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Ficou claro que jamais saberemos o que significa legado

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

A cena original pensada para o desfile de Gisele Bündchen na abertura da Olimpíada incluía um assalto. Ela seria vítima de um trombadinha, haveria perseguição policial e ele seria salvo pela top. A ideia era mostrar que o Rio tem seus problemas, mas tudo acaba bem. Houve tanto protesto que essa parte foi abolida.

Naquele momento de euforia era como se a cidade não vivesse esse tipo de violência. Faz um ano neste sábado (5) que assistimos embasbacados a esse momento que ficou marcado na memória de 3,5 bilhões de pessoas. Mesmo sem dinheiro e luxo, foi um espetáculo emocionante. O que vemos agora é o triste filme de uma tragédia anunciada.

Tenho ojeriza de ouvir, ler, pensar na palavra legado. Ficou claro que jamais saberemos o que significa na prática. A “ciclovia mais bonita do mundo”, uma das heranças olímpicas prometidas, matou duas pessoas, antes dos Jogos. Continua interditada, sem que ninguém tenha sido indiciado ou preso. Esta semana, a Justiça do Rio precisou intimar os responsáveis pelo andamento de uma das ações penais que corre o risco de ser extinta por abandono de causa.

“Como se gasta tanto dinheiro e o resultado é uma pista irregular, cheia de desníveis? O piso é vagabundo.” Disse essas palavras no dia 23/01/2016, três meses antes da tragédia, ao questionar os R$ 44 milhões gastos apenas nessa obra. A colunista deve ser paulista, criticaram. Não sou paulista, talvez vidente.

Na mesma época, o governo do Rio anunciou que deixaria de pagar o salário dos aposentados. Escrevi que era uma vergonha falar nos bilhões gastos para bancar o evento e não ter dinheiro para honrar a folha de pagamento. A situação do funcionalismo é ainda pior atualmente.

Falei das isenções escandalosas, que sabemos hoje foram cedidas de forma irregular, inclusive para joalherias que ficaram famosas quando o ex-governador Sergio Cabral foi preso.

Fico pasma quando leio que a violência explodiu no Rio. Não é verdade. Dezenas de episódios já aconteciam na cidade, em especial na Baixada Fluminense, com uma frequência assustadora. As pessoas não se informavam ou não se interessavam, mas já era realidade.

Em maio do ano passado trouxe a informação de que o número de homicídios no Estado tinha subido pelo quarto mês consecutivo. E o aumento em relação ao ano anterior era de 33,6%, com o registro de 339 mortes. Em que país civilizado morrem 300 pessoas e ninguém se dá conta de que as coisas estão indo muito mal? Só está pior, mas explodiu faz tempo.

Já tinha guerra de facção em ao menos duas dezenas de bairros, bala perdida, UPP falida, assalto com morte, PMs executados, baixa no número de policiais na ativa, falta de pagamento de adicional de serviço, carros sem manutenção e dinheiro para gasolina.

Junte-se a tudo isso, a saúde e a educação em frangalhos. Qual é a parte que as pessoas não entenderam que ia dar merda?

Mas não se engane. A situação do Rio seria a mesma com ou sem a Olimpíada. A única diferença é que não estaríamos vendo as instalações olímpicas apodrecendo, a vila dos atletas se mostrar um empreendimento falido (só 204 dos 3.604 imóveis foram vendidos), não teríamos alimentado a esperança de ver a Baía da Guanabara e a as lagoas limpas.

Deveriam ter mantido o trombadinha na abertura. Talvez assim o susto agora não fosse tão grande

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