Entre juízes e justiceiros

Da LIBERTA
Por JUCA KFOURI
Que jamais nos dobremos diante de opções como torcer por corruptos ou golpistas
A sociedade em regra se entusiasma quando vê juízes que saem distribuindo decisões no atacado, mesmo sem respeitar o chamado devido processo legal, aparentemente para fazer justiça.
Quantos não se entusiasmaram com Sérgio Moro quando ele, de terno preto e camisa preta, surgiu como verdadeiro xerife da chamada República de Curitiba?
Enfim, se dizia, alguém com coragem para encarcerar tubarões como nunca se vira antes no Brasil.
Era tudo, ou quase tudo, mentira. E o que era verdade, mesmo seletiva, acabou desmoralizada pelo montão de mentiras.
Numa época em que nem os árbitros de futebol usavam mais uniformes pretos pelos gramados do Planeta Bola, o “conje” de Rosangela, que surfou na onda dele para se eleger deputada federal, se afogava em popularidade.
Acabou escolhido como “Homem do ano” tanto de O Globo quanto da Câmara do Comércio Brasil-Estados Unidos, para alegria do Departamento do Estado em Washington-DC, sim, DC, como gosta de citar, pernosticamente, o fugitivo Eduardo Bolsonaro.
Desconfiem a rara leitora e o raro leitor quando alguém resolve fazer justiça com as próprias mãos.
Não confundam juízes com justiceiros, justiça com justiçamento.
É 100% certo o fracasso até mesmo nos acertos, anulados em regra pelo uso de meios ao arrepio da lei.
Bastava olhar para a figura vestida mais ao estilo mafioso do que de magistrado, com seu inseparável maçaneta de olhar messiânico, Deltan Dallagnol, para vaticinar que a Justiça os atropelaria, anularia seus atos, além de sentenciar um como suspeito e cassar o mandato do outro.
Note como André Mendonça tem o mesmíssimo olhar inquieto, dissimulado, indireto, evasivo de Dallagnol, embora se vista mais discretamente do que Moro, talvez orientado pela madrinha Michelle Bolsonaro.
Com métodos torpes, o terrivelmente evangélico abriu a maior guerra já vista no STJ, batalha religiosa, fanática, ao partir para cima da cúpula da Polícia Federal e de Alexandre de Moraes. Cujos usos e costumes estão longe de ficar atrás dos de Mendonça, com a diferença de serem menos disfarçados, embora também em doses cavalares.
Pausa para hidratação.
Tribunais isentos e justiça social
Quando aquele que era visto, com motivos, como grande zagueiro da democracia, passou a exorbitar em suas funções, a se comportar com modos nada republicanos, e por isso devidamente criticado, foram muitos os que protestaram contra as críticas, de maneira acrítica, para protegê-lo.
De lá para cá, como vimos, só piorou, para azar do Brasil.
A ganância despudorada, a sensação de poder ilimitado, a arrogância e a certeza de impunidade conduzem ao desatino sem medir consequências.
O resultado aí está.
A menos de um mês da eleição, o clima é de desânimo.
De incerteza, tristeza e de que, do mesmo jeito que os golpistas jamais se preocuparam com a corrupção, campeões que são no quesito, houve quem, em nome da democracia, apenas defendeu a intocabilidade de seus privilégios para enriquecer.
Para quem torcer em meio à tormenta?
Que jamais nos dobremos postos diante de opções como torcer pelos corruptos ou pelos golpistas.
Torçamos para ninguém, ou melhor, apenas para que surja o sol desinfetante que ilumine o caminho do reencontro nacional com a verdadeira Justiça.
Justiça nos tribunais isentos, justiça social.
Se o mais alto tribunal brasileiro não for capaz nem de estabelecer um Código de Ética, sobreviverá a máxima de Stanislaw Ponte Preta: “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”.
Mas, não.
A luta dos verdadeiros democratas deve ser obviamente pelo expurgo dos que ameaçam a democracia – e a dos progressistas a de não contemporizar com corrupção ou falta de ética de quem quer que seja, sem moralismo ingênuo, udenista, mas com moral inflexível.
Abafar o “caso Toffoli” foi imperdoável.
E é gritante que, entre todos os candidatos postos para todos o cargos da República, a escolha só possa ser por aqueles que têm compromisso com a maioria injustiçada do povo brasileiro, aqueles que mais uma vez saíram do mapa da fome.
Qualquer outra escolha será por quem retirará direitos dos trabalhadores, privatizará até a água, e atentará contra a democracia, além de mandar a soberania para Washington.

