, o Bolsa Família, o “comunismo”, as próprias putas, quando não estão com eles.
E a esbórnia é reincidente. Em setembro, o PlatôBR revelou mensagens de um ex-sócio sobre noitadas de Flávio com acompanhantes (“Precisa ser tudo sigiloso. Pois nessa época de eleição tá fodaaaa”, pedia o organizador à agenciadora). Prostituição entre adultos não é crime no Código Penal, mas, pelo código de honra dos lares brasileiros, a traição deveria escandalizar. Quando o material chegou a Fernanda Bolsonaro, o senador acusou o antigo parceiro de querer “destruir meu casamento e minha família”. São sempre os outros os culpados, nunca o homem que, por conta própria, trai os votos que fez à mulher, além daqueles que prega como inegociáveis para a sociedade.
E ainda teve o Carnaval de “KN”, iniciais que têm toda cara de serem de Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair e presidente do TSE. No convescote, caviar, “pessoal tudo pelado na piscina” e quarto para o “ministro com 5 meninas”. O ex-ministro Fábio Faria armou a “Festa das Suíças” (120 mulheres para 20 homens), e o deputado Elmar Nascimento pediu “um time aí” para o “profano”, implorando depois à revista piauí: “Isso pode acabar com o meu casamento”.
O mais sórdido, porém, é a barbárie dos poderosos que tratam mulheres como mercadorias. A CPI do Crime Organizado viu indícios de tráfico internacional nos eventos de Daniel Vorcaro, e diálogos divulgados pelo UOL mostram operadores recrutando jovens, inclusive refugiadas ucranianas, chamadas de “creche” e “escravas”. Dos guardiões da virtude não se ouviu um pio. Que moral tem essa gente para falar que a esquerda está acabando com a família? Que família? Aquela formada por homem, mulher, filhos e putas bancadas com dinheiro de propina

