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O drama de Hypólito, da ginástica e a triste reação popular

“Foi a primeira vez que eu tive coragem de contar para minha mãe que eles (atletas) me faziam ficar pelado, e pegar com o ânus uma pilha colocando uma pasta de dente em cima. E a questão da humilhação: neste dia, quando aconteceu isso, eu tive ataque epilético, e depois, por ter tido o ataque epilético, eu não consegui fazer a prova toda”

“Pelado, depois, a gente tinha de colocar ainda com o ânus, não podia ajudar com a mão. Você tinha de se agachar, pegar a pilha com o ânus e depois deixar dentro de um tênis, em um buraquinho de um tênis. E se a pilha caísse fora, você tinha de voltar e fazer a prova de novo. Isso, eu fiquei muito nervoso com a situação acontecendo, me deu desespero”

“Os casos de bullying aconteciam regularmente, sempre com os alunos mais velhos, mas com a conivência do técnico. Eu prefiro não expor (nomes), porque não sei se eles me dão o direito. Mas foi com muitas pessoas”

(Diego Hypólito em entrevista ao JORNAL NACIONAL)


O escândalo da Ginástica brasileira, em que o treinador Fernando de Carvalho Lopes, ex-comandante da Seleção entre 2014 e 2016, foi apontado por diversos atletas como molestador sexual, tem motivado, assim como noutros casos de abuso pelo mundo todo, que novas vítimas se revelem.

Ontem, o Jornal Nacional da Rede Globo, emissora originária da denúncia, exibiu forte entrevista com o medalhista olímpico Diego Hypólito, que revelou constrangimentos sofridos ainda na categoria de base do esporte.

Segundo o ginasta, violências praticadas por atletas mais velhos, mas com conhecimento e conivência de treinadores:

“Foi a primeira vez que eu tive coragem de contar para minha mãe que eles (atletas) me faziam ficar pelado, e pegar com o ânus uma pilha colocando uma pasta de dente em cima. E a questão da humilhação: neste dia, quando aconteceu isso, eu tive ataque epilético, e depois, por ter tido o ataque epilético, eu não consegui fazer a prova toda”

“Pelado, depois, a gente tinha de colocar ainda com o ânus, não podia ajudar com a mão. Você tinha de se agachar, pegar a pilha com o ânus e depois deixar dentro de um tênis, em um buraquinho de um tênis. E se a pilha caísse fora, você tinha de voltar e fazer a prova de novo. Isso, eu fiquei muito nervoso com a situação acontecendo, me deu desespero”

“Os casos de bullying aconteciam regularmente, sempre com os alunos mais velhos, mas com a conivência do técnico. Eu prefiro não expor (nomes), porque não sei se eles me dão o direito. Mas foi com muitas pessoas”

A humilhação, que, todos sabem, não se limita à ginástica – o futebol de base tem dezenas de casos, muitos deles publicados, de treinadores obrigando jogadores a manterem consigo relações sexuais sob pena de afastá-los da equipe – por muitos anos foi praticada com aval de dirigentes (no caso de Hypólito, treinadores) que, quando não fechavam os olhos para o absurdo, tratavam-na como algo consensual.

O Blog do Paulinho acompanhou de perto o drama de familiares que pediam socorro “em off”, mas não tinham coragem de denunciar os ataques de um ex-treinador da base do Corinthians- alguns a jogadores que depois tornaram-se famosos – que somente vazou porque uma das vítimas, o jogador William, hoje na Seleção Brasileira, teve um pai que não se segurou, e, em entrevista, contou parte do que sabia.

Porém, mais triste do que a situação enfrentada por diversos atletas oprimidos, muitos deles calados pelo medo de perder a oportunidade “da vida” de tornarem-se jogadores, ginastas ou nadadores de ponta – o que facilita a ação dos pervertidos – foi a reação popular, observada por este jornalista, não apenas nestes anos todos de trabalho, mas, escancaradamente, neste depoimento de Hypólito.

“Ele gostava”, “Com esse jeito? Não deveria reclamar”, “Só falou agora é porque queria”, estão entre diversas manifestações deploráveis.

O preconceito e a maldade de quem, muito provavelmente, se comporta diante dos seus como “moralista”, “defensor da família” e outros bordões que, em regra, esconde gente de caráter pra lá de duvidoso, é também meio de ocultação de muitos destes atos, tornando essa gente tão culpada quanto os que se aproveitam dos atletas ou de qualquer pessoa obrigada a fazer o que não quer, por medos e razões diversas, entre os quais a rejeição dos próprios amigos e parentes.

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