Documentos revelam corrupção de ex-diretor de futebol do Corinthians

O Blog do Paulinho noticiou, com exclusividade, que Rubens Gomes, o Rubão, ex-diretor de futebol do Corinthians e atual conselheiro, integrante do grupo União dos Vitalícios, foi surpreendido, em 2 de junho, por agentes do GAECO, que cumpriram mandado de busca e apreensão em sua residência.

O cartola figura entre os investigados da operação “Rei do Pix”.

Segundo o Ministério Público de São Paulo, Rubão teria participado do desvio de milhões de reais da Prefeitura de Catanduva.

A Justiça determinou o bloqueio de R$ 4.590.960,00 em bens e contas do dirigente.

Nesta semana, Rubão tentou reaver dólares apreendidos durante a operação, mas o Judiciário decidiu que os valores, ainda objeto de investigação, permanecerão sob custódia do GAECO.

O Blog do Paulinho teve acesso a novos detalhes, acompanhados das provas que os embasam, sobre parte da atuação do dirigente em Catanduva, incluindo o caminho percorrido pelo dinheiro que recebeu e posteriormente repassou, como retorno, ao seu facilitador, utilizando as contas de assessores do político.

Trata-se do presidente da Câmara Municipal de Catanduva, Marcos Aparecido Ferreira, conhecido como Marquinhos Ferreira, com quem Rubão mantém antiga relação de amizade e que, durante sua passagem pelo departamento de futebol do Corinthians, chegou a levar ao CT do clube.

Segundo a decisão judicial que determinou as buscas na residência e no escritório de Rubão, quatro veículos do dirigente, avaliados em aproximadamente R$ 1,5 milhão, também foram alvo de ordem de confisco.

São eles:

  • BMW iX1 eDrive20, preta, ano 2024;
  • BMW X5 xDrive50e, preta, ano 2025;
  • Volvo EX30 E60 Ultra, ano 2024;
  • BYD Dolphin Mini GS EV, ano 2024.

Rubão é apontado como integrante do núcleo empresarial da organização criminosa.

Segundo a decisão judicial:

“(…) o núcleo empresarial era composto por pessoas físicas e jurídicas que constituíam empresas de fachada, responsáveis pelas contratações e pelo recebimento dos recursos públicos.”

Ainda de acordo com a investigação:

“Referidas empresas eram constituídas, muitas vezes, poucos dias antes do recebimento dos valores e, com frequência, encerravam suas atividades logo em seguida.”

Após uma licitação que, segundo os documentos constantes do inquérito, foi fraudada, Rubão conseguiu firmar contrato com o Município de Catanduva, recebendo recursos públicos sem a correspondente prestação dos serviços contratados.

A empresa utilizada foi a Unidade de Concurso e Treinamento Ltda. (UCT).

O Ministério Público descreve o caso da seguinte forma:

“Consta que o processo de contratação foi aberto por Marquinhos Ferreira em 30 de novembro de 2023, culminando na celebração de contrato com a empresa Unidade de Concurso e Treinamento Ltda. (CNPJ 19.943.457/0001-68), representada por Rubens Gomes da Silva Junior, vencedora do certame. A empresa recebeu da Câmara Municipal onze parcelas mensais de R$ 208.680,00, totalizando R$ 2.295.480,00, entre fevereiro e dezembro de 2024.”


Propina

Segundo o MP-SP:

“Os dados bancários obtidos confirmam que Rubens Gomes da Silva Junior, sócio-administrador da UCT, realizou transferências financeiras destinadas a Marquinhos Ferreira.”


Fraude em licitação

Ainda segundo a investigação:

“Na nuvem de Diego Arthur Borges foi localizada documentação da empresa UCT contendo assinatura do analista de implantação Francisco Tadeu Ferro. O mesmo Francisco figurava como responsável pela empresa concorrente que apresentou proposta à Câmara Municipal.”

O Ministério Público conclui:

“Não há dúvida de que a contratação foi fraudada, havendo elementos que indicam a participação de Rubens Gomes da Silva Junior, responsável pela UCT, além de Francisco Tadeu Ferro, que colaborou para frustrar a competitividade do certame.”


Propina II

Após a contratação, a empresa de Rubão transferiu R$ 360 mil a Hallan Kleber Aparecido Debiazi, por meio de onze transferências realizadas entre fevereiro e dezembro de 2024.

“Consta ainda que após a contratação, sua empresa transferiu ao investigado HALLAN KLEBER APARECIDO DEBIAZI R$ 360.000,00, pagos entre 26.2.2024 e 23.12.2024, por meio de 11 transferências”


Quem é Hallan?

Segundo o MP-SP:

“Hallan Kleber Aparecido Debiazi é pessoa bastante próxima de Marquinhos Ferreira, amigo íntimo de Diego Arthur Borges, integrando os núcleos administrativo e empresarial da organização criminosa.”

Ainda conforme a investigação:

“Hallan é um dos principais operadores do esquema criminoso, responsável, direta ou indiretamente, pela constituição de dez empresas utilizadas para emissão de notas fiscais frias à Câmara Municipal, causando prejuízo superior a R$ 2 milhões.”

O MP acrescenta que Hallan já exerceu o cargo de assessor parlamentar de Marquinhos Ferreira.

Rubão transferiu recursos destinados ao Presidente da Câmara nas contas de Hallan:

“Consta ainda que após a contratação, sua empresa transferiu ao investigado HALLAN KLEBER APARECIDO DEBIAZI R$ 360.000,00, pagos entre 26.2.2024 e 23.12.2024, por meio de 11 transferências.

“Referidos depósitos em dinheiro na própria conta bancária (ligados à empresa de Rubão) cessaram exatamente no final do ano de 2024, ou seja, quando do término do mandato do investigado MARCOS APARECIDO na Presidência da Câmara Municipal”


Passa, Repassa e Embolsa

O inquérito descreve a dinâmica dos pagamentos.

Em 22 de fevereiro de 2024, a UCT recebeu R$ 208.680,00 da Câmara Municipal.

Quatro dias depois, Hallan recebeu R$ 35 mil da empresa de Rubão.

No mesmo dia, Hallan transferiu R$ 34 mil para Marquinhos Ferreira, em duas operações distintas.

Na prática, o intermediário reteve R$ 1 mil para operacionalizar o repasse da propina.

Segundo as investigações, esse mecanismo repetiu-se em pelo menos outras cinco oportunidades.

Nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2024, grande parte dos valores recebidos por Hallan foi transferida para Diego Arthur Borges.

“No dia 22.02.2024, a empresa UCT recebe da Câmara de Vereadores o valor de R$ 208.680,00”

“No dia 26.02.2024, HALLAN recebe da empresa “UCT” o montante de R$ 35.000,00”

“No mesmo dia, HALLAN transfere a MARCOS APARECIDO FERREIRA, Presidente da Câmara de Vereadores de Catanduva, por meio de duas transações, o importe
de R$ 34.000,00”

Conforme as apurações, referida dinâmica se repete em ao menos cinco outras oportunidades (pagamentos de R$ 34.000,00 à MARQUINHOS FERREIRA, agora, no mesmo dia do recebimento dos valores da empresa “UCT”):

“No dia 21 de outubro de 2024, a empresa UCT transfere a HALLAN o valor de R$ 5.000,00, que é repassado à “MARQUINHOS FERREIRA” no mesmo dia”

“Nos meses de outubro, novembro e dezembro, os valores recebidos por HALLAN da empresa UCT são transferidos, em larga parte, a DIEGO ARTHUR BORGES”


Quem é Diego?

Diego Arthur Borges é apontado como principal assessor de Marquinhos Ferreira e figura central da organização criminosa.

Foi chefe de gabinete e, posteriormente, secretário de Administração da Câmara Municipal.

Segundo o MP-SP:

“Com amplos poderes administrativos, Diego viabilizava as contratações fraudulentas, auxiliando na abertura de empresas de fachada, elaboração de contratos, orçamentos, notas fiscais frias e documentos falsos.”


Dinheiro bloqueado de Rubão

A Justiça determinou o bloqueio inicial de R$ 4.590.960,00 em bens e contas de Rubão.

Desse montante, aproximadamente R$ 2,2 milhões referem-se aos danos materiais e outros R$ 2,2 milhões destinam-se ao ressarcimento por danos morais coletivos.


Fausto Stopa

Parceiro de sujeiras antigas de Rubão

Fausto Júnior Stopa, ex-prefeito de Ariranha, é velho conhecido de Rubão.

Ambos foram condenados por desvio de recursos públicos naquele município.

Agora, para surpresa do Ministério Público, Stopa também aparece entre os beneficiários do esquema investigado em Catanduva, por meio de empresa de fachada.

Segundo a investigação, sua empresa foi aberta poucos dias antes de começar a receber pagamentos da Câmara Municipal, embora ele sequer residisse em Catanduva.

O MP também identificou que a empresa utilizava o mesmo endereço de outra empresa investigada e recebeu mais de R$ 59 mil da Câmara.

Além disso, Fausto recebeu valores diretamente de Diego Arthur Borges e Hallan Kleber Debiazi.

“Há indícios de autoria em relação ao investigado “FAUSTO (CPF 121.609.058-01) constituiu, no dia 17.3.2023 empresa com capital social de R$ 1.000,00, com endereço na Rua José Augusto Ganga, nº 231, Bairro Loteamento Solo Sagrado, CEP 15808-165, Catanduva/SP, endereço residencial que não é o seu de registro”

““Nada obstante, o endereço de sua empresa é o MESMO da empresa de CRISTIANO APARECIDO GARCIA (CNPJ 51.480.850/0001-75)”

“E mais: pelo que se constata, FAUSTO SEQUER reside em Catanduva, mas na cidade de Ariranha/SP”

“O objeto social da empresa está descrito a pág. 515”

““…Poucos dias após a constituição da empresa, ela começa a receber pagamentos da CÂMARA DE CATANDUVA (primeiro pagamento aos 29.3.2023, no valor de R$ 7.850,00, por “instalação no sistema de internet e servidor parte de segurança em todo sistema telefônico eletrônico””

“Somente aos 28.8.2023, recebe o valor de R$ 39.600,00 por “empenho global de serviço realizado em aparelhos de dvr aumento de hd de monitorização com troca de fios de câmeras para melhor funcionamento e qualidade e demais servicos descritos no contrato”

“Pesquisas indicaram que o investigado FAUSTO é ex-Prefeito Municipal de Ariranha/SP e se trata de pessoa próxima de MARCOS APARECIDO FERREIRA, conforme conversas de págs. 517/518”

“FAUSTO recebeu valores dos investigados DIEGO ARTHUR e HALLAN KLÉBER (pág. 518)”

“O investigado recebeu o valor total de R$59.260,00 da Câmara Municipal”

Rubão e Augusto Melo

Diante do conjunto probatório já reunido, é possível afirmar que a situação de Rubão é extremamente delicada, especialmente porque todas essas evidências foram obtidas antes das buscas realizadas pelo GAECO em sua residência e escritório.

Ou seja, tudo indica que novas revelações ainda poderão surgir.

É de conhecimento público, principalmente no meio do futebol, a atuação de Rubão na intermediação de jogadores.

Há negócios comprovados envolvendo Corinthians, União Barbarense e Guaratinguetá, além de relatos sobre diversas outras operações realizadas por intermédio de terceiros.

Com o recurso referente ao esquema de Ariranha em julgamento no Tribunal de Justiça de São Paulo e a investigação de Catanduva avançando, cresce a possibilidade de que outras atuações de Rubão, tanto em municípios do interior paulista quanto no mercado do futebol, também venham à tona.

Caso isso ocorra, o temor deverá atingir agentes, dirigentes e demais personagens que gravitam em torno de seus negócios.

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.