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A rachadinha do Jair

Da FOLHA

Por GUILHERME BOULOS

Os filhos apenas seguiram a maracutaia construída pelo pai

O chefe do esquema sempre foi o Jair. A relação com o Queiroz era dele, não do Flavio. A Val do Açaí era funcionária fantasma no seu gabinete, como confrontamos no debate eleitoral, ainda em 2018. Não é exatamente uma novidade que os filhos apenas seguiram a maracutaia construída pelo pai. A novidade é que temos agora um relato direto e gravado de uma das participantes do esquema, Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada do presidente, falando sobre a rachadinha do Jair.

Andrea, um dos 18 parentes de Ana Cristina Valle —ex-mulher de Bolsonaro— contratados pelos gabinetes da família, relata nas gravações que seu irmão André foi demitido em 2007 pelo então deputado Jair porque entregava uma parte menor do salário do que ele desejava: “Chega! Pode tirar ele, porque ele nunca me devolve o dinheiro certo”, teria dito o homem que, anos depois, se elegeu presidente para acabar com a “mamata” e “mudar tudo o que está aí”.

Ela, por sua vez, contratada no gabinete de Flavio, atendia às exigências e ficava com “mil e poucos reais” enquanto repassava “sete mil” ao então deputado estadual fluminense. Relata ainda que o dinheiro era recolhido pelo coronel da reserva Guilherme Hudson, chamado de “tio Hudson”, mostrando que Queiroz não era o único operador das rachadinhas.

É emblemático que a reportagem com as gravações de Andrea tenha sido produzida por uma jornalista mulher, Juliana Dal Piva. Já havia sido assim no caso dos disparos ilegais de mensagens na campanha presidencial, revelado pela jornalista Patrícia Campos Mello. Como todo covarde, Bolsonaro as ataca porque as teme.

O caso é revelador porque deixa a nu a teia de corrupção miúda que Bolsonaro sempre operou na política. Olhando as práticas fica evidente que, quando deputado, ele não participou de esquemas maiores —o que sempre apresentou como seu atestado de honestidade— simplesmente porque não foi chamado para a festa. Ou alguém acredita que um cidadão que usou por 27 anos seu gabinete para um negócio familiar de extorsão de assessores não aceitaria propina de empreiteiras?

Isso torna ainda mais verossímil sua participação ou, no mínimo, cumplicidade com a quadrilha da vacina denunciada na CPI por Luis Miranda. O que estamos vendo agora em 2021 é o “mito” desabar, tal qual os prédios erguidos por seus amigos milicianos. E se há algo que pode criar rachaduras na base fiel do bolsonarismo, mais do que o genocídio de 520 mil brasileiros, é a corrupção.

Vai ficando cada vez mais difícil para o presidente da Câmara seguir dormindo em berço esplêndido em cima dos 123 pedidos de impeachment. As denúncias se multiplicam e as ruas clamam. E agora, Lira?

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