7,6% dos ingressos do Corinthians são desviados a assessores do clube

Segundo informações reveladas pela Gazeta Esportiva, aproximadamente 300 conselheiros e 340 assessores do clube possuem, a cada partida na Arena de Itaquera, direito a uma cortesia e à aquisição de outros quatro ingressos com descontos entre 20% e 30%.
São 3.200 ingressos por jogo retirados, inicialmente, do alcance do torcedor comum.
A dimensão do privilégio fica mais clara quando colocamos dinheiro nessa conta.
Em 2025, segundo as próprias demonstrações financeiras do Corinthians, o time masculino realizou 38 partidas na Arena, recebeu, em média, 41.840 torcedores e arrecadou R$ 114,7 milhões em bilheteria.
O ticket médio ficou, portanto, em aproximadamente R$ 72.
Em 2026, os borderôs disponíveis indicam praticamente a mesma coisa: cerca de R$ 71 por pagante.
Nos quatro anos entre 2022 e 2025, o Corinthians disputou, em média, 36,5 partidas por temporada na Arena.
Façamos, então, a conta mais conservadora.
Dos 3.200 ingressos, 640 são gratuitos.
Os outros 2.560, admitindo-se descontos entre 20% e 30%, deixam de gerar exatamente essa parcela da receita.
Ao ticket médio de R$ 72, o Corinthians abre mão de aproximadamente R$ 83 mil a R$ 101 mil por jogo.
Em uma temporada média, são cerca de R$ 3 milhões a R$ 3,7 milhões.
Esse é o piso mais defensável para a estimativa, porque utiliza o ticket médio efetivamente apurado na Arena, sem presumir que os ingressos destinados a conselheiros e assessores estejam concentrados nos setores mais caros.
Só essa cifra já seria difícil de explicar num clube que deve bilhões, atrasa compromissos e vive pedindo dinheiro e compreensão ao torcedor.
O problema é que esse cálculo provavelmente está longe de revelar toda a dimensão do privilégio.
O ticket médio mistura o corintiano que paga mais barato nos setores populares com os ocupantes das melhores cadeiras da Arena.
E há evidências de que parte dos ingressos distribuídos fora do fluxo normal envolve justamente setores valorizados.
Em setembro de 2025, por exemplo, para Corinthians e Flamengo, o preço de face chegava a R$ 430 no Oeste Inferior Lateral.
Em 2026, no clássico contra o Palmeiras, setores do Oeste chegaram a R$ 380.
Há caso ainda mais espantoso.
Em março de 2025, para a final do Campeonato Paulista contra o Palmeiras, uma única pessoa adquiriu diretamente do Corinthians seis ingressos do Oeste Inferior Central por R$ 900 cada um, fora do Fiel Torcedor.
Ou seja: dentro da própria estrutura de distribuição paralela de ingressos do Corinthians existem lugares cujo valor pode ser muitas vezes superior ao ticket médio.
Por isso, é possível construir um segundo cenário, não como prejuízo efetivamente comprovado, mas como referência do impacto que o privilégio pode alcançar quando envolve cadeiras mais caras.
Se utilizarmos R$ 400 como referência, os 640 ingressos gratuitos representariam R$ 256 mil de receita potencial perdida por partida.
Os descontos dos outros 2.560 acrescentariam entre R$ 204,8 mil e R$ 307,2 mil à renúncia.
Total: entre R$ 460,8 mil e R$ 563,2 mil por jogo.
Projetados sobre a média de 36,5 partidas anuais, seriam entre R$ 16,8 milhões e R$ 20,6 milhões por temporada.
Adotando-se R$ 430, preço praticado em setor valorizado contra o Flamengo, o cenário sobe para aproximadamente R$ 18,1 milhões a R$ 22,1 milhões por ano.
Portanto, enquanto os R$ 3 milhões a R$ 3,7 milhões representam uma estimativa conservadora baseada no ticket médio da Arena, algo na faixa de R$ 18 milhões a R$ 22 milhões anuais constitui um cenário possível caso parcela relevante desses ingressos esteja concentrada em cadeiras mais valorizadas.
Existe ainda um terceiro cálculo, que deve ser tratado apenas como teto matemático.
Tomando como referência os R$ 900 cobrados pelas cadeiras do Oeste Inferior Central na final do Paulista de 2025 e supondo, exclusivamente para fins de demonstração, que toda a carga de 3.200 ingressos estivesse nesse patamar, a renúncia poderia alcançar entre R$ 1,03 milhão e R$ 1,26 milhão em uma única partida.
Ao longo de uma temporada média, seriam aproximadamente R$ 37,8 milhões a R$ 46,3 milhões.
Para chegar ao número real, o Corinthians precisaria revelar, partida por partida, quantos ingressos foram destinados a conselheiros e assessores, em quais setores, por quais valores e quantos deles foram efetivamente utilizados.
Seja qual for o setor utilizado — e os valores exatos ainda precisam ser apurados —, estamos falando de uma carga equivalente a aproximadamente 7,6% de todo o público médio registrado pelo Corinthians em 2025.
Quase oito em cada cem lugares ocupados numa partida média podem passar primeiro pelas mãos de conselheiros e assessores.
Enquanto isso, o torcedor que sustenta o Corinthians precisa pagar mensalidade ao Fiel Torcedor, acumular pontos, disputar prioridade e enfrentar filas virtuais para tentar adquirir o que ainda sobrou.
Sem contar que esse sistema, todos sabem, ao menos em parte alimenta outro: o dos cambistas ligados a personagens da política alvinegra e a integrantes de torcidas organizadas.
Nesse caso, o prejuízo é ainda maior.
O Corinthians deixa de arrecadar, o torcedor paga mais caro e quem se beneficia é justamente quem teve acesso privilegiado aos ingressos que deveriam estar disponíveis, em condições transparentes e iguais, para quem efetivamente sustenta o clube.

