Em novo livro, Tostão revê passado e discute futuro

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Da FOLHA

Por NAIEF HADDAD

RESUMO

Campeão na Copa de 1970 e médico, Tostão, 69, lança o livro “Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos”, em que combina reflexões sobre o futebol brasileiro e memórias de sua carreira nos campos e nos hospitais. O colunista da Folha cita autores que admira e comenta o ofício de escrever, que considera um artesanato.

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A sala do apartamento de Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, em Lourdes, bairro de classe média alta de Belo Horizonte, revela mais sobre o seu dono pelo que não mostra.

Maior jogador da história do Cruzeiro, Tostão foi titular da seleção no Mundial de 1970, naquela que é tida por muitos admiradores do futebol como a mais brilhante equipe a disputar uma Copa.

Na sala de estar, logo na entrada do apartamento, ao contrário do que seria previsível, não há troféus, medalhas, molduras com camisetas de times. As paredes não expõem sinais dos cinco títulos mineiros consecutivos (1965 a 1969).

Tostão correu os campos por um período curto, que vai de 1963, aos 16 anos, a 1973, quando abandonou o futebol devido a um novo descolamento da retina esquerda –tivera a lesão pela primeira vez em 1969.

A partir de 1973, afastou-se do esporte para estudar medicina, atividade que desempenhou por mais de duas décadas. Tornou-se clínico geral e professor da Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte.

Na sala do apartamento, tampouco há diplomas de medicina.

O ambiente é elegante e sóbrio, com telas do pintor mineiro Carlos Bracher, 74, que se aproximam do expressionismo.

No cômodo vizinho, outra sala se divide em duas partes. De um lado, a mesa de jantar; do outro, o sofá e o aparelho de TV.

Nos dias com rodada, Tostão acompanha, com prazer de menino, até três jogos. Quando a entrevista foi feita, na quinta, 6 de outubro, no fim da tarde, ele assistia à primeira partida do dia, um Itália x Espanha válido pelas eliminatórias europeias para a Copa de 2018. O jogo acabou em 1 a 1.

No mesmo dia, ainda viu a vitória do Equador sobre o Chile por 3 a 0 e a goleada do Brasil sobre a Bolívia por 5 a 0, ambas pelas eliminatórias da América do Sul.

No intervalo de Itália e Espanha, pergunto a ele quem gostaria de ser no futebol, não fosse Tostão.

Pensa por alguns segundos. “Cruyff”, afirma. E solta uma risada, como se a simples menção a Johan Cruyff (1947-2016) já lhe trouxesse satisfação.

Trechos do recém-lançado livro de Tostão, “Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos – Um Olhar sobre o Futebol” [Companhia das Letras, 200 págs., R$ 39,90], são dedicados ao holandês. “Cruyff, que teoricamente era centroavante, estava em todas as partes do campo. Foi um dos jogadores mais inteligentes da história do futebol e, depois, um excepcional técnico e crítico.”

E quem ele gostaria de ser fora do esporte? “Dom Quixote. É um dos livros mais marcantes da minha vida. O filme também é espetacular, já vi umas dez vezes.”

Ele se levanta do sofá e começa a busca pelo DVD nas gavetas sob a TV, enquanto tenta lembrar o nome do protagonista. “É com aquele ator compridão, que fez ‘Lawrence da Arábia’. Só podia ser ele, figura alta, esguia.”

Alguns segundos depois, lembra-se do nome, Peter O’Toole, e encontra o DVD de “O Homem de la Mancha”, filme de 1972 inspirado no livro de Miguel de Cervantes e dirigido por Arthur Hiller.

APELIDO

Com 1,88 m, O’Toole não era tão alto assim, e Tostão, com 1,71 m, não é exatamente um homem baixo, como o apelido pode sugerir. Logo no início do livro, ele lembra que passaram a chamá-lo desse modo quando tinha sete anos e jogava com meninos de idades entre 10 e 14 em um campo no bairro Lagoinha, na capital mineira.

Patrono do time de moleques, seu pai, Oswaldo Andrade, comprava bananas e distribuía aos meninos durante o intervalo.

Figura raríssima nas colunas que Tostão escreve para a Folha e outros jornais, seu pai surge em diversos momentos da obra.

Bancário de poucas palavras, Oswaldo foi de Belo Horizonte a Caxambu, no interior do Estado, para acompanhar um amistoso entre a seleção brasileira e o Cruzeiro, em 1966. Na primeira convocação, seu filho enfrentou justamente o time pelo qual se consagrara.

“Ele queria me ver e conhecer Pelé, que brincou muito com ele. Meu pai, emocionado, pediu um autógrafo e chorou. Não é todo dia que um súdito conversa com o rei”, escreve.

“Tempos Vividos” pode parecer um apanhado de memórias à primeira vista. Classificá-lo, contudo, não é simples assim. É como se Tostão se dividisse em ao menos três autores, cada um deles em busca da verdade ao seu modo.

Vem à tona o memorialista, aparece o escritor que enfeixa episódios em contexto histórico e há ainda o analista, conhecido pelas colunas.

É esse último que apresenta a melhor reflexão já publicada no Brasil sobre o declínio do futebol do país, cujo ponto mais severo foi o 7 a 1 na Copa de 2014. Ele examina o empobrecimento do meio de campo nas últimas duas décadas, entre outros fatores.

Mas é o primeiro, o autor das memórias, que expõe as melhores surpresas ao leitor. Pela primeira vez, Tostão conta que, por muito pouco, não trocou o Cruzeiro pelo Milan, da Itália, em 1971.

Lembra ainda a visita à casa do técnico Vanderlei Luxemburgo para entrevista pela ESPN. “Nunca vi tanta vaidade e breguice.” Recordações curiosas como essa pontuam o livro do começo ao fim.

Os três Tostões se alternam, sem que sejam nomeados, o que não prejudica a leitura, já que a fluência é preservada.

Embora mencione no livro escritores que admira, como Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Jorge Amado e Fernando Sabino, a literatura deles não o influenciou na construção dessa estrutura –ao menos, não conscientemente.

“Fui misturando. Houve um momento em que me perguntei: isso não está muito anárquico? Depois comecei a gostar”, conta.

Tostão compara o processo de criação do livro ao artesanato. Como nas colunas, escrevia à mão capítulo por capítulo. Depois reescrevia duas, três vezes. Em seguida, enviava os trechos para um jornalista amigo, que os digitava. O trabalho de ourives se estendeu por um ano e meio.

A inaptidão para o uso do computador pode sugerir uma personalidade nostálgica. Não é o que aparenta, contudo, ao comentar sua atividade nos dias de hoje.

“Não sou um ex-atleta que escreve sobre futebol, sou um colunista que foi atleta”, diz. “Vejo ex-jogadores que se tornam técnicos ou comentaristas e ficam presos às lembranças e aos fantasmas da época de atleta.”

Aos 69 anos (completa 70 em janeiro), Tostão conta que foi tomado pela maior dúvida de sua vida no final da década de 1990, quando teve que escolher entre continuar na medicina ou voltar ao futebol, como comentarista de TV.

“Descobri que ainda adorava futebol e que ganharia umas 20 vezes mais do que recebia como professor da Faculdade de Ciências Médicas, em tempo integral. Outra razão era que, por ser muito detalhista e preocupado com tudo o que acontecia na enfermaria em que trabalhava e pela angústia de ver a morte de perto, eu estava mais tenso e com a pressão arterial aumentada”, escreve.

Trabalhou nas TVs Bandeirantes e ESPN, mas se cansou das viagens e da sua própria imagem na tela, “como se fosse invadido em minha privacidade”. Passou, então, a se dedicar só às colunas.

NA ARQUIBANCADA

Corre o jogo entre Itália e Espanha, Tostão critica uma, duas vezes o atacante brasileiro naturalizado espanhol Diego Costa. Um jogador superestimado, segundo ele. De fato, até que fosse substituído no segundo tempo, o atleta pouco havia feito além de resmungar contra a arbitragem.

Em “Tempos Vividos”, Tostão recorda ex-atletas que, por sua vez, não receberam o reconhecimento merecido.

Um deles é Jairzinho, atacante na Copa de 70. A ênfase é ainda maior em relação a Gérson, também da seleção do tri mundial. “Cruyff, Gérson e Xavi são os três jogadores mais lúcidos e de maior talento coletivo que vi atuar […] Jogavam como se estivessem vendo a partida da arquibancada, com ampla visão do conjunto.”

O empenho em restaurar o prestígio de craques do passado não significa que Tostão aguarde o futuro à espera do pior. Na penúltima página, escreve: “O futebol brasileiro continua doente, mas a doença tem cura. Ele começa a melhorar”.

O texto de Tostão une a frieza das análises cirúrgicas e os sonhos, quixotescos ou não.

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