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Um retrato sujo do ídolo dos Bolsonaros

Da FOLHA

Por CLÓVIS ROSSI

Relatório mostra um paranoico na Casa Branca

Donald Trump, o presidente que o chanceler brasileiro Ernesto Araújo considera a única pessoa no mundo capaz de salvar o Ocidente, teve um comportamento paranoico durante os 23 meses que durou a investigação conduzida por Robert Mueller.

É o que fica evidente no relatório de Mueller, cuja íntegra, editada e com muitas passagens censuradas, foi liberada na quinta-feira (18).

Paranoia que se instalou assim que Mueller foi designado para conduzir a investigação a respeito da interferência da Rússia na campanha eleitoral de 2016, vencida por Trump.

Uma frase do presidente deixa cristalinamente claro como Trump ficou obcecado e apavorado com a perspectiva de que algo de comprometedor fosse descoberto: “Oh, meu Deus. Isso é terrível. É o fim da minha presidência. Estou ferrado” (ferrado não foi bem o termo utilizado, mas é o que a elegância da Folha impõe).

Só não foi o fim de Trump porque Mueller não conseguiu demonstrarque houve uma conspiração dos russos com o presidente para derrotar Hillary Clinton.

O procurador especial escreveu que “a investigação identificou numerosos vínculos entre indivíduos com laços com o governo russo e indivíduos associados com a campanha de Trump”, mas que “as evidências não eram suficientes para respaldar acusações criminais”.

Posto de outra forma: não há uma acusação criminal, mas há uma enorme suspeita que causa uma mancha política evidente. O mínimo que se poderia exigir de Trump é que condenasse veementemente a comprovada interferência russa. Silenciou. Claro.

Se fosse a favor de Hillary, teria feito um escarcéu. Prova de que não tem estatura nem política nem moral para liderar o que quer que seja, menos ainda para purificar o Ocidente.

Ainda mais que o presidente fez o diabo para atrapalhar a investigação, pressionando inclusive pela demissão de Mueller. Não foi o suficiente, entretanto, para que Mueller encontrasse elementos que lhe permitissem sugerir o indiciamento do presidente por obstrução da Justiça.

O relatório de Mueller não inocenta Trump, ao contrário do que chegou a dizer William Barr, o auxiliar do presidente que se apressou a inocentar o chefe, assim que recebeu o documento.

O que Mueller de fato escreveu é que, “com base nos fatos e nos padrões legais aplicáveis, não fomos capazes de chegar a esse julgamento” (de que houve obstrução de justiça, o que seria, claramente, motivo para o impeachment).

Resumo da ópera: embora o relatório não conclua que o presidente tenha cometido um crime, “também não o isenta”, afirma o documento.

Ao não isentá-lo, “prepara tudo que o Congresso precisa para investigar o presidente por obstrução de Justiça”, como escreveu para o New York Times desta sexta-feira (19) Noah Bookbinder, diretor-executivo do grupo Cidadãos pela Responsabilidade e a Ética em Washington.

Até porque, se não houve a bala de prata contra o presidente, houve, sim, uma massa de outros atingidos, a saber: 34 indiciamentos e confissões de culpa, 500 ordens de busca e 2.300 intimações para prestar depoimento.

Voltando à incontrolável admiração de Araújo —e também dos Bolsonaros, pai e filhos— por Trump, os contatos da tribo Trump com os russos, comprovados em minúcias, afastam definitivamente, se ainda fosse preciso, a já aloprada hipótese de que o presidente americano é o regenerador do Ocidente.

A menos, é claro, que o chanceler e os Bolsonaros considerem Vladimir Putin, o líder que mexe todos os cordões na Rússia, outro campeão dos valores ocidentais.

Afinal de contas, o relatório pinta “o retrato de uma administração com uma cultura de fazer ginástica com a verdade, se não a de socavá-la”, como escreve para o New York Times Lisa Lerer, responsável pela edição noturna da newsletter do jornal.

Desse tipo de modelo, é melhor guardar a maior distância, a menos que se compartilhe tais aberrações.

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