Janikian: detalhes sobre um ‘inidôneo’ presidenciável do Corinthians

Candidato à presidência do Corinthians, Sérgio Janikian enviou ontem ao Blog do Paulinho uma reportagem da revista Exame que o exaltava, assim como à Master Indústria e Comércio, empresa apresentada como sendo de sua propriedade.
A mensagem foi acompanhada das seguintes frases: “Esse é o Sergio Janikian que vc precisa conhecer” e “E não o que vc acha que conhece”.
Estimulados por Janikian, vasculhamos nossos arquivos e encontramos novos elementos.
A Exame diz que a Master fatura aproximadamente R$ 800 milhões por ano, atende seis milhões de estudantes e investiu R$ 70 milhões, supostamente provenientes do próprio caixa, em um complexo industrial inaugurado em Jundiaí.
Segundo a publicação, 70% da receita ainda provém do poder público, não há investidores externos e Janikian é proprietário e CEO da companhia.
O texto, aparentemente patrocinado, não apresentou demonstrações financeiras auditadas nem mencionou que a Master consta no Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas.
A Prefeitura de Coxim, em Mato Grosso do Sul, aplicou à empresa impedimento de licitar e contratar, válido de 3 de agosto de 2026 a 3 de agosto de 2027, restrito ao município.
Em fevereiro, a Prefeitura de Coxim informou que a Master, vencedora de uma licitação para o fornecimento de materiais escolares, desistiu formalmente do negócio, alegando incapacidade técnica e operacional para atender às exigências de personalização.
Em São Paulo, o histórico é ainda mais relevante.
Em 2015, o Consórcio Master/Brink Mobil recebeu um contrato de R$ 36,8 milhões para fornecer kits escolares.
Uma auditoria da Controladoria-Geral do Município estimou que os produtos poderiam ter sido adquiridos por R$ 25,7 milhões, apontando um sobrepreço potencial de R$ 11,1 milhões, equivalente a aproximadamente 30% do contrato.
Considerados os quatro negócios analisados, a estimativa de prejuízo potencial chegou a R$ 18,3 milhões.
Os auditores também identificaram restrições à concorrência, pesquisas de preços pouco confiáveis e indícios de direcionamento em um dos pregões.
Em um caso concreto, a proposta previa dois estojos por R$ 5,90 cada, mas somente um foi entregue e faturado por R$ 11,80.
O excedente, apenas nesse item, foi estimado em R$ 1,59 milhão.
A Prefeitura aplicou multa de R$ 2,95 milhões, impedimento de contratar e declaração de inidoneidade.
A empresa recorreu, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a validade da punição e da multa, reduzindo apenas o período dos impedimentos, de 24 para 12 meses.
Em 2025, o Tribunal de Contas do Município encerrou sua apuração por prescrição e encaminhou informações ao Ministério Público e à unidade policial especializada em crimes contra a Administração Pública.
Em 2019, foi instaurado ainda um Processo Administrativo de Responsabilização contra a Master, com base na Lei Anticorrupção, para apurar alteração de preço e possível sobrepreço no contrato.
A comissão recomendou a análise de eventual responsabilidade dos administradores.


Hanna Garib
A ligação de Janikian com Hanna Garib, um dos principais nomes da chamada Máfia dos Fiscais, também está documentada.
Garib era apontado pela Polícia Civil como destinatário final das propinas arrecadadas por funcionários que extorquiam comerciantes e ambulantes durante a gestão Celso Pitta.
Janikian e Garib foram sócios, entre 1988 e 1996, na Ghojan Construtora.
A estrutura passava por empresas ligadas às duas famílias.
Janikian teria apresentado Garib a um banqueiro mexicano mencionado na investigação sobre uma possível conta em Miami e, depois da negociação dos direitos de exploração da Ghojan, permaneceu como único proprietário contratual da empresa.
Em depoimento reproduzido pela Assembleia Legislativa de São Paulo, Janikian disse ter conhecido Jorge “Jô” Daher Cutait em festas realizadas no sítio de Garib e afirmou que este o tratava como irmão e o preparava para sucedê-lo politicamente.

Réu em Santa Catarina
Sérgio Luiz Janikian e Karin Stamer Janikian foram formalmente denunciados na ação penal nº 050.04.000890-8, da Vara Criminal de Pomerode, por crimes contra a ordem tributária e formação de quadrilha.
A acusação descrevia uma atividade que teria durado quase um ano, com rotina e divisão de tarefas entre os envolvidos.
O pagamento integral da dívida extinguiu a punibilidade dos crimes tributários.
A defesa tentou encerrar também a acusação por formação de quadrilha, mas o STJ e o STF entenderam que se tratava de delito autônomo, que poderia continuar sendo processado.
No HC 90.757/SC, o Supremo recusou o encerramento antecipado da ação.
Em 2020, após o reconhecimento da prescrição, foi determinada a liberação da indisponibilidade dos bens de Janikian.

Outros rolos
Janikian também teve vínculo societário com a Mercosul Comercial e Industrial.
Em processo fiscal, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais concluiu que a empresa realizou uma “incorporação às avessas” para escolher indevidamente o regime de lucro presumido.
A multa aplicada foi de 150%.
Em 2021, o Cade condenou a Mercosul e outras cinco empresas por formação de cartel em licitações de uniformes e materiais escolares realizadas entre 2007 e 2012.
Segundo o órgão, as empresas fixavam preços, dividiam mercados, escolhiam previamente os vencedores e apresentavam propostas de cobertura.
Na falência da Mercosul, Janikian aparece como credor quirografário, classificado como fornecedor, por aproximadamente R$ 2,17 milhões.
O Tribunal de Contas de Mato Grosso investiga ainda uma licitação de R$ 98,6 milhões vencida pela Master.
A auditoria apontou possível restrição à concorrência pela reunião de roupas e calçados em um único lote e registrou que a empresa teria sido a única autorizada a corrigir falhas formais, tornando-se a única habilitada.
Foram levantadas suspeitas de favorecimento e direcionamento.
Embora a Exame apresente Janikian como proprietário da Master e afirme que não existem investidores externos, o quadro societário público revela uma estrutura mais complexa.
Consta como sócia da Master a Invictos Participações Ltda., constituída em 2025 com capital de R$ 123,3 milhões.
Em março de 2026, ingressou na Invictos a Brujuka Ltd., empresa estrangeira domiciliada em Nassau, nas Bahamas.
Janikian mantém ainda extensa relação imobiliária com a Prefeitura de São Paulo.
Segundo o De Olho nos Ruralistas, suas empresas alugavam pelo menos 11 imóveis destinados a escolas, creches e unidades de saúde.
Ele doou R$ 20 mil à campanha de Ricardo Nunes em 2018, e a gestão do prefeito promoveu a desapropriação de um imóvel do empresário por R$ 9,9 milhões.
O levantamento encontrou também sete ações de despejo movidas por Janikian envolvendo unidades públicas.
Alguns negócios passam por imóveis ou entidades ligados a Benjamin Ribeiro da Silva, fundador da Sobei, amigo de Nunes e antigo sócio do empresário.
Reportagem da Agência Pública revelou que nove dos dez acordos de recomposição de aluguéis examinados beneficiaram propriedades relacionadas a Benjamin e Janikian.
O Ministério Público abriu investigações sobre a atuação da Prefeitura e apura se as condutas atribuídas a Janikian podem configurar crime ou improbidade administrativa.
Em Recife, professores relataram atrasos e entregas parciais em um contrato da Master renovado por aproximadamente R$ 27 milhões.
Com atuação inidônea transitada em julgado, Sérgio Janikian, assessorado pelo experiente Fernando Mello — que trabalhou para a MSI, de Kia Joorabchian, entre outros clientes famosos —, tenta mudar a própria biografia.
Não á toa surgem ‘reportagens’ como as publicadas pela EXAME.
Mas a realidade deixa rastros.
No Corinthians, por exemplo, afastou-se da Renovação e Transparência, grupo no qual se escorou durante décadas, ‘destacando-se’ pela constrangedora passagem na direção de futebol, para tentar, agora em conjunto com o Centrão, se apresentar como alternativa decente num clube marcado pela imoralidade, pelo compadrio e por inúmeros jogos de interesses.


