Flávio Bolsonaro é o seu próprio vice

Da FOLHA
Por ISABELA KALIL
- Vídeo de IA de Jair sintetiza o paradoxo da campanha; conserva a autoridade e o lugar de quem orienta alianças
- Por isso, embora o debate sobre o uso eleitoral de deepfakes seja necessário, ele não esgota o caso
A convenção do PL, realizada neste sábado (25), produziu uma situação inusitada. Flávio Bolsonaro foi lançado candidato à Presidência da República, mas terminou o evento como seu próprio vice.
O protagonista da chapa continuou sendo Jair Bolsonaro, que apareceu por meio de um vídeo produzido com inteligência artificial. Com isso, Flávio passou a ocupar a posição formal de candidato, mas exerce a função política de vice —aquele que acompanha, que representa e que dá passagem à autoridade do outro.
A frase “Isto que vocês estão vendo aqui não sou eu”, dita pela representação de Jair exibida no telão, sintetiza o paradoxo da campanha. A simulação anunciava que não era Bolsonaro e, logo depois, utilizava sua imagem e sua voz em primeira pessoa para transmitir aquilo que deveria ser reconhecido como a vontade do líder. O vídeo não pedia que o público acreditasse estar diante de uma gravação verdadeira. Ao contrário, revelava a fabricação antes de falar em nome do Jair de carne de osso.
O aviso da simulação não era apenas um detalhe. Jair cumpre prisão domiciliar e está impedido de participar diretamente da campanha, de falar em público ou de fazer chegar manifestações político-eleitorais aos seus apoiadores por intermédio de terceiros. Essas restrições impostas a Jair são bem conhecidas por Flávio, que atua como representante legal do pai na execução penal. A própria encenação da entrada do vídeo no evento respondia a essa impossibilidade jurídica e colocava Flávio não como responsável pela aparição, mas como alguém igualmente surpreendido por ela.
Flávio não apenas dividiu o palco com a versão de IA de seu pai; ele foi colocado na posição de espectador dessa aparição. No início de sua fala, o cerimonialista da convenção do PL interrompeu Flávio, anunciou “três surpresas” e pediu que ele acompanhasse o telão. Eram três vídeos: o de Jair Bolsonaro produzido com IA; um de Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, e outro do deputado federal Nikolas Ferreira (PL) —os dois últimos, ao que tudo indica, gravados sem recursos de IA. A reação emocionada de Flávio aproximou a cena daqueles programas de auditório nos quais o convidado é surpreendido por depoimentos de familiares.
Flávio também chegou à convenção sem um nome para a Vice-Presidência. A federação formada por PP e União Brasil havia optado pela neutralidade, enquanto as negociações com o Republicanos permanecem indefinidas. A vaga expôs a dificuldade de ampliar a chapa para além do próprio PL. A campanha procura uma mulher para compor a chapa, também como forma de reparar o desgaste produzido pelas divergências públicas com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Mas preencher a vaga não depende apenas de encontrar um nome porque o poder de participar dessa escolha continua sendo atribuído a Jair.
Em uma pesquisa sobre o uso da inteligência artificial na eleição de 2026, tenho acompanhado como essas tecnologias não substituem apenas pessoas, mas passam a preencher posições políticas. No caso de Jair, a tecnologia não produz simplesmente um avatar ou uma cópia digital do líder. Ela recompõe uma presença política impedida de aparecer diretamente. Nesta arquitetura, Flávio ocupa a posição formal de candidato e Jair conserva a autoridade, o vínculo com os eleitores e o lugar de quem orienta alianças. A inteligência artificial sustenta a ligação entre os dois.
Por isso, embora o debate sobre o uso eleitoral de deepfakes seja necessário, ele não esgota o caso. Um traço importante do vídeo era justamente sua artificialidade declarada. Sua principal função não era enganar o público sobre quem aparecia no telão, mas recompor uma presença que não poderia estar ali.
Mesmo começando com a advertência “não sou eu”, a imagem transmitia uma mensagem feita para ser recebida como se viesse diretamente de Bolsonaro para seus apoiadores.
Diante disso, talvez não seja correto dizer apenas que Jair Bolsonaro ocupa informalmente o lugar de vice.
O mais acertado seria dizer que Flávio é candidato sem conseguir ocupar inteiramente o lugar de candidato. Ao disputar a Presidência em nome do pai, enquanto reserva para ele o centro da cena, Flávio se converte em vice de sua própria candidatura. O nome para a Vice-Presidência permanece formalmente indefinido, mas a posição política ao lado —ou talvez acima de Flávio— já está ocupada.

