Artista e jornalista que anunciam bet jogam imagem no lixo, aponta pesquisa

Do UOL

Por LEONARDO SAKAMOTO

Há uma conta que artistas, atletas, jornalistas e influenciadores deveriam fazer antes de emprestar o rosto, a voz e a credibilidade a uma casa de apostas. Não aquela que calcula quantos zeros haverá no contrato, mas a que mede quanto da própria reputação será queimado para receber o dinheiro.

Pesquisa More in Common/Ipsos-Ipec mostra que 40% dos brasileiros não confiam ou passam a confiar menos em quem anuncia bets. Outros 51% têm uma visão negativa dessas pessoas, enquanto míseros 10% manifestam uma avaliação positiva. Ou seja, o cachê pode ser gordo, mas vem acompanhado de uma injeção de Mounjaro na credibilidade. A margem de erro é de dois pontos.

Nas respostas espontâneas, apareceram definições como “egoísta”, “ganancioso”, “manipulador”, “irresponsável” e “sem caráter”. Não é pouca coisa. O público percebe que aquela pessoa sorridente não está oferecendo apenas entretenimento, mas usando a confiança acumulada ao longo de anos para empurrar seguidores em direção a um negócio no qual a banca ganha justamente quando eles perdem. E que vem gerando uma crise de saúde pública no país, com o endividamento levando ao adoecimento, à erosão familiar e até ao suicídio.

É o grande trade off das bets. O influenciador recebe dinheiro agora, mas desvaloriza o ativo que lhe permite ganhar dinheiro amanhã: a própria imagem. Troca reputação de longo prazo por receita imediata, como alguém que vende as telhas da casa para pagar uma balada e depois se espanta quando começa a chover.

O prejuízo é ainda maior entre os públicos considerados mais valiosos pelo mercado publicitário. Entre quem tem ensino superior, 48% não confiam ou passam a confiar menos em quem promove apostas. Entre as pessoas com renda familiar superior a cinco salários mínimos, o índice chega a 46%. Nesse mesmo grupo, 59% apresentam avaliações negativas sobre os garotos-propaganda das bets.

Em outras palavras, quanto mais dinheiro entra pelo contrato, maior pode ser a erosão do público que sustenta contratos futuros. A celebridade imagina estar monetizando sua influência, mas talvez esteja apenas liquidando o estoque.

A pesquisa trata diretamente de influenciadores, artistas e atletas, mas jornalistas que viram mercadores de apostas entram no mesmo balaio. Com um agravante: a matéria-prima do jornalismo é a confiança. Quem usa a autoridade construída informando o público para convencê-lo a apostar transforma credibilidade jornalística em cupom promocional.

Não adianta argumentar que se trata apenas de um trabalho como qualquer outro ou que é ordem do patrão fazer a propaganda. As bets lucram com perdas repetidas, alcançam pessoas vulneráveis e se apresentam como oportunidade de renda para uma população que frequentemente aposta tentando resolver emergências financeiras.

O artista ou jornalista pode até repetir o aviso de “jogue com responsabilidade”, mas esse rodapé funciona como o “beba com moderação” pronunciado enquanto alguém enche o copo do público. De novo, e de novo, e de novo.

Também não basta afirmar que ninguém é obrigado a apostar. Ninguém é obrigado a comprar quase nada que a publicidade oferece. A razão para empresas gastarem fortunas com personalidades é justamente sua capacidade de influenciar escolhas. Aceitar o cachê e, depois, negar a influência é querer receber pelo poder de convencimento sem assumir responsabilidade por ele.

Bets podem comprar horário na televisão, espaço em estádio, publicação em rede social e sorriso de celebridade. O que elas não conseguem garantir é que a confiança do público sobreviva à propaganda. E, para artistas e jornalistas, descobrir que a imagem foi vendida barato costuma acontecer quando ninguém mais quer comprá-la.

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