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25 anos sem Dener: Brasil perdeu um pouco de Pelé, Garrincha e Neymar

De O GLOBO

Por CAIO BLOIS

Considerado um gênio por ex-companheiros, jogador deixou saudade de lindos dribles e lances mágicos

Há 25 anos, o futebol brasileiro perdeu um pouco de sua arte. Dormindo no banco do carona de seu carro, em 19 de abril de 1994, o craque Dener não resistiu ao choque com uma árvore em uma curva da Avenida Borges de Medeiros, na Lagoa Rodrigo de Freitas. De maneira fugaz, como enfileirava zagueiros com dribles em direção ao gol, o Reizinho do Canindé , então com 23 anos, passou pelo futebol deixando um rastro de saudade.

Definir Dener em uma palavra foi fácil para quem conviveu com ele: alegria. Por onde passou, o eterno camisa 10 de Portuguesa, Grêmio e Vasco encantou a todos com arrancadas e lances de gênio. Não à toa, Pepe, o Canhão da Vila, seu treinador na Portuguesa em 1993, nunca titubeou ao definir o atacante:

– Coloco o Dener entre os cinco melhores que vi jogar. Tinha muitas coisas de Pelé. Foi quem mais me lembrou a genialidade do Rei.

Para O GLOBO, ex-companheiros do craque relembraram suas histórias curiosas, o sorriso marcante e a malandragem do moleque que partiu aos 23 anos.

O PRENÚNCIO DE NEYMAR

Apesar da música da torcida do Vasco chamar Dener de “uma mistura de Garrincha com Pelé”, Neymar passou a ser a comparação mais feita com o Reizinho do Canindé. O estilo objetivo, irreverente e os dribles desconcertantes o aproximaram muito ao craque do PSG.

– O que Dener fazia em campo era um prenúncio de Neymar. Ele era o Neymar se anunciando. Hoje temos um espelho do Dener. A capacidade de desequilibrar o adversário, de decidir um jogo, de drible em velocidade… É muito parecido. É um jogador que em uma jogada decide uma partida. No mano a mano, ele era imparável. São dois jogadores que quebram linhas, destroem sistemas de jogo, furam retrancas e resolvem qualquer jogo – compara o hoje técnico Cristóvão Borges, meia da Portuguesa em 1992.

Capitão do Vasco em 1994 e muito amigo do jogador, Ricardo Rocha vê muitas características similares – principalmente o estilo atrevido.

– Uma coisa que eu admirava nele era que não tinha essa de pipocar. Ia para dentro. E tirava sarro: quanto mais driblava, mais ria da cara do marcador. Vejo muito dele em Neymar. Chama a atenção algumas particularidades: o olhar sempre para o gol, o drible em velocidade, a visão de jogo. São jogadores realmente parecidos – analisa o ex-zagueiro.

Parceiro de ataque no cruz-maltino em 1994, Valdir Bigode relembra que Dener era daqueles jogadores que faziam o torcedor sair de casa apenas para vê-lo, independente da camisa:

– Quem não viu o Dener em campo perdeu. E infelizmente perdemos ele muito cedo, vimos pouco. Era um gênio com a bola.

UMA COPA NO CAMINHO

A breve carreira de Dener impediu os brasileiros de vê-lo brilhar com a camisa da seleção. O craque fez parte do time olímpico que não se classificou para os jogos de Barcelona, em 1992. Pela seleção principal foram apenas dois jogos. Mas o talento e a transferência já acertada para o Stuttgart, em 1994, denunciavam: a amarelinha era questão de tempo. Justamente o que lhe faltou.

– A seleção e a Copa do Mundo eram caminhos naturais. Seria o último ano dele no país e tinha tudo para brilhar na Europa. Acho bem possível que fosse convocado em 1994, mas o ano dele seria 1998. Estaria no auge da carreira, já experiente, com bagagem fora do país. Talento ele tinha de sobra. Era um jogador realmente diferenciado. Com a bola, dava para ver no primeiro toque.  Dener teve pouco tempo de mostrar o talento dele, infelizmente – lamenta Dorival Júnior, companheiro de quarto do meia no Grêmio, em 1993, ainda jogador.

Tetracampeão mundial em 1994, Ricardo Rocha não titubeou ao ser questionado sobre um “espacinho” para Dener no time de Carlos Alberto Parreira:

– Com certeza teria vaga no grupo de 1994 e também em 1998. Tinha tudo para estar na prateleira dos gênios como Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Neymar. Um cracaço. Nós perdemos um cracaço.

O ÚLTIMO GOL

Dener via o ano de 1994 como uma última tentativa de ir à Copa do Mundo. Para isso, acreditava precisar atuar em clube de massa. O Canindé ficara pequeno para seu Reizinho. De olho no interesse do Corinthians, a Portuguesa aumentou o preço: US$ 3 milhões, que com o cruzeiro real desvalorizado, valia mais até do que o clube à época.

Mas a Lusa não desejava perder seu craque para um rival. E Dener acabou vindo para o Rio de Janeiro. Com o novo camisa 10 em campo, o Vasco nunca perdeu. Foram 17 jogos, com 10 vitórias e sete empates. O Cruz-Maltino, já após a morte do jogador, foi tricampeão carioca. História que poderia ter sido mais longa.

– Com certeza eu teria ainda mais gols se jogássemos mais tempo juntos (risos). A dupla deu muito certo. Ele era muito diferenciado. Fizemos muitos gols, vencemos jogos e jogávamos bem demais. Durou muito pouco, uma pena. Ele era o craque de um timaço – recorda Valdir Bigode, sua última dupla de ataque.

Um jogo, em especial, ficou marcado. No dia 9 de março, em São Januário, o Vasco recebeu o Olaria. E venceu, por 2 a 1. Aos 27 minutos, Dener fez grande jogada, tabelou com Valdir e Yan e marcou. Aquele seria o último gol da vida de Dener. Hoje membro da comissão técnica do Botafogo, Jorcey era o goleiro do Azulão da Bariri e lembra bem daquele jogo:

– Nessa partida entre Vasco e Olaria, me recordo que ele não vinha bem no jogo, tentando as jogadas mas sem sucesso. A única que conseguiu uma tabela que ele mesmo iniciou acabou conseguindo fazer o segundo gol do Vasco. Pouco tempo atrás estava vendo o vídeo desse jogo, mostrando para a minha mulher e minha filha, e ainda comentei: tive a honra de jogar contra esse grande jogador.

LEMBRANÇAS BEM-HUMORADAS

Os antigos companheiros se lembram, claro, do jeito alegre de Dener fora dos campos. O moleque da Vila Ede, na Zona Norte de São Paulo, era conhecido não só pela bola, mas por ser muito brincalhão. Mas foi ele quem “caiu na pilha” na história mais engraçada que seus companheiros de Vasco relembraram.

– O Vasco fazia pré-temporada na Granja Comary. Fazíamos uns testes físicos, coisa normal da época, quando chegávamos. O preparador pediu para a gente correr 400m. Era uma volta no gramado, coisa assim. A gente fazia sério, mas tinha um limite. Rapaz, o Dener saiu de um jeito… acho que nos primeiros 100m nem o Usain Bolt pegava ele (risos). Nós começamos a botar pilha nele, gritávamos “Vai, Dener!”. Ele se empolgou, correu, passou pelas bandeirinhas… Nos últimos 100m já começou a sentir, aquelas perninhas curtas, uma batendo na outra já. Até que ele caiu. A gente começou a rir. Ele desmaiou! Era o sonho dele, um menino ainda, cheio de vontade – recorda Ricardo Rocha.

No Grêmio, em 1993, o craque já era uma realidade no futebol brasileiro. E acreditou mesmo que era um “superstar”.

– No Grêmio, na década de 90, ainda tinham sócios assistindo ao treino no dia a dia. Geralmente umas 100, 200 pessoas. Quando o Dener chegou, passaram a ser 1000. Fins de semana com treinos até mais. Era um ambiente de jogo no treinamento. Ele tocava na bola e a torcida ia à loucura. Uma vez ele disse que ia virar ator de novela com tanta fama – conta Dorival Júnior.

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