Médicos: piores momentos

Da FOLHA
Por TATI BERNARDI
- Os absurdos que já passei em consultórios desde a minha adolescência até os dias de hoje
- Meu parto foi uma experiência que me deixou marcas e nunca escrevi sobre isso
Há uma semana, as jornalistas Magê Flores e Gabriela Mayer encerraram o podcast Café da Manhã lembrando as piores coisas que já ouviram de médicos. Sozinha, enquanto dirigia, comecei a lembrar os absurdos que já passei em consultórios desde a minha adolescência até os dias de hoje.
Aos 16 anos, fui a uma ginecologista pela primeira vez. A mulher era médica da minha mãe e já foi me avisando que, por eu ser menor de idade e virgem, não poderia me examinar “como gostaria”. Seria um exame incompleto. Nunca entendi se ela estava frustrada com a minha vida sexual ou se estava criticando a minha mãe por acreditar que uma adolescente precisava de cuidados.
Eu estava assustada, tensa, tudo era muito novo e ela sem paciência forçou minhas coxas para que abrissem mais e falou, querendo ser engraçada, amigona: “Você é fresca ou traumatizada porque já sofreu algum abuso?” Saí do consultório chorando e minha mãe, ao saber do ocorrido, invadiu a sala da mulher aos berros.
Aos 18 anos, fui a um ortopedista que me pediu para “tirar toda a roupa e ficar com joelhos e mãos apoiados no chão”, pois ele precisava “medir certinho minha coluna vertebral”. Eu respondi que tudo bem, mas chamaria meu pai. Ele ficou pálido e disse que já tinha visto minha escoliose, não precisava mais. Aos 20 anos, fui a um clínico geral que resolveu tratar meu ovário policístico com acupuntura e para tal ele espetava somente a minha virilha.
Aos 30 anos, precisei fugir de uma psiquiatra que deixava recados em meu celular assim: “Hoje passei mal no metrô lotado e lembrei de você, somos muito parecidas, me ligue”.
Quando fiquei grávida, ouvi do meu obstetra que o cérebro do bebê, caso fosse menina, demoraria mais para formar. Troquei de obstetra para um que tinha nojo de vagina e pedia para as enfermeiras me examinarem, enquanto ele arrumava os cabelos no espelho e fofocava sobre pacientes “celebridades de redes sociais”. Troquei de obstetra para uma mulher que ao me ver sofrendo com enjoos terríveis ignorou meu problema e me ofereceu uma parceria: “Vamos escrever juntas um livro sobre maternidade? Você tem muitos leitores e eu não te cobro o parto”. Troquei uma última vez de obstetra para a médica que fez meu parto e que ao saber que eu estava indo para o hospital, com contrações de minuto em minuto, me disse: “São duas da manhã, me deixe dormir!”.
Meu parto foi uma experiência que me deixou marcas e nunca escrevi sobre isso: a doula insistia que eu não dilatava porque não queria, a médica insistia que eu precisava deixá-la dormir e o anestesista insistia que estava tudo bem, mas ele paralisou meu corpo até a garganta em vez de mandar a anestesia só pra baixo.
A primeira pediatra da minha filha disse que eu não tinha leite. Era melhor nem tentar: “Já compra Nan e esquece”. Amamentei minha filha com exclusividade até ela completar um ano e três meses. A criança saudável e eu jorrando leite.
Recentemente, fui fazer Botox para enxaqueca. A neurologista, com a injeção na mão, começou a falar mal da paciente que havia saído há pouco: “Essa daí fez aborto, imagina a culpa? Culpa dá dor de cabeça, né?”. Na mesma semana um endocrinologista analisou meus exames e concluiu que eu preciso ganhar massa magra: “Você já tem certa idade (sendo ele pelo menos uns 15 anos mais velho do que eu), não vai querer ajuda pra levantar da privada, vai?”.
Ainda tem gente que se surpreende com a quantidade de médicos bolsonaristas. Eu não.
