Documentos revelam perseguição a Marcelo Munhoes no Corinthians, com ameaças, intimidação e omissão da Presidência

Ricardo Okabe e Armando Mendonça são os principais nomes apontados; denúncias chegaram ao conhecimento de Osmar Stabile, mas não há, na documentação examinada, registro de providências efetivas para proteger o diretor de Tecnologia.
Documentos internos do Corinthians, incluindo relatórios de auditoria, correspondências eletrônicas e uma notificação formal à Presidência, revelam um ambiente de hostilidade contra Marcelo Munhoes, então diretor de Tecnologia da Informação do clube.
Os episódios registrados entre setembro de 2025 e agosto de 2026 não se limitam a divergências administrativas.
Incluem relatos de ameaças, constrangimentos, desautorizações públicas, interferências funcionais e até advertências dirigidas a funcionários que mantinham relacionamento profissional com Munhoes.
Os principais personagens são o vice-presidente licenciado Armando Mendonça e o superintendente administrativo Ricardo Okabe.
O presidente Osmar Stabile aparece como destinatário de diversas comunicações e de alertas formais, tendo sido cientificado da gravidade das ocorrências.
Nada fez para evitá-las ou punir os agressores.
Um dos episódios mais graves consta do relatório de auditoria interna referente aos materiais esportivos fornecidos pela Nike, em outubro de 2025.
Aquela que tornou o vice-presidente do Corinthians réu por furto qualificado.
No capítulo 23, denominado “Ocorrências Relevantes Durante os Trabalhos”, os auditores registraram pressões, tentativas de interferência e indícios de ameaças.
Segundo o documento, Armando Mendonça manteve duas conversas com Marcelo Munhoes durante a investigação.
Em determinados momentos, conforme o relatório, Mendonça utilizou expressões agressivas e fez alusões interpretadas como ameaças.
A interferência não teria ficado restrita às conversas.
Em 29 de setembro de 2025, Rodrigo Garrote, responsável pelo atendimento da Nike ao Corinthians, compareceu ao Parque São Jorge para prestar esclarecimentos aos auditores.
A reunião ocorria na sala de Munhoes, no terceiro andar, quando Mendonça apareceu sem ter sido convidado.
O vice-presidente foi avisado da presença do representante da Nike pelo gerente administrativo Rafael Salomão, que encontrou Garrote no local e imediatamente comunicou o fato ao dirigente.
Mendonça permaneceu durante toda a reunião.
De acordo com a auditoria, assumiu postura tendenciosa, formulando perguntas que ele próprio respondia, constrangendo os presentes e comprometendo a entrevista.
O encontro foi considerado pouco produtivo, obrigando a equipe a agendar outra conversa com o representante da fornecedora.
As ocorrências foram formalmente registradas pelos responsáveis pela auditoria interna do Corinthians.
Outro episódio revelador ocorreu em 18 de outubro de 2025.
Durante uma conversa com Reginaldo Nascimento, integrante da equipe de auditoria, Ricardo Okabe questionou a participação dele na investigação e perguntou se mantinha amizade com Marcelo Munhoes.
Reginaldo respondeu que havia ingressado no Corinthians por sua competência profissional, sem padrinhos políticos, e que mantinha com Munhoes um bom relacionamento de trabalho.
A reação atribuída a Okabe é estarrecedora.
Segundo a transcrição incorporada ao relatório de auditoria, o superintendente afirmou:
“Qualquer tipo de vínculo com ele [Munhoes] poderia lhe causar sérios problemas no Clube.”
Acrescentou:
“O Munhoes tem incomodado alguns diretores da atual gestão. Ele precisa ser constantemente vigiado.”
E concluiu:
“Não envolverei mais o Munhoes em nenhuma atividade relacionada à Arena.”
As declarações são extremamente graves.
Além de revelar a existência de dirigentes incomodados com a atuação de Munhoes — sem identificá-los —, o relato sugere uma tentativa de intimidar outros profissionais e isolá-lo administrativamente.
A mensagem atribuída a Okabe era inequívoca: trabalhar próximo ao diretor de Tecnologia poderia trazer consequências.
O relatório classificou os acontecimentos como possíveis tentativas de intimidação e assédio moral, apontando riscos à independência dos trabalhos de fiscalização.
Mais importante: a equipe comunicou formalmente o ocorrido ao presidente Osmar Stabile, solicitando proteção contra eventuais retaliações.
Portanto, a Presidência foi alertada ainda em 2025.
Nos meses seguintes, a hostilidade assumiu outra forma.
Em 10 de fevereiro de 2026, Ricardo Okabe encaminhou mensagem a Munhoes, com cópia à Presidência e a diversos funcionários, exigindo que solicitações relacionadas à Arena e ao Fiel Torcedor fossem realizadas exclusivamente pelos canais oficiais.
Também questionou a utilização de colaboradores para atender às solicitações do diretor de Tecnologia.
A cobrança, isoladamente, poderia ser interpretada como uma discussão legítima sobre procedimentos administrativos.
O problema está no contexto.
Munhoes era responsável justamente pelos sistemas, integrações, acessos e infraestrutura tecnológica do Corinthians, atividades que necessariamente exigiam interação com outros departamentos.
As divergências tornaram-se ainda mais explícitas em abril.
Em 5 de abril de 2026, Okabe encaminhou uma mensagem a diversos funcionários solicitando que desconsiderassem uma comunicação relacionada à liberação de ingressos, até que o departamento de Tecnologia tratasse do assunto com os responsáveis pela arrecadação.
“Seguimos uma hierarquia que no mínimo tem que ser respeitada”, escreveu.
No dia seguinte, Munhoes respondeu que as medidas deveriam observar as diretrizes de governança e a formalização dos responsáveis, acrescentando que não executaria ações que configurassem não conformidade.
Okabe replicou:
“Não me oponho, somente tenho que ser informado e concordar, não simplesmente que você imponha situações aos colaboradores de um departamento que não é de sua responsabilidade.”
E arrematou:
“Aí não é questão de governança, isso se chama ética profissional.”
A mensagem foi enviada com diversos dirigentes e funcionários copiados, incluindo Osmar Stabile.
O resultado prático foi a exposição de um diretor perante seus subordinados e outros departamentos.
Chama a atenção é a recorrência de contestações públicas à autoridade de Munhoes, exatamente como havia sido relatado na auditoria da Nike.
A situação avançou para o isolamento funcional.
Na notificação formal encaminhada à Presidência em agosto de 2026, Munhoes relatou ter sido retirado de grupos oficiais de WhatsApp destinados à coordenação de atividades relacionadas à venda de ingressos.
Entre eles estavam canais utilizados para organizar ingressos destinados a visitantes internacionais da Conmebol Libertadores.
A exclusão obrigava o diretor de Tecnologia a recorrer a contatos individuais e comunicações paralelas para obter informações necessárias ao funcionamento dos sistemas sob sua responsabilidade.
É uma situação que desafia a lógica administrativa.
O responsável pela infraestrutura tecnológica de uma operação deixava de participar dos canais nos quais decisões operacionais eram discutidas.
O documento também aponta a existência de iniciativas tecnológicas paralelas e processos conduzidos sem a participação adequada da TI, criando riscos relacionados à segurança da informação, à proteção de dados e à rastreabilidade das decisões.
Nesse cenário, a exclusão de Munhoes não seria apenas um problema pessoal.
Poderia comprometer controles importantes do próprio Corinthians.
Outro episódio ocorreu durante as discussões sobre a implantação do sistema TOTVS/RM, destinado à modernização de processos administrativos do clube.
Em 18 de junho de 2026, Munhoes encaminhou mensagem ao Departamento de Recursos Humanos alertando que o projeto permanecia atrasado, apesar de aproximadamente dois anos e meio de trabalho.
O diretor apontou a necessidade de priorização das atividades pendentes, especialmente aquelas relacionadas a cadastros, validação de informações e homologação do sistema.
Em 5 de julho, Fabiana Pereira da Silva, do RH, respondeu que sua equipe havia atendido todas as demandas formalmente recebidas e aguardava cronograma atualizado, checklist de validação e matriz de responsabilidades.
Havia, portanto, divergências concretas sobre o andamento do projeto e as obrigações de cada área.
Em 9 de julho, porém, Okabe elevou o tom.
“Acredito que mais uma vez o departamento de TI usou dos seus modos atuantes e em reunião com o Presidente justificou o atraso do projeto”, escreveu.
Na sequência, cobrou explicações e afirmou:
“Uma reunião com TODOS os envolvidos e o Presidente seria uma coisa mais honesta.”
A manifestação insinuava falta de transparência da equipe de Tecnologia diante da Presidência.
Novamente, o presidente Stabile recebeu cópia da correspondência.
O conflito técnico, que deveria ser solucionado mediante apresentação de cronogramas, responsabilidades e resultados, transformava-se em mais um episódio de exposição e desqualificação profissional.
Em agosto de 2026, o conflito envolveu a empresa RD Soluções Tecnológicas, responsável por serviços de monitoramento.
Em 14 de agosto, Munhoes autorizou o pagamento de uma parcela referente a acordo financeiro com a fornecedora.
Na mesma comunicação, solicitou que eventuais bloqueios de pagamentos de fornecedores da TI fossem previamente submetidos à Diretoria de Tecnologia ou à Presidência.
João Henrique Rodrigues, do Financeiro, informou que a solicitação de bloqueio havia partido da Presidência.
Líbero Miguel Garcia, da área administrativa, justificou a retenção com base em problemas identificados na central de monitoramento, como câmeras sem imagens disponíveis em tempo real, deficiência de manutenção e informações técnicas incompletas.
A equipe de Tecnologia apresentou contrapontos.
Marcius Ayres reconheceu a existência de melhorias necessárias, mas contestou a descrição de precariedade da estrutura.
Também informou que os serviços não haviam sido interrompidos e que alternativas de fornecedores estavam sendo avaliadas.
Em 18 de agosto, após reunião entre as áreas envolvidas, Munhoes voltou a solicitar o pagamento, e João Henrique Rodrigues confirmou que a parcela seria encaminhada para quitação.
No dia 19, Okabe reagiu:
“Diante da decisão imposta pelo Diretor de TI sobre os pagamentos pendentes à empresa de monitoramento, solicito o relatório de cumprimento das pendências que identificamos, bem como o cronograma de execução das mesmas.”
A documentação mostra que a disputa também envolvia a delimitação de competências e o questionamento da autoridade do diretor de Tecnologia.
Mais uma vez, a Presidência acompanhava os acontecimentos por meio das correspondências.
Em 19 de agosto de 2026, Munhoes decidiu formalizar as reclamações.
Encaminhou ao presidente Osmar Stabile uma notificação de 15 páginas, incluindo anexos, intitulada “Governança, Hierarquia, Ambiente de Trabalho e Preservação das Atribuições Administrativas”.
O documento identifica expressamente Ricardo Okabe como noticiado e descreve a sucessão de interferências na Diretoria de Tecnologia.
Munhoes relacionou consequências como retrabalho, duplicidade de comandos, atrasos, insegurança da informação, fragilização dos controles internos e deterioração do ambiente profissional.
Também recuperou o episódio da auditoria da Nike, especialmente a advertência atribuída a Okabe de que profissionais próximos a Munhoes poderiam enfrentar problemas no clube.
O texto ressalta a importância de impedir constrangimentos, intimidações e retaliações contra funcionários no exercício regular de suas atribuições.
Entre as providências solicitadas está a cessação das ingerências de Ricardo Okabe nas decisões, nos processos e na gestão dos profissionais vinculados à Tecnologia, ressalvadas as situações formalmente autorizadas pela Presidência.
Munhoes informou, ainda, que documentos e comunicações haviam sido preservados para eventual exame administrativo, disciplinar ou judicial.
Às 22h39 daquele mesmo dia, encaminhou a notificação por e-mail diretamente a Stabile, à Presidência e ao próprio Okabe, com cópia para Pedro Luis Soares.
Não havia, portanto, qualquer possibilidade razoável de a Presidência alegar desconhecimento da denúncia depois do recebimento da comunicação.
A postura da Presidência merece atenção especial.
Nos documentos examinados, não há comprovação de abertura de investigação específica, aplicação de medidas disciplinares ou adoção de providências protetivas em favor do diretor de Tecnologia.
A omissão diante de denúncias dessa natureza seria comprovação de que os mecanismos internos de proteção e governança não funcionam adequadamente quando confrontados com interesses e disputas de poder.
Marcelo Munhoes foi demitido.
Seus agressores permanecem nos cargos e o Presidente do Corinthians, sabe-se lá por quais razões, parece ter interesse em protegê-los.

