Capo do Corinthians utiliza BDO/RCS em auditoria de preocupante balanço da Kalunga

Os demonstrativos financeiros da Kalunga no primeiro trimestre de 2026 apresentam números que merecem atenção, principalmente diante da influência de seus principais dirigentes sobre a atual administração do Corinthians.
A companhia encerrou março com apenas R$ 16,8 milhões em caixa, enquanto acumulava R$ 1,2 bilhão em obrigações de curto prazo.
O ativo circulante era de R$ 821,8 milhões, quase R$ 400 milhões abaixo do passivo circulante.
Para cada R$ 1 em compromissos de curto prazo, portanto, havia aproximadamente R$ 0,67 em ativos da mesma natureza.
O desempenho do negócio também piorou.
A receita líquida caiu de R$ 848,9 milhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 765,9 milhões em 2026, redução próxima de 10%.
O resultado operacional recuou de R$ 154,2 milhões para R$ 138,1 milhões.
A queda não é episódica.
O resultado passou de R$ 271 milhões, em 2023, para R$ 255,9 milhões, em 2024, e R$ 223,1 milhões no ano passado.
A geração operacional de caixa cresceu de R$ 70,8 milhões para R$ 117,4 milhões, mas houve contribuição relevante da redução dos estoques, que despencaram de R$ 525,2 milhões para R$ 383,8 milhões em apenas três meses, liberando mais de R$ 140 milhões em capital de giro.
A estrutura financeira também chama a atenção.
A Kalunga possuía aproximadamente R$ 559 milhões em empréstimos e financiamentos, além de cerca de R$ 353 milhões em passivos de arrendamento.
Somados, aproximam-se de R$ 912 milhões.
Quase R$ 1 bilhão.
O patrimônio líquido era de apenas R$ 142,5 milhões.
Mas o número mais intrigante está em outra rubrica.
A companhia registrava impressionantes R$ 674,8 milhões em créditos com partes relacionadas — pessoas ou empresas ligadas à própria Kalunga.
No final de 2025, eram R$ 619,5 milhões.
Em três meses, portanto, o valor aumentou aproximadamente R$ 55 milhões.
Esses créditos equivalem a quase cinco vezes o patrimônio líquido da Kalunga e a cerca de 35% de todos os seus ativos.
Enquanto a empresa possuía somente R$ 16,8 milhões em caixa e carregava R$ 559 milhões em empréstimos e financiamentos, tinha quase R$ 675 milhões a receber de partes relacionadas.
Há mais.
Em evento subsequente divulgado nas demonstrações, a Kalunga informa que, em 15 de maio, seu Conselho de Administração aprovou a distribuição de R$ 35 milhões em dividendos.
O detalhe está na maneira escolhida para pagá-los.
Segundo a própria companhia, “assim como em períodos anteriores”, o pagamento será realizado mediante abatimento de parte da dívida dos acionistas com a Kalunga.
Ou seja: acionistas devem dinheiro à empresa e recebem dividendos utilizados para reduzir aquilo que devem à própria companhia.
Existe uma diferença financeira evidente entre um devedor devolver dinheiro à empresa e ter sua dívida reduzida mediante compensação com dividendos.
No primeiro caso, entra dinheiro no caixa.
No segundo, não.
Por isso, seria importante conhecer quem são esses devedores, quanto cada um deve, como surgiram os créditos, quais são seus vencimentos e garantias e, principalmente, quanto desses quase R$ 675 milhões efetivamente retornará em dinheiro ao caixa da Kalunga.
Paulo Garcia preside o Conselho de Administração da Kalunga e é hoje um dos homens que ditam os rumos da administração do Corinthians.
Seu braço direito nessa estrutura é conhecido dos corintianos.
Emerson Piovesan, atual diretor financeiro do Corinthians, é vice-presidente do Conselho de Administração da Kalunga e, simultaneamente, coordenador de seu Comitê de Auditoria.
É justamente aí que surge uma enorme contradição.
As demonstrações financeiras da Kalunga foram auditadas pela BDO RCS Auditores Independentes SS Ltda., ligada a Raul Corrêa da Silva, ex-diretor financeiro do Corinthians.
No Parque São Jorge, porém, Raul foi tratado por Paulo Garcia e Piovesan, em discussões sobre as contas do clube, como “maquiador de balanços”.
A utilização do termo “maquiado” por Piovesan está documentada em ata do Conselho Deliberativo alvinegro.
Diante disso, é inevitável questionar: por que uma empresa de auditoria associada a um profissional que teve a atuação anteriormente colocada sob suspeita pelos próprios dirigentes da Kalunga acabou escolhida para examinar as contas da companhia?
Urgem explicações.
Mais preocupante ainda é observar que os mesmos personagens exercem influência relevante sobre a administração do Corinthians.
A Kalunga apresenta deterioração de indicadores operacionais, baixa liquidez de curto prazo, quase R$ 1 bilhão entre empréstimos, financiamentos e arrendamentos e impressionantes R$ 674,8 milhões a receber de partes relacionadas.
Ao mesmo tempo, seus principais dirigentes participam diretamente dos rumos de um Corinthians mergulhado em grave crise financeira e reconhecidamente próximo de uma situação pré-falimentar.
Essa coincidência de personagens e interesses torna indispensável fiscalização redobrada sobre qualquer relação econômica entre as duas estruturas.
O Corinthians possa servir como instrumento para solucionar problemas financeiros particulares ou empresariais de quem participa de sua administração?
Diante dos números apresentados pela Kalunga e da situação financeira do clube, é legítimo questionar, investigar e exigir transparência absoluta para impedir que essa hipótese algum dia possa ser constatada como realidade.
Não é raro que se questione, diante de evidências de má gestão, se determinado cartola administra o clube da mesma maneira que conduz seus negócios particulares.
No caso de Paulo Garcia, é possível afirmar que sim.

