Relembre a atuação do Centrão no Corinthians

Há quase vinte anos, um mesmo grupo de personagens circula pelo poder no Corinthians apresentando-se, conforme a conveniência do momento, como situação, oposição, terceira via, renovação ou salvação.

É o Centrão.

Mudam os nomes das chapas, os candidatos e os discursos, mas os personagens são quase sempre os mesmos.

Raul Corrêa da Silva, Felipe Ezabella, Sérgio Alvarenga, Fernando Alba e outros que, posteriormente, agregaram nomes como Rozallah Santoro e Paulo Pedro estiveram, direta ou indiretamente, vinculados às administrações que comandaram o Corinthians desde a queda de Alberto Dualib.

Quando Andrés Sanchez assumiu o Corinthians em 2007, os então denominados “Corinthianos Obsessivos” integravam a base política que o conduziu ao poder.

Felipe Ezabella, Sérgio Alvarenga, Raul Corrêa da Silva e Fernando Alba ocuparam espaços relevantes dentro da estrutura administrativa da Renovação e Transparência.

Em entrevista daquele período, Alvarenga explicou a adesão: “Ele (Andrés) teve a capacidade de nos conquistar.”

Felipe Ezabella complementou, elogiando o então presidente por seu “jogo de cintura para administrar a convivência dos dois grupos”.

Anos depois, já tentando vestir a fantasia de oposicionista, Raul Corrêa da Silva fez questão de deixar registrada sua admiração pelo antigo chefe.

Na despedida de Andrés da presidência, em janeiro de 2021, Raul afirmou que o cartola tinha “méritos, muitos”, classificou-o como “um grande Corinthiano” e encerrou com um agradecimento: “Obrigado presidente Andres”.

Mais revelador ainda foi admitir que, embora tivesse recusado convite para ser primeiro vice em 2018 por integrar outro grupo político, “procurei contribuir com a gestão”.

Em 2017, quando os antigos Obsessivos já haviam se rebatizado como Movimento Corinthians Grande, o discurso interno para não descartar uma recomposição com Andrés era de que ele havia feito “muitas coisas boas para o clube”.

Na sequência, veio Mário Gobbi.

O delegado era o sucessor escolhido por Andrés e contou com o apoio dos Corinthianos Obsessivos.

Raul permaneceu como diretor financeiro; Fernando Alba assumiu a base; Sérgio Alvarenga tornou-se assessor da Presidência.

Felipe Ezabella também continuou politicamente inserido naquele ambiente.

Mais tarde, quando Gobbi rompeu com Andrés e tentou renascer como “oposição”, os mesmos personagens reapareceram ao seu lado.

Em 2020, o Movimento Corinthians Grande transformou Gobbi em seu candidato à Presidência.

Felipe Ezabella foi escolhido primeiro vice-presidente.

Raul Corrêa era apresentado publicamente como apoiador da candidatura; Fernando Alba atuava na articulação política.

Homens que haviam participado das administrações de Andrés e Gobbi passaram a oferecer Gobbi, integrante histórico da Renovação e Transparência, como alternativa ao sistema do qual todos eles haviam participado.

Chegamos a Roberto de Andrade.

Nesse período, parte do grupo afastou-se formalmente da linha de frente, mas nem assim desapareceu da administração.

Raul Corrêa continuou colaborando com a gestão Roberto de Andrade.

Fernando Alba foi convidado em 2016 para retornar ao futebol.

Aceitou inicialmente a função de diretor-adjunto e desistiu horas depois, pressionado por aliados políticos.

Ou seja, a disposição de retornar existiu.

Felipe Ezabella, mesmo fazendo críticas administrativas a Roberto, reconhecia publicamente os méritos esportivos daquela administração.

Era a velha política do Parque São Jorge: critica-se o que convém e preserva-se o que poderá ser útil amanhã.

Quando Andrés retornou à Presidência, em 2018, a história se repetiu.

Raul revelou depois ter recebido convite para ser vice-presidente e, mesmo recusando o posto, confessou, como de hábito, ‘contribuir com a administração’.

Vieram então as eleições de 2020.

O grupo apoiou Gobbi para derrotar Duílio Monteiro Alves.

Porém, parentes de conselheiros do Centrão permaneceram empregados na gestão a que se apresentavam opositores.

Essa conta, ou acordo, foi paga na sequência.

Depois dos três anos de Duílio, quando chegou a hora de julgar suas contas, integrantes relevantes do mesmo agrupamento ajudaram a legitimá-las.

Felipe Ezabella e Paulo Pedro votaram pela aprovação, ainda que “com ressalvas”, das lamentáveis contas de 2023 da gestão Duílio.

Chegamos então a Augusto Melo.

O Centrão declarou formalmente apoio a Augusto em 11 de julho de 2023.

Felipe Ezabella e Fernando Alba apareciam como lideranças do movimento.

Sérgio Alvarenga já trabalhava antes disso pela aproximação.

Em março de 2023, o Blog do Paulinho registrou que Alvarenga atuava como uma espécie de “embaixador” de Augusto Melo, recomendando sua candidatura em ambientes políticos.

Raul Corrêa da Silva também declarou apoio a Augusto.

Fernando Alba chegou a explicar: “Hoje transparência é questão de sobrevivência.”

Augusto venceu.

Rozallah Santoro assumiu a Diretoria Financeira.

Alba tornou-se diretor-adjunto de futebol.

Armando Mendonça foi eleito vice-presidente.

Somente quando começaram os escândalos da gestão vieram os rompimentos.

Ainda assim, nem todos foram imediatos.

Rozallah, por exemplo, era diretor financeiro quando o caso Vai de Bet veio a público.

Pediu afastamento, mas depois retornou, saindo definitivamente somente após o então Presidente interferir em suas funções, não pelo furto comprovadamente cometido.

Mesmo meses depois, em depoimento à Comissão de Ética em setembro de 2024, declarou:

“Manifestei-me claramente contra o pedido de impeachment […] posição que sustento até a data desta resposta.”

Fernando Alba e Rozallah deixaram oficialmente a gestão apenas em junho de 2024.

Meses após os rolos escancarados.

Agora temos Osmar Stábile.

Outra vez, personagens daquele mesmo universo político continuam ao redor do poder.

Rozallah Santoro, sem esconder, passou a auxiliar a nova administração financeira comandada formalmente por Emerson Piovesan.

Em meio a essa movimentação, não deixa de ser simbólico que Sérgio Alvarenga, em 2025, tenha novamente procurado Andrés Sanchez — seu antigo companheiro de caminhada — num movimento em torno da sucessão política do Corinthians.

Andrés confirmou que recebeu pedido de apoio político e lembrou que o Movimento Corinthians Grande “nasceu conosco e caminhou ao nosso lado por tanto tempo”.

Declaração que sintetiza essa história.

Eles nasceram juntos e, apesar das brigas, nunca estiveram tão separados quanto tentaram fazer o torcedor acreditar.

O Centrão, com diferentes composições ao longo do tempo, participou, apoiou, colaborou ou posteriormente legitimou todas as administrações que governaram o Corinthians desde 2007.

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