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Por que a contratação e o silêncio do Santos sobre Robinho incomodaram

O presidente do Santos, Orlando Rollo, cumprimenta Robinho ao anunciar sua contratação

Da FOLHA

Por RENATA MENDONÇA

Discussão é sobre aspecto social da atitude tomada pelo clube ao repatriar jogador

A discussão vai além da culpa do Robinho, porque essa quem tem que definir é a Justiça italiana. Não estamos aqui para condená-lo ou absolvê-lo. Estamos aqui para debater o aspecto social da contratação de um jogador acusado de um crime tão grave.

Quando o Santos anuncia Robinho sem mencionar uma palavra sobre o fato de ele responder a um processo de violência sexual, o clube passa uma mensagem: esse crime, pelo qual ele foi acusado e condenado em primeira instância, é detalhe. Não importa. Não é relevante o suficiente para merecer qualquer comentário.

A mensagem é a que recebemos todos os dias da sociedade: nossa vida vale menos. Ou há outra forma de interpretar quando temos uma mulher estuprada a cada 11 minutos no Brasil? Enquanto você lê essa coluna, ao menos uma mulher já terá sido agredida por um homem (acontece a cada quatro minutos). E num tempo menor do que o de uma jornada de trabalho (a cada 7 horas), uma de nós terá sido assassinada.

Nem adianta comparar aqui número de homens vítimas da violência cotidiana, de assaltos, de trocas de tiros, de balas perdidas. Essas mulheres morrem por terem dito “não” aos maridos. Por não terem preparado um bom almoço ou não terem cumprido bem as tarefas da casa. Por terem decidido fazer faculdade ou trabalhar fora. Por terem contrariado a “autoridade masculina” do lar. Por terem pedido o divórcio. Elas morrem pura e simplesmente por serem mulheres.

O nosso desespero é que isso nós não conseguimos evitar. Nós podemos trocar de roupa, não andar na rua à noite, evitar sair sozinhas. Nós podemos ficar o dia todo em casa. Mas nós não conseguimos deixar de ser mulheres. E aí a gente veste moletom e calça larga, e continua sendo estuprada. A gente anda na rua só de dia e, ainda assim, somos violentadas. A gente fica em casa, e lá somos agredidas (42% dos casos de violência contra a mulher acontecem em ambiente doméstico, segundo dados do Fórum de Segurança Pública).

Para onde podemos correr? A mulher denuncia, e de repente é levada para a delegacia ao lado do agressor –e morre no caminho, assassinada diante dos policiais. E quando consegue chegar lá, muitas vezes ouve do delegado que “vai acabar com a vida do cara”, que “é só mais uma briga de casal”, e que “não vai dar em nada”. Por tudo isso, elas desistem. E o ciclo da violência se renova enquanto nossa sensação é de impotência.

Quando esses casos começam a aparecer no futebol, o esporte mais popular do planeta, o que fica deles é a indiferença. Jogadores são acusados de agredirem suas mulheres e seguem jogando. Eles são presos em flagrante por violência doméstica? Seguem jogando (ganham promoção, até, de reserva a titular). Eles são condenados por violência sexual em primeira instância? Vida que segue –para eles. Para as vítimas, a dor permanece. Nenhuma palavra dos clubes que os contratam, poucas palavras da imprensa que noticia (felizmente, isso começa a mudar), e muitas palavras de incentivo dos torcedores empolgados com os gols e as pedaladas dentro de campo. As acusações de crimes de violência contra a mulher com as quais esses jogadores estão envolvidos ficam em segundo plano. A vida delas não vale mais do que os três pontos no campeonato.

Como fenômeno social que é, o futebol tem um papel além do campo. E o mínimo que se pede aqui é o debate. Não vale só criar ações para o 8 de março ou fazer campanha de marketing contra o machismo. O que os clubes efetivamente fazem para combater as violências às quais as mulheres estão expostas diariamente? Por que são cada vez mais recorrentes os casos de jogadores de futebol envolvidos em crimes de violência contra a mulher? Como o ambiente machista do futebol contribui para reproduzir comportamentos nocivos às mulheres?

Está mais do que na hora do futebol promover essa discussão. O silêncio também nos mata.

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