Que tom de esmalte vai bem com genocídio?

Da FOLHA

Por MAFALDA ANJOS

  • Israel aposta em idiotas úteis para limpar imagem
  • Influencers papagueiam propaganda nas redes sociais a preço promocional

Vermelho sangue ou cor de mão limpa: qual a melhor unha para usar numa visita a Israel e a Gaza? A pergunta é retórica… ou talvez não. Pode mesmo ter sido ponderada por alguns dos oito influencers que aceitaram participar de uma viagem da máquina de propaganda israelita, tendo em conta o emoji da unha pintada que acompanha o post de uma delas e que termina com a frase “Life is so cool when you don’t care”.

O caso está gerando polêmica em Portugal. Uma delegação de influencers portugueses viajou a convite de Israel e foi recebida com protocolo VIP pelas autoridades. O grupo até entrou nos túneis do Hamas, compartilhando vídeos e fotografias nas redes sociais.

De capacete e colete, uma das participantes filma-se na saída de Gaza fazendo o gesto de vitória de Cristiano Ronaldo e anuncia que está “pronta para lutar contra a desinformação”. Outra diz que “o mais fixe [legal] em Israel é que eles não têm a intenção de se vingar de ninguém, o amor é a palavra que mais usam”. Tudo isto no mesmo dia em que um ataque aéreo israelense mata uma família de seis pessoas em Gaza.

Os influencers convidados dizem que o objetivo é “reportar” sobre a vida em Israel e os atentados de 7 de outubro de 2023, quando não há acesso livre de jornalistas estrangeiros a Gaza, onde já morreram 262 repórteres assassinados. Ao contrário dos jornalistas, esses pretensos influenciadores não estão obrigados a códigos deontológicos, imparcialidade ou isenção, ou seja, podem emprenhar pelos ouvidos e espalhar mensagens acríticas sem pudor.

Utilizar “idiotas úteis” para espalhar mensagens positivas em relação a um país ou organização com má imagem é uma clássica manobra de propaganda. Mas, hoje, a tarefa está facilitada: os idiotas estão por todos os lados a preço promocional nas redes, e os algoritmos os adoram.

Essas visitas de grupos de vários países têm sido frequentes em Israel, que tem um orçamento de US$ 730 milhões para a diplomacia pública —a “hasbara”, que significa “explicação” em hebraico.

Entende-se a necessidade: graças a Netanyahu, que tem um mandado de captura internacional do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra em Gaza, a imagem de Israel no mundo é fortemente negativa. Nada disso tem a ver, como alguns gostam de dizer, com antissemitismo ou antissionismo.

Defendo o direito à existência de Israel, nada tenho contra israelenses nem contra judeus, mas considero esse governo uma organização criminosa, responsável por um morticínio hediondo de mais de 73 mil palestinos, extermínio que várias organizações internacionais e especialistas entendem ser um genocídio.

O 7 de Outubro foi o dia mais sangrento da história de Israel, com mais de 1.200 mortos e 250 reféns, mas a resposta foi desumana, desproporcional e totalmente inadmissível.

Ter quem, por um punhado de moedas, feche os olhos a isto e papagueie coisas bonitas sobre Israel é muito conveniente. Como diz o título do livro de Omar El Akkad, “Um Dia, Sempre Teremos Sido Todos Contra Isto”, e será impossível negar a chacina do povo palestino.

Mas esses idiotas úteis, com os seus posts e reels infames, ficarão para a história com a imagem manchada de sangue por terem ajudado a apagar os crimes.

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