Às mulheres, que admiro

Da FOLHA

Por MIGUEL SROUGE

Eliminar as desigualdades de gênero é essencial para a prosperidade de uma nação; é imprescindível que tenham os mesmos direitos dos homens

Como médico usufruo de momentos inebriantes, aliviando o sofrimento e resgatando seres para a vida. Esses instantes, contudo, não se perenizam quando observo a indiferença com que parte da sociedade e a maioria dos nossos governantes se postam frente a existência humana e a miséria que assola o nosso planeta.

Contrastando com as exaltações oficiais, a realidade social no Brasil ainda é marcada por estatísticas angustiantes. De acordo com o FMI e o IBGE, o nosso país ocupa a 10ª posição entre as maiores economias do planeta. Apesar disso, em 27% dos lares brasileiros existe privação significativa de alimentos, incluindo 2,5 milhões de compatriotas que vão dormir com fome, alimentando-se mal, apenas uma ou duas vezes ao dia.

Igualmente desolador, em 2023 cerca de 59 milhões de brasileiros viviam em famílias cuja renda mensal total era menor do que R$ 660, não condizente com a dignidade que envolve a existência humana.

Nesse cenário constrangedor, emergiram dados da ONU indicando que o ciclo de transmissão da fome e da miséria nas nações menos desenvolvidas só é interrompido quando os desprovidos têm acesso digno à educação, à saúde e ao trabalho. Indo além, demonstraram que as mulheres tinham um papel único e insubstituível para se alcançar esses objetivos. Nos países pobres, as mulheres são responsáveis por cerca de 70% do trabalho que sustenta as famílias e são as provedoras quase exclusivas da assistência às crianças, enfermos e idosos. Além disso, as mulheres representam nesses países o principal elo, muitas vezes solitário, de agregação e sobrevivência das famílias.

Num outro estudo do Banco Mundial, quando a mulher gerencia os recursos domésticos, os gastos com a alimentação e educação dos seus filhos são até 15 vezes menores do que quando o pai assume esse papel. Ademais, para cada ano a mais de estudo da mãe há uma redução significativa da mortalidade infantil e um aumento expressivo das taxas de escolarização dos seus filhos.

Contrastando com a relevância do seu papel nas sociedades contemporâneas, todas as mulheres, e principalmente as mais pobres, continuam submetidas a um ciclo de exclusão e violência infindável. No Brasil, elas representam a maioria dos trabalhadores informais, recebendo salários inferiores aos dos homens e enfrentando, com frequência, condições mais precárias de trabalho.

Além disso, a violência de gênero, que não poupa nenhuma classe social, se impõe como uma realidade brutal em nosso país. O Brasil figura entre as nações com as taxas mais altas de feminicídio no mundo (quase o dobro da Europa) e tem na violência doméstica uma das nossas maiores mazelas sociais. O temor da agressão torna-se uma barreira adicional que prejudica a autonomia feminina, afastando as mulheres brasileiras do mercado de trabalho e dos espaços públicos.

Esses exemplos demonstram que eliminar as desigualdades de gênero é essencial para se promover a prosperidade de uma nação. Para tanto, é imprescindível que se conceda às mulheres os mesmos direitos desfrutados pelos homens no trabalho e na política. Que se privilegie seu acesso aos cuidados de saúde e na maternidade, que se reduza a sua vulnerabilidade à violência física, sexual e psicológica e que se conceda às mulheres o direito de controlar as decisões maiores que afetam o seu destino.

Termino expressando meu respeito pelas mulheres que admiro, aquelas que mesmo afrontadas pela discriminação, injustiça, opressão e violência não hesitam em estender seus mantos de aconchego, protegendo a condição humana e lutando pela superação da miséria no mundo. Como bem definiu Riobaldo, o jagunço-filósofo de Guimarães Rosa: “Mulher não tem jeito, é muito mais do que nós, feito forte dentro da fraqueza dela, feito doce dentro do sofrer”.

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.