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Blog do Paulinho

Há uma parte do currículo de Cuca que não deve ser esquecida

Da FOLHA

Por RENATA MENDONÇA

Nem só de títulos é construída a trajetória do vitorioso treinador

Cuca está de volta ao Atlético-MG. O treinador mais vitorioso da história do Galo, que já conquistou uma Libertadores e uma Copa do Brasil e que tirou o clube de uma seca de 50 anos com o título brasileiro de 2021, acertou seu retorno na última sexta-feira. Cuca, que colecionou troféus nos times que treinou, também já teve seu nome envolvido em um crime grave –uma condenação por estupro na Suíça quando ainda era jogador do Grêmio, em 1987.

As primeiras duas frases desse parágrafo têm sido repetidas à exaustão nas inúmeras matérias e debates sobre o retorno de Cuca ao Atlético-MG nos últimos dias. Com justiça, afinal o treinador tem mesmo um currículo invejável quando se fala em títulos conquistados. Há outra parte do currículo dele, porém, que costuma ser esquecida.

“A galera esquece muita coisa em relação ao Cuca.” Minha amiga e colega de trabalho Ana Thaís Matos lembrou. Nós, mulheres, não esquecemos. Porque esse “detalhe” da carreira de Cuca mexe com a gente. Foi há 35 anos, poderia ter sido há 50 ou ontem. A dor de uma mulher abusada vai ecoar na gente sempre. Vai despertar as nossas dores, que tentamos enterrar –mas que voltam à tona toda vez que um novo caso aparece.

Porque, para nós, começa muito cedo essa história de vivenciar abusos e silenciar. Desde a adolescência, com 11 ou 12 anos, os assédios na rua, os beijos forçados na balada, os agarrões que você não pediu, o sexo que você não consentiu.

Todas nós, eu repito, TODAS nós temos não uma, mas várias histórias de assédio, abuso, violência pra contar. Não é curioso que nenhum de vocês, homens, tenha conhecimento sobre algum amigo que abusou, assediou ou violentou uma mulher? Tenho uma dica: todos vocês conhecem. Alguns de vocês são esses homens. E o pior de tudo isso é que insistem em não perceber.

Quem aí já levou uma mulher bêbada para casa e transou sem que ela tivesse condições de entender o que estava fazendo? Quem aí já compartilhou “nudes” de uma mulher no grupo dos amigos sem que ela consentisse? Quem já comentou o “nude” que o amigo mandou (da mulher que nem sabe que o seu corpo está sendo compartilhado)? Quem já insistiu quando a mulher pedia para parar, tirou a cueca, pressionou entre as pernas dela? Quem continuou mesmo ela dizendo não, mesmo ela dizendo para?

Quem de vocês nunca ouviu histórias assim na mesa do bar e deu risada?

Não, nem todo homem, é verdade. Mas todas nós temos histórias de algum homem que fez isso. Não é curioso? E acreditem: não era o monstro do beco escuro na calada da noite. Era o amigo; o namorado; o amigo do amigo; um conhecido; alguém exatamente como vocês.

É por isso que incomoda tanto ver a naturalidade com que vocês, homens, ignoram a condenação de Cuca por estupro. Porque nos escancara a naturalidade com que vocês ignoram diariamente as violências que sofremos desde cedo. Não é relevante, não gera discussão, não carece de comentário. Vocês simplesmente calam TODOS OS DIAS.

O que vocês vão perguntar para o Cuca no dia da apresentação dele? Eu queria muito que ele falasse um pouco sobre o que aconteceu em 1987, sobre o que ele já refletiu a respeito. Não em um vídeo produzido ao lado da esposa e das filhas tentando encerrar de forma superficial um assunto que nem sequer começou. Permita-nos perguntar, Cuca. Permita a você mesmo responder, revisitar aquela história com a consciência que tem hoje.

E aos homens que leem essa coluna, fica o convite à reflexão. Faço a vocês um questionamento que Milly Lacombe propôs no ano passado: se todas nós resolvêssemos falar de nossos abusos, quantos de vocês se manteriam de pé? Se não dá para mudar o passado, daqui para a frente escolham ser aliados.

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