O Santos na areia movediça

O Santos encerrou 2025 com R$ 622,6 milhões em ativos, passivo contábil de R$ 1,232 bilhão, patrimônio líquido negativo de R$ 609,4 milhões e apenas R$ 295 mil em caixa.

A administração prefere divulgar endividamento de R$ 998,5 milhões.

Para chegar a esse número, exclui R$ 233,4 milhões em receitas diferidas — dinheiro já recebido por transmissões, publicidade e patrocínios que serão entregues nos próximos anos.

Economicamente, esses valores representam receitas do futuro que já entraram e foram gastas.

O Santos não chegou a essa situação de repente.

Em 2007, possuía R$ 191,5 milhões em ativos, R$ 145,9 milhões em obrigações e patrimônio social positivo de R$ 45,6 milhões.

Mesmo assim, fechou o exercício com déficit de R$ 36,6 milhões, empréstimos próximos de R$ 43,5 milhões e mais de R$ 76 milhões em parcelamentos tributários.

A ruptura ocorreu entre 2008 e 2009.

O ativo caiu de R$ 194,4 milhões para R$ 103 milhões e o patrimônio, ainda positivo em R$ 18,9 milhões, transformou-se em passivo a descoberto de R$ 118,4 milhões.

Parte da queda decorreu da retirada de aproximadamente R$ 92,3 milhões registrados como direitos econômicos de jogadores.

Durante anos, atletas haviam sido contabilizados por avaliações que não correspondiam necessariamente ao custo efetivamente desembolsado.

Quando a prática deixou de ser aceita, o patrimônio desapareceu.

O clube não perdeu todo esse dinheiro naquele instante.

Descobriu-se que parte relevante do ativo que figurava nos balanços não deveria estar ali.

O balanço de 2009 ainda recebeu ressalva pela falta de clareza na negociação de Rodrigo Tabata com o Gaziantepspor.

A Comissão Fiscal recomendou a rejeição das contas da gestão Marcelo Teixeira, decisão acolhida pelo Conselho Deliberativo.

Em 2013, o Santos já possuía R$ 336,6 milhões em obrigações diante de R$ 192,1 milhões em ativos.

Em 2015, o passivo atingiu R$ 434 milhões, enquanto os ativos encolheram para R$ 152,5 milhões.

O patrimônio negativo chegou a R$ 281,6 milhões.

As demonstrações de 2014 a 2020 apresentam uma sequência preocupante de ressalvas e limitações de auditoria.

Ao examinar 2015, os auditores informaram que as contas do ano anterior possuíam problemas nos controles de R$ 12,1 milhões do programa de sócio-torcedor, R$ 2,2 milhões do licenciamento de marcas e diversos contratos.

Também não conseguiram confirmar valores relacionados à Doyen, Teisa e DIS.

Em 2016, permaneceram sem confirmação cerca de R$ 77 milhões atribuídos à Doyen e R$ 2,5 milhões à DIS.

Naquele mesmo exercício, conforme parecer do Conselho Fiscal publicado pelo Blog do Paulinho, o Santos gastou R$ 30,4 milhões acima do orçamento.

As despesas do futebol superaram a previsão em 21%; as administrativas, em 77,9%.

O documento alertou para possível conflito de interesses envolvendo a Khodor Soccer, que agenciava a comissão técnica de Dorival Júnior e mantinha relação contratual com o clube.

Também questionou acordo pelo qual a Ceará Propaganda e Publicidade receberia 5% do valor bruto de jogadores prospectados.

A empresa foi remunerada pelas contratações de Jonathan Copete e Fabián Noguera, que tinham direitos de imagem pagos a outra companhia representada por pessoa aparentemente ligada à Ceará Sports.

Os pagamentos de imagem, segundo o Conselho Fiscal, eram realizados quase à vista, e não durante a vigência dos contratos.

O parecer também apontou relações comerciais com empresas pertencentes a conselheiros e ausência da aprovação estatutária necessária na venda de Gabigol, inclusive quanto às comissões.

O balanço mostrava a dívida.

O Conselho Fiscal indicava como parte dela era produzida.

No balanço de 2017, um escritório de advocacia informou ter R$ 14,5 milhões a receber que não estavam registrados.

O Santos contestava R$ 10,8 milhões, mas os auditores também não receberam relatórios capazes de comprovar os serviços relacionados aos R$ 3,7 milhões restantes.

Havia ainda R$ 1,7 milhão a pagar à Quantum Solutions Limited, de Malta, pela suposta intermediação no recebimento do mecanismo de solidariedade na transferência de Neymar ao PSG.

Os auditores não obtiveram documentos que comprovassem satisfatoriamente o serviço.

Posteriormente, o Santos expulsou Modesto Roma Júnior, acusado internamente de utilizar a Quantum para lucrar indiretamente com a operação.

O ex-presidente recorreu, mas o TJ-SP manteve sua exclusão do quadro associativo.

Em 2018, os auditores não conseguiram confirmar valores relevantes, entre eles R$ 111 milhões a receber do Real Madrid.

Também não puderam mensurar adequadamente processos na Espanha envolvendo cobrança tributária de € 3,2 milhões na transferência de Neymar e ação da DIS que alegava simulação contratual.

Em 2020, surgiu outro erro grave.

O Santos mantinha R$ 28,7 milhões a receber do Barcelona pela não realização de um segundo amistoso.

No balanço seguinte, os advogados reconheceram que a pretensão estava prescrita.

O crédito foi integralmente baixado e os números de 2020 tiveram de ser reapresentados.

Em 2024, nova correção: R$ 21,7 milhões registrados como custos de formação de jogadores foram retirados do ativo.

O resultado de 2023, inicialmente apresentado como superávit de R$ 1 milhão, transformou-se em déficit de R$ 5,5 milhões.

A situação voltou a piorar rapidamente.

Em 2023, o passivo era de R$ 775,1 milhões e o patrimônio negativo, de R$ 424,8 milhões.

Em 2024, as obrigações subiram para R$ 977 milhões, o patrimônio negativo atingiu R$ 530 milhões e o déficit foi de R$ 105,2 milhões.

Em 2025, o passivo contábil alcançou R$ 1,232 bilhão — crescimento aproximado de R$ 255 milhões em apenas um ano.

Apesar do aumento das receitas, o Santos fechou o exercício com déficit de R$ 79,4 milhões.

A remuneração e os encargos do futebol profissional totalizaram R$ 255,9 milhões, R$ 55,7 milhões acima do orçamento.

As despesas com direitos de imagem e arena saltaram de R$ 29,4 milhões para R$ 102,3 milhões.

O clube desembolsou R$ 259,2 milhões em aquisições de jogadores e outros intangíveis.

As contas a pagar praticamente dobraram, de R$ 156 milhões para R$ 300,1 milhões.

Desse total, R$ 73 milhões referiam-se a intermediações e R$ 33,8 milhões a luvas.

Havia ainda dezenas de milhões devidos a Benfica, Spartak Moscou, Palmeiras, Novorizontino, Cuiabá e outros clubes.

O resultado financeiro foi negativo em R$ 75,9 milhões, com R$ 28,1 milhões de juros sobre empréstimos e R$ 37,9 milhões de atualização de tributos.

Os parcelamentos tributários, o Profut e os tributos correntes somavam aproximadamente R$ 264 milhões.

Os acordos judiciais, trabalhistas, o RCE e o plano coletivo da CNRD atingiram R$ 201,3 milhões.

Apesar disso, o Santos terminou o ano com somente R$ 295 mil disponíveis.

Há também receitas já consumidas.

Dos R$ 233,4 milhões contabilizados como receitas diferidas, R$ 173,8 milhões estavam vinculados principalmente a contratos com Brax e Globo/Libra para as temporadas de 2026 a 2029.

Quando essas receitas aparecerem nos resultados dos próximos anos, o dinheiro correspondente já terá sido utilizado.

O déficit de 2025 levanta ainda questão estatutária e legal.

A receita bruta gerencial de 2024 foi de R$ 459,5 milhões.

O limite de déficit de 5% previsto no Estatuto e nas condições do Profut seria, portanto, de aproximadamente R$ 23 milhões.

O prejuízo de R$ 79,4 milhões ficou R$ 56,4 milhões acima do teto — mais de três vezes o permitido.

Mesmo assim, o Conselho Fiscal recomendou a aprovação e o Conselho Deliberativo referendou as contas por 109 votos contra 37 e uma abstenção.

Em abril de 2026, o procurador do Estado e associado Ivan Luduvice Cunha protocolou pedido de impeachment contra Marcelo Teixeira e, posteriormente, encaminhou notícia de fato ao Ministério Público.

Além do estouro do déficit, os documentos questionam o acordo firmado com a NR Sports, ligada a Neymar, que teria consolidado dívida de R$ 90,5 milhões em direitos de imagem.

O contrato, assinado em 30 de dezembro de 2025, teria oferecido o CT Meninos da Vila como garantia, sem a autorização qualificada do Conselho Deliberativo.

Mais grave: haveria cláusula determinando o vencimento antecipado da dívida caso Marcelo Teixeira não seja reeleito presidente.

A transformação do Santos em SAF também provocaria cobrança imediata.

Se o teor for exatamente esse, uma obrigação do clube foi utilizada para criar obstáculo financeiro à alternância política.

O próximo presidente poderia receber uma cobrança imediata de dezenas de milhões de reais; a permanência de Marcelo manteria o parcelamento.

A conclusão jurídica depende da análise integral do contrato, mas existem indícios de condição potestativa, desvio de finalidade, infração estatutária e gestão temerária.

O caso ganhou novo componente no primeiro trimestre de 2026.

O Conselho Fiscal divergiu da contabilidade sobre uma confissão de dívida com empresa ligada a atleta.

A administração entende que os valores devem ser reconhecidos mensalmente como direitos de imagem; o órgão fiscal sustenta que a obrigação deveria ser registrada integralmente.

Pelos números do clube, o endividamento ajustado, sem receitas diferidas, subiu de R$ 998,5 milhões para R$ 1,094 bilhão em três meses.

Para o Conselho Fiscal, deveria alcançar R$ 1,164 bilhão — quase R$ 70 milhões a mais.

O patrimônio negativo chegou a R$ 660 milhões e o passivo circulante a R$ 594,4 milhões.

Para o Conselho, o correto seria R$ 610,1 milhões.

Dos R$ 212,8 milhões arrecadados no trimestre, R$ 102,4 milhões vieram da venda ou empréstimo de jogadores.

A folha com encargos consumiu R$ 81,6 milhões, diante de apenas R$ 57,1 milhões orçados.

A crise, portanto, não terminou em dezembro de 2025.

O Santos chegou ao passivo bilionário pela combinação de déficits recorrentes, folha incompatível com o caixa, contratações parceladas, comissões, luvas, impostos postergados, acordos trabalhistas, juros elevados e antecipações de receitas.

Somou-se a isso um ambiente de governança em que contratos foram questionados por auditores, o Conselho Fiscal apontou conflitos de interesses e estouros orçamentários e, ainda assim, sucessivas contas terminaram aprovadas.

As gestões se alternaram, mas o método permaneceu: receitas extraordinárias foram tratadas como permanentes, compromissos foram empurrados, intermediários receberam, impostos se transformaram em parcelamentos e dinheiro dos anos seguintes foi utilizado para fechar o caixa presente.

O passado nunca foi pago, o presente continuou deficitário e o futuro passou a ser vendido antecipadamente.

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