Recordar é viver: Bolsonaros querem ver ciência do país derreter

Da FOLHA
Por REINALDO JOSÉ LOPES
- Cronologia do bolsonarismo mostra conflito constante e meta de descredibilizar as universidades
- Mais de 90% da pesquisa nacional vem de instituições públicas; ministro se dobrou à sanha de Jair
Recordar é viver, não é mesmo? Relembre comigo alguns dos principais momentos em que o bolsonarismo mostrou como um de seus principais objetivos é fazer com a ciência brasileira o que dizem que os romanos fizeram com Cartago: transformar tudo em terra arrasada e, de lambuja, arar sal no solo, para que nem uma touceira de braquiária possa brotar ali.
(Em tempo: essa história do sal é lenda. As terras agricultáveis de Cartago eram férteis demais para que Roma, cujo senso de autopreservação nacional era bem mais aguçado que o do bolsonarismo, cometesse uma barbeiragem dessas quando podia simplesmente transformar o norte da África no celeiro do império.)
1) Não existe pesquisa nas universidades públicas, diz BolsoPai: em abril de 2019, seu Jair deflagrou sua ofensiva contra a ciência nacional afirmando coisas nas quais nenhuma pessoa bem informada seria capaz de acreditar. “Poucas universidades têm pesquisa, e, dessas poucas, grande parte está na iniciativa privada, como a Mackenzie em São Paulo”, declarou ele.
No mundo real, claro, mais de 90% da pesquisa brasileira continua acontecendo nas instituições públicas, e a Universidade Presbiteriana Mackenzie ocupa apenas a 74ª posição no ranking nacional desse quesito.
2) O astronauta dobra os joelhos a Baal: era julho de 2019. Com o esperadíssimo aumento do desmate amazônico –estimulado, é claro, por seu Jair, que deu ao agropaleolítico todos os sinais de “liberou geral”–, Bolsonaro resolveu matar o mensageiro (pelo menos foi metaforicamente, dessa vez).
O presidente tentou intimidar o físico Ricardo Galvão, então presidente do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O órgão realiza há décadas um trabalho de excelência ao flagrar o desmatamento. Seu Jair disse que Galvão estava “a serviço de alguma ONG”; o chefe do Inpe respondeu à altura, sem se dobrar.
Não podemos dizer o mesmo do ex-astronauta e então ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes. Desdobrou-se em rapapés a Bolsonaro e, com canina fidelidade, exonerou Galvão. O curioso é que os dados do Inpe eram tecnicamente tão inatacáveis que até o governo de então acabou parando de questioná-los e se contentou em mudar de assunto.
3) O astronauta brinca de curandeiro: em alguns dos meses mais desesperados da pandemia de Covid-19, em 2020, Pontes voltou à carga anunciando que o vermífugo nitazoxanida tinha se mostrado promissor no combate ao coronavírus.
Chegou a haver um estardalhaço midiático em torno dos testes com o fármaco, envolvendo pesquisadores do Cnpem (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais). E tudo por causa de resultados levemente promissores in vitro –algo que jamais teria destaque se não fosse a necessidade de inventar boas notícias para o governo. Não preciso dizer que o uso do remédio não deu em nada.
4) Aquele assédio judicial básico: em março de 2021, seu Jair botou a Controladoria-Geral da União nos calcanhares de dois professores da Universidade Federal de Pelotas (RS), Pedro Hallal e Eraldo dos Santos Pinheiro, por “manifestação desrespeitosa e de desapreço direcionada ao Presidente da República”. O motivo, claro, foram críticas dos dois à condução desastrosa da pandemia.
E ainda tem gente que acha que esse leopardo vai magicamente ficar sem pintas –ou deixar de comer as tenras carnes dos que nele votarem.

