Saiba como o São Paulo quebrou ao longo das últimas duas décadas

A análise, realizada pelo Blog do Paulinho, dos balanços publicados pelo São Paulo desde 2006 revela que o endividamento atual é resultado de sucessivas administrações que gastaram acima da capacidade do clube, dependeram da venda de jogadores para fechar as contas, anteciparam receitas, acumularam juros e obrigações vencidas e, em determinados períodos, apresentaram graves falhas de transparência e controle.

Entre 2006 e 2013, o São Paulo acumulou superávits nominais de aproximadamente R$ 34 milhões.

Eram resultados pequenos diante do tamanho do clube, mas indicavam certo equilíbrio.

Já havia, porém, alguns alertas: em 2006, os auditores chamaram atenção para uma autuação de Cofins que poderia produzir ajuste relevante; em 2007, a reavaliação patrimonial de R$ 86,4 milhões melhorou o patrimônio líquido sem colocar dinheiro no caixa; e, em 2013, o clube precisou reapresentar números relacionados ao tratamento contábil dos direitos de imagem.

Os documentos estão disponíveis na página oficial de Transparência do São Paulo.

A ruptura ocorreu em 2014 e 2015.

Em apenas dois anos, o clube acumulou déficits de R$ 172,6 milhões.

Em 2014, as receitas com venda de jogadores despencaram de R$ 148 milhões para R$ 40,9 milhões, enquanto as despesas financeiras dobraram, de R$ 18,2 milhões para R$ 36,2 milhões.

O resultado foi um prejuízo de R$ 100,1 milhões.

No ano seguinte, embora a receita tenha melhorado, o futebol consumiu R$ 273,6 milhões e as despesas financeiras chegaram a R$ 48,2 milhões, produzindo novo déficit de R$ 72,5 milhões.

O clube já gastava como se as receitas extraordinárias fossem permanentes.

Depois de três anos de resultados positivos entre 2016 e 2018 — apenas R$ 23,2 milhões somados —, a situação voltou a se deteriorar violentamente.

Em 2019, o São Paulo registrou prejuízo de R$ 156,1 milhões e realizou investimentos de R$ 193,9 milhões, dos quais R$ 149,5 milhões em contratos de atletas.

Foi uma aposta esportiva financiada por aumento de dívida.

O endividamento líquido saltou R$ 232,8 milhões naquele exercício.

Ata de reunião do Conselho Deliberativo de novembro de 2019, publicada pelo Blog do Paulinho, registrava dívida próxima de R$ 415 milhões, crescimento de R$ 145 milhões desde dezembro de 2018, previsão de déficit de R$ 113 milhões e patrimônio líquido negativo.

Conselheiros fizeram advertências, mas a direção chegou a negar acesso individual a contratos de jogadores sob o argumento de inexistência de obrigação estatutária.

As contas de 2019 acabaram aprovadas politicamente por 119 votos a 61, apesar do desastre econômico.

A negociação de Éder Militão tornou-se exemplo da falta de clareza que envolve parte das transferências.

Dos 7 milhões de euros pagos pelo Porto, apenas 4 milhões teriam chegado ao São Paulo, ficando 3 milhões com agentes ou demais participantes.

O clube conservou percentual de futura venda, mas o Blog levantou ainda a suspeita de que a passagem pelo Porto teria sido previamente articulada antes da transferência ao Real Madrid.

A pandemia agravou o problema.

Os déficits foram de R$ 129,6 milhões em 2020 e R$ 106,5 milhões em 2021.

Somente em 2020, as despesas financeiras atingiram R$ 95,6 milhões.

Quando receitas caíram, o São Paulo já carregava folha elevada, compromissos de contratações anteriores e dívidas caras.

O caso Daniel Alves simboliza esse modelo.

Em janeiro de 2020, o clube havia prometido remuneração próxima de R$ 1,5 milhão mensais contando com parceiros comerciais que não se materializaram.

O atleta saiu, mas a conta permaneceu.

No balanço de 2022, o clube devia cerca de R$ 50,6 milhões a ex-jogadores, dos quais aproximadamente R$ 20 milhões relacionados a Daniel Alves, além de R$ 22 milhões em comissões de agentes.

As relações com intermediários também geraram encargos expressivos.

O Tricolor confessou dívida de R$ 7,4 milhões por comissões relativas a Ganso e Lucas Pratto; sem pagamento das parcelas, a cobrança judicial envolvendo André Cury superou R$ 10,3 milhões.

Em outro negócio, um empréstimo de R$ 13,7 milhões teria crescido para R$ 19,6 milhões com juros e correções.

Dívidas com agentes, atletas e fornecedores não desapareceram: apenas ficaram mais caras.

Em 2022, um superávit de R$ 37,5 milhões ofereceu alívio temporário.

No ano seguimte, porém, houve novo déficit de R$ 62,3 milhões.

No início de 2024, Julio Casares reconheceu dívida próxima de R$ 600 milhões, cerca de R$ 250 milhões no curto prazo, e defendeu o alongamento das obrigações para manter o investimento no futebol.

Ao final daquele ano, a dívida líquida chegaria a R$ 968,3 milhões.

O balanço de 2024 é o retrato mais explícito da irresponsabilidade orçamentária.

A direção previa déficit de R$ 34,9 milhões e entregou prejuízo de R$ 287,6 milhões — diferença de R$ 252,7 milhões.

A venda de atletas arrecadou R$ 80,8 milhões menos que o previsto, enquanto o futebol profissional gastou R$ 82,4 milhões acima do orçamento.

As despesas financeiras alcançaram R$ 96,7 milhões.

Somaram-se multas, parcelamentos tributários e outros efeitos extraordinários.

O FIDC, apresentado como solução financeira, não produziu receita nova.

O fundo antecipou ao clube dinheiro de direitos futuros, com remuneração de CDI mais 5% para as cotas seniores.

Até setembro de 2025, R$ 135 milhões haviam sido utilizados.

O próprio relatório oficial do FIDC reconheceu descumprimento, em aproximadamente R$ 78 milhões, do limite de despesas do futebol no início daquele ano e a necessidade de novas vendas de jogadores.

Posteriormente, um empréstimo de R$ 50,6 milhões com o Banco Daycoval, a CDI mais 6,74%, foi autorizado por dispensa específica do comitê do fundo.

A operação demonstrou que o problema de liquidez continuava.

Em 2025, o São Paulo anunciou superávit de R$ 57 milhões.

O número, porém, dependeu de R$ 283,8 milhões em vendas de atletas e de um ganho extraordinário de R$ 55,6 milhões decorrente de acordo com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

Retirado apenas esse efeito tributário, sobrariam cerca de R$ 1,4 milhão.

Ao mesmo tempo, as despesas totais ultrapassaram o orçamento em R$ 173,8 milhões, sendo R$ 156,7 milhões somente no futebol profissional.

A dívida líquida caiu de R$ 968,3 milhões para R$ 858,2 milhões, mas isso não significa que o clube tenha pago R$ 110 milhões de obrigações.

O passivo bruto aumentou R$ 55,3 milhões, chegando a R$ 1,067 bilhão.

A melhora líquida decorreu principalmente do aumento dos direitos a receber, sobretudo R$ 143,1 milhões em contas a receber.

Em outras palavras: a dívida bruta cresceu, enquanto receitas futuras foram contabilizadas como ativos.

O clube ainda encerrou o exercício com patrimônio líquido negativo em R$ 536,2 milhões, déficits acumulados de R$ 743 milhões e contingências classificadas como possíveis, não provisionadas, de R$ 238,7 milhões.

Esses dados estão no balanço completo de 2025.

O aspecto mais grave está no relatório dos auditores.

A opinião sobre as contas de 2025 foi emitida com ressalva porque saques realizados em contas bancárias do São Paulo, no exercício e em anos anteriores, não possuíam documentação completa que demonstrasse natureza, finalidade e destino dos valores.

Sem os comprovantes, os auditores não conseguiram determinar se seriam necessários ajustes no balanço.

A polícia investiga 35 saques que somariam aproximadamente R$ 11 milhões entre 2021 e novembro de 2025.

Apuração interna teria considerado cerca de R$ 4 milhões documentados, restando aproximadamente R$ 7 milhões sem justificativa adequada.

Em investigação separada, apuram-se depósitos em espécie de R$ 1,5 milhão nas contas pessoais de Julio Casares.

Também merece apuração a informação de que dados federais apontavam aproximadamente R$ 4,2 milhões em FGTS não recolhido, principalmente de jogadores.

Orçamentos foram sistematicamente descumpridos, receitas com atletas foram tratadas como dinheiro garantido, dívidas foram roladas com juros, obrigações com jogadores e intermediários se transformaram em processos, receitas futuras foram antecipadas e milhões de reais foram sacados sem documentação suficiente para satisfazer os auditores.

Entre 2006 e 2013, o São Paulo acumulou R$ 34 milhões em superávits.

Entre 2014 e 2015, perdeu R$ 172,6 milhões.

Entre 2016 e 2018, recuperou apenas R$ 23,2 milhões.

De 2019 a 2025, acumulou déficits de R$ 647,6 milhões.

A dívida líquida, que era de R$ 270,4 milhões em 2018, chegou a R$ 968,3 milhões em 2024 e terminou 2025 em R$ 858,2 milhões, com passivo bruto superior a R$ 1 bilhão.

O São Paulo chegou a este cenário porque repetiu, durante anos, a mesma fórmula: gastar hoje, contar com vendas futuras, adiar pagamentos, pagar juros e impedir que conselheiros e torcedores conhecessem plenamente os contratos que originavam as despesas.

Quando a receita projetada não entrava, restavam a dívida, a antecipação da próxima receita e um problema ainda maior para a administração seguinte.

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