Fogueira da Santa Intolerância
Por ROQUE CITADINI
A imprensa escrita praticamente ignorou o episódio dos jogadores do Santos, que na semana passada recusaram-se, por motivos religiosos, a participar de uma visita a uma entidade que assiste menores com problemas cerebrais.
Não entendi a razão deste silêncio dos jornais; depois eles ficam reclamando que os sítios e blogues dão notícias sem confirmação, apuração etc.
Não posso imaginar que, apenas por envolver jogadores famosos, a mídia procurou ignorar o assunto.
Mas a verdade é que se trata de um episódio complexo e grave para o futebol.
Metade da delegação santista, cerca de 11 jogadores assumidamente evangélicos, dentre eles Robinho, Neymar e Ganzo, ao chegar ao local, e, segundo eles só então sabendo que se tratava de uma entidade assistencial espírita, por convicções religiosas recusou-se a descer do ônibus.
Sei que muitos ficaram chocados com o ato dos “moleques” santistas e não encontraram explicações.
Chocados ficaram especialmente aqueles que acreditam na convivência entre religiões e particularmente na tolerância para que cada cidadão tenha o direito a seu credo.
Contudo este mundo de respeito e tolerância é o mundo dos laicos, dos que defendem a liberdade de crença, opondo-se à tutela da religião pelo Estado.
A rigor, dentro da ortodoxia religiosa, cada credo defende seu ponto de vista como o verdadeiro e o dos outros como “coisa do demônio” ou farsa.
É assim, sem muita profundidade que os evangélicos veem os espíritas: coisa do demônio a ser combatida.
Sem muito rigor é o que também pensam outras correntes cristãs.
O que não é “a verdade bíblica” é obra de falsos deuses ou demônios que precisam ser combatidos.
E neste mundo para os evangélicos estão os espíritas, as seitas afros, o islamismo, budismo e até o catolicismo, apontado como “falsos cristãos”.
A ideia de tolerância e de aceitação que cada um creia no Deus que quiser é um conceito de quem não tem religião, ou se tem, já ultrapassou o estágio fundamentalista.
Recordo-me que, certa feita, um atleta do Corinthians, e que atuou muitas vezes na Seleção, estava com uma Bíblia pregando a um outro jogador.
Ao passar por perto dos dois o atleta me perguntou se eu conhecia a “verdade”.
Indaguei-o sobre qual seria a “verdade”.
Disse-me que a verdade era a Bíblia, começando a citar-me versículos.
Lembrando-me, então, de meus tempos de estudos religiosos disse a ele que aquele citado livro bíblico tinha sua origem contestada por historiadores e estudiosos de religião, colocando inúmeras dúvidas sobre a precisão e autoria do texto.
A conversa ficou um pouco confusa, especialmente quando indaguei ao atleta sobre quem teria organizado a Bíblia, já sabendo eu que ele responderia tratar-se de obra do Espírito Santo, perguntei quando ocorrera tal manifestação e por que muitos livros, inclusive de Apóstolos, deixaram de integrar a obra.
Ele ficou confuso.
Falamos sobre Constantino, o Concílio de Niceia, S. Jerônimo, Santo Irineu etc.
Sobre a origem e a organização da Bíblia, disse-me que indagaria ao pastor a respeito.
Passado alguns dias, encontrei-me com o atleta e ele me disse que o pastor, do alto de sua sabedoria teológica, respondera que todas aquelas respostas só teríamos no Dia do Juízo Final.
E a conversa acabou por aí, até por que o juízo final não chegou e nós ficaremos até lá aguardando a explicação sobre a organização da Bíblia.
