Claudio Lottenberg: do sionismo militante ao colo da extrema direita bolsonarista

Durante a entrevista concedida ontem ao Jornal Nacional, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro anunciou que Claudio Lottenberg será seu ministro da Saúde caso vença a eleição.

Ao aceitar a incumbência, o médico aderiu explicitamente à extrema direita brasileira.

Escolheu beijar as mãos do bolsonarismo, apesar de tudo o que se conhece sobre o passado da família: exaltação da ditadura militar, ataques às urnas, tentativa de ruptura institucional, desprezo pelas vítimas da pandemia, promoção de medicamentos ineficazes, proximidade com milicianos e uma coleção interminável de escândalos.

Presidente da Confederação Israelita do Brasil, a Conib, Lottenberg é um militante declarado do sionismo.

É neste ponto que sua atuação se alinha ao bolsonarismo.

A extrema direita brasileira mantém relação ideológica com a extrema direita israelense, especialmente com os grupos que sustentam Benjamin Netanyahu.

Ambas naturalizam discursos autoritários, tratam adversários como inimigos, atacam instituições de controle e tentam transformar críticas políticas em ameaças existenciais.

No caso bolsonarista, esse ambiente reúne admiradores da ditadura, defensores de golpistas e gente que considera direitos humanos um obstáculo.

Em maio de 2024, Lottenberg publicou artigo no qual afirmou:

“O palestino é esmagadoramente violento, misógino, homofóbico e antidemocrático.”

Não se referiu ao Hamas, a um governo ou a determinado grupo político.

Generalizou contra “o palestino”.

Após a repercussão, suprimiu o trecho, mas não se retratou claramente.

A Federação Árabe Palestina do Brasil e membros da comunidade palestina registraram denúncias por racismo e discurso de ódio.

O caso gerou o processo federal nº 5008004-60.2024.4.03.6181, na 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo.

Em março de 2026, a representação passou a constar como ação penal e deverá ser julgada nos próximos meses.

A situação torna-se ainda mais constrangedora quando comparada à ofensiva jurídica promovida pela Conib, sob o comando de Lottenberg, contra jornalistas que ousam criticar o genocídio cometido pelo governo de Israel contra os palestinos.

Em janeiro de 2024, Conib e StandWithUs Brasil financiaram integralmente uma viagem de cinco dias a Israel para oito magistrados brasileiros.

Participaram o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, cinco ministros do Superior Tribunal de Justiça e integrantes de outros tribunais.

Inicialmente, as entidades evitaram divulgar a lista completa.

Um coletivo de advogados apresentou representação ao Conselho Nacional de Justiça, apontando riscos à independência e à aparência de imparcialidade dos magistrados.


Rolo no Eisntein

Lottenberg também presidia o Hospital Israelita Albert Einstein quando foi firmado, em 2008, o contrato de aproximadamente R$ 167,4 milhões envolvendo Prefeitura de São Paulo, CEJAM e Einstein para a administração do Hospital Municipal M’Boi Mirim.

Em 2019, o Tribunal de Contas do Município julgou o contrato irregular.

O TCM encaminhou o caso ao Ministério Público e à polícia.

Einstein e Prefeitura recorreram.

O caso segue em curso.

Ainda assim, como dirigente máximo da instituição no período, deve explicar o que sabia sobre o contrato, como funcionava a fiscalização interna e qual foi o resultado das providências encaminhadas às autoridades.


Banco Master

Lottenberg também preside o Conselho de Administração da biofarmacêutica Biomm, empresa com volumosos negócios com o poder público.

Em 2024, um fundo ligado ao Banco Master tornou-se acionista relevante da companhia.

Reportagens apontaram forte crescimento nas negociações de ações realizadas pelo conjunto dos administradores da Biomm, inclusive operações durante períodos de vedação anteriores à divulgação de balanços.

A Comissão de Valores Mobiliários pediu esclarecimentos repetidas vezes.

O médico presidia o conselho responsável pela governança da companhia.

Outra reportagem revelou que investidores ligados à Biomm teriam recebido cerca de R$ 336 milhões em empréstimos do Banco Master durante o período de valorização das ações.

A conexão torna-se politicamente ainda mais incômoda porque Daniel Vorcaro, dono do Master, também financiou com dezenas de milhões de reais o filme “Dark Horse”, destinado a promover Jair Bolsonaro.

Na mesma entrevista em que anunciou Lottenberg como ministro, Flávio Bolsonaro recusou-se a apresentar prestação de contas detalhada desse negócio.


BIOMM e o SUS

A Biomm fechou contratos e parcerias de fornecimento de insulina ao SUS que ultrapassam R$ 300 milhões.

Em 2026, foi notificada pelo Ministério da Saúde por atraso na entrega de doses.

A empresa contestou a dimensão do atraso e o governo informou que não houve desabastecimento.

Se Flávio Bolsonaro vencer, Lottenberg poderá comandar o mesmo Ministério que compra produtos da empresa cujo conselho preside.

O conflito de interesses é evidente.


Esperteza na Amil

Em 2016, a UnitedHealth, controladora da Amil, comprou a rede de clínicas Lotten Eyes, pertencente a Lottenberg.

O valor foi estimado pelo mercado em aproximadamente R$ 200 milhões, embora nunca tenha sido oficialmente divulgado.

Pouco depois, Lottenberg assumiu a presidência da própria UnitedHealth Brasil.

Permanecem perguntas sobre avaliação independente, condições de pagamento, eventuais parcelas vinculadas ao desempenho e o processo que levou o comprador de sua empresa a contratá-lo imediatamente como principal executivo.

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