Rodrigo Bocardi e ‘Futebol Interior’: semelhanças e antijornalismo

Há muitos anos, o Blog do Paulinho denuncia a utilização do jornalismo como pano de fundo para a prática de achaques por determinados grupos ou pessoas.
O caso mais conhecido é o do site Futebol Interior.
Agora, uma denúncia contra Rodrigo Bocardi, revelada pela imprensa nos últimos dias, apresenta semelhanças incômodas com aquilo que treinadores, dirigentes e outros personagens do futebol atribuíram, durante anos, ao portal campineiro.
Jones Donizette, ex-secretário de Tecnologia e Comunicação de Embu das Artes, acusa o jornalista de pressionar prefeituras para contratar serviços de sua empresa, a BocaTV, sob o risco de receberem tratamento jornalístico desfavorável.
Bocardi admite que houve reunião e proposta comercial.
Segundo sua versão, a BocaTV ofereceu à Prefeitura de Embu das Artes um contrato de R$ 30 mil para serviços de comunicação institucional.
Jones teria tentado reduzir o valor para R$ 10 mil, mas não houve acordo.
É um padrão semelhante ao atribuído ao Futebol Interior, que dizia às vítimas estar vendendo “assessoria”, mas, quando elas se negavam a contratá-la, acabavam massacradas por sucessivas “fake news” publicadas pelo portal.
Jornalismo, por óbvio, não pode funcionar segundo a lógica atribuída a Bocardi: quem paga recebe tratamento melhor e quem não paga corre o risco de ser “cobrado” editorialmente.
Se uma prefeitura tem buracos nas ruas, falta de médicos ou problemas administrativos, o jornalista deve noticiá-los porque são fatos relevantes para a população.
Não porque o prefeito recusou uma proposta comercial.
Da mesma maneira, se a administração solucionou determinado problema, a informação deve ser prestada, independentemente de ter comprado publicidade ou contratado qualquer serviço.
Há quase vinte anos, o Blog do Paulinho realiza reportagens sobre o comportamento do Futebol Interior.
Entre elas, estão denúncias do ex-treinador, agora advogado, Dr. João Telê.
Diversos personagens do futebol nacional foram ouvidos.
A maioria confirmou — alguns sob anonimato — a existência de um sistema em que pessoas eram procuradas para estabelecer “parcerias comerciais” que resultariam em reportagens positivas.
Quem recusasse, de acordo com os relatos, passaria a receber tratamento hostil do portal.
João Telê chegou a entrar em campo usando uma camiseta em que denunciava estar sendo extorquido pelo site.
O método agora atribuído a Bocardi é assustadoramente semelhante.
Há ainda um antecedente relevante.
Em janeiro de 2025, a Globo demitiu o jornalista afirmando que ele havia descumprido “normas éticas do jornalismo”.
A emissora não revelou oficialmente quais teriam sido as violações.
A Folha apurou, porém, que Bocardi havia sido acusado internamente de prestar, paralelamente ao trabalho na Globo, serviços de comunicação para uma empresa que atendia contas públicas, inclusive prefeituras da Grande São Paulo, além de realizar media training para políticos e empresários.
Isso não é jornalismo.
É exatamente o tipo de prática que destrói a confiança da sociedade na imprensa e prejudica, sobretudo, os profissionais que trabalham corretamente, investigam, denunciam e criticam sem transformar a notícia em moeda de troca.

