O que o planeta festeja e a nossa mídia sabota

Da LIBERTA
Por JUCA KFOURI
É sabedoria curtir os triunfos com alegria proporcional ao significado que teria a derrota
É impressionante a capacidade de alguns em tentar melar a festa de outros, botar água no chopp, como se diz no popular.
O mundo democrático festejou como nunca o resultado da eleição brasileira.
O L de Lula virou o L de Liberty, de Life, de Left.
O New York Times tratou Lula como “o maior estadista latino-americano do século” e talvez tenha sido econômico, ou invejoso, por ter incluído o “latino” onde não era preciso.
Já o inglês The Guardian rotulou a vitória dele como “a derrota do negacionismo” e a estupenda presidenta mexicana, Claudia Sheinbaum, fez questão de fazer o L ao abrir seu primeiro pronunciamento depois do 25 de outubro.
Entre os 64.256.232 eleitores de Lula, já há os que, e não são poucos, dizem ser ele o brasileiro mais importante dos 526 anos da História do Brasil, ao superar até o Rei Pelé.
Há controvérsias sobre tal avaliação, mas não há, nem poderia haver, sobre a importância, o significado do tsunami democrático despertado pela estonteante virada a favor da democracia brasileira.
Uma das sabedorias do ser humano está exatamente em curtir os triunfos com alegria diretamente proporcional ao significado que teria a derrota.
Nem todos conseguem.
Para ficar no campo esportivo, o campeoníssimo treinador de vôlei, Bernardinho, é exemplo eloquente.
Até mesmo mesmo depois de ganhar a medalha de ouro olímpica em 2014, no Maracanãzinho, não escondeu sua preocupação, na entrevista coletiva pós-jogo da consagração, com o próximo torneio que a seleção brasileira disputaria.
Ele que desculpe, mas azar dele.
Azar nosso é constatar quase a tristeza de nossa mídia tradicional com a vitória de Lula, a mesma mídia que insiste em não rotular como de extrema direita quem de extrema direita é.
Em meio à festa democrática, que começou em Niterói no dia 6 de outubro e tomou o país do Caburaí ao Chuí, dia após dia, até o resultado final com direito à apoteose na Avenida Paulista no dia 25, nem bem Lula começava a chupar pastilhas para aveludar a garganta, além de mel com limão e muito gargarejo, começou um incessante metralhar sobre a reforma fiscal, a impossibilidade de governar com Congresso hostil, e desproporcional espaço para o miliciano fugitivo, crônica óbvia de fuga mais do que anunciada.
O fenômeno eleitoral, a festa dos estudantes e dos velhinhos, a celebração pelo mundo afora, tudo ficou menor do que a mirabolante deserção do filho do ex-capitão, hoje apenas presidiário.
Ok, “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”, ensinou Millôr Fernandes, só que tudo tem limites, com exceção da insânia.
Bem que nós, simples mortais, festeiros, merecíamos um refresco antes de mergulhar no terrível futuro anunciado pelos profetas do Apocalipse desde que, em 2002, o metalúrgico de nove dedos, sem curso universitário, doutor só Honoris Causa, venceu a primeira eleição – pausa para hidratação e causar ciúmes e inveja.
(São 45 títulos Honoris Causa. Aqui não serão citados os de universidades brasileiras, nem os 17 latino-americanos, apenas as europeus, asiático e africano: Instituto de Estudos Políticos de Paris – Sciences Po (França); Universidade de Coimbra (Portugal); Universidade de Salamanca (Espanha); Universidade de Lisboa; Escola Politécnica de Lausanne (Suíça); Universidade Paris 8 (França); Universidade Nacional da Malásia; Universidade Pedagógica de Maputo (Moçambique)).
Retomamos.
Então, o nordestino que entrará no quarto mandato, e que a três alimenta a certeza de promover o caos mais cedo ou mais tarde, resiste, bate recordes, tira o país, enfiado pelos antecessores, duas vezes, no Mapa da Fome, mas não convence os que jamais passaram necessidades e tampouco estão interessados sobre a situação da maioria dos brasileiros.
Nem sequer capaz de entender de futebol, por aqui não se aventurará pelo pantanoso terreno da Economia.
Que gente como Monica de Bolle, André Lara Rezende, especialistas renomados, e respeitados, tratem do tema, para não citar os da equipe de Lula, Fernando Haddad incluído, além do atual ministro Dario Durigan ou Eduardo Moreira, com o que se evita a injusta pecha de bajulador.
Rara leitora, raro leitor, tenham certeza: o Brasil não vai acabar.
É só deixar rolar a festa.

