O bolsonarismo é uma péssima opção

Da FOLHA

Por MICHAEL FRANÇA

  • Movimento político apequenou a própria direita e ampliou o apodrecimento da República
  • Nesse processo, quem prometeu enterrar a velha política acentuou seus piores vícios

Você não precisa ser progressista para votar contra o bolsonarismo. Nem precisa aderir à parcela da direita mais propositiva. Nem ao lulismo ou a qualquer projeto rival para concluir que tal movimento político fez e faz muito mal ao Brasil.

Nos últimos anos, ele sequestrou parte da direita e a empurrou para um projeto menos comprometido com ideias e mais com o envenenamento do debate público e com o processo de apodrecimento da República. No lugar de um campo político orientado por princípios, formou um movimento guiado por uma lógica conspiratória.

Na pandemia, o país assistiu a uma guerra ideológica invadir um terreno em que deveriam prevalecer evidências. O governo foi amplamente negacionista, espalhou dúvidas sobre vacinas, sabotou medidas de proteção e deu palco a tratamentos sem respaldo científico. A cloroquina virou símbolo dessa tragédia. Máscara, vacina e remédio deixaram de ser assuntos de saúde pública e passaram a funcionar como marcadores de identidade política.

Esse foi um dos retratos mais cruéis do bolsonarismo. Em vez de liderar o país em um momento de luto e medo, o poder preferiu transformar a dor coletiva em trincheira ideológica. O Brasil viu os mortos se acumularem e se tornou o país com o segundo maior número acumulado de mortes confirmadas por Covid-19 no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Depois, restaram as famílias devastadas e, hoje, os ossos dos mortos. Houve ali mais que incompetência. Houve um projeto político incapaz de reconhecer o valor da vida humana fora de sua própria bolha de fanatismo.

Além disso, a retórica contra “o sistema” conviveu muito bem com práticas clássicas da velha política. O bolsonarismo prometeu romper com os vícios de Brasília, só que acabou reproduzindo loteamentos, acomodações oportunistas, fisiologismo e uso patrimonial do poder. Apesar do discurso de ruptura, a prática foi de conveniência. O gesto antissistema serviu como cortina para formas bem conhecidas de fazer política.

O orçamento secreto, montado para comprar apoio no Congresso sem rastro de autoria, foi uma das versões dessa contradição. Ciro Nogueira figurou entre os principais beneficiados. O senador bolsonarista também manteve uma relação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, a quem Flávio Bolsonaro chegou a chamar de “irmão”.

O próprio Flávio está sendo investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao filme do pai, Jair Bolsonaro, preso por uma tentativa de golpe de Estado. Flávio procurou Daniel Vorcaro para negociar R$ 134 milhões para a produção de “Dark Horse”.

Também se propagandeou a ideia de que o bolsonarismo seria uma defesa da liberdade. Só que a liberdade ali quase sempre apareceu de forma seletiva. Valia para atacar a imprensa, ser grosseiro com mulheres e jornalistas, intimidar adversários, espalhar desinformação ou desacreditar as eleições. Já o respeito às instituições ficou em segundo plano. E o respeito ao ser humano foi ignorado.

Uma direita séria tem muito a agregar ao país. Ela pode defender sua visão de mundo e contribuir, da sua maneira, com avanços na sociedade. O que ela não pode fazer é aceitar como normal o aprofundamento da erosão da República, o flerte com saídas autoritárias, a paranoia e o desprezo à vida humana.


O texto é uma homenagem à música “Tô”, de Tom Zé.

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