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Um inesquecível day after

Da “Carta Capital”

Por SÓCRATES

Sempre que um time se envolve plenamente na disputa de uma partida ou de uma competição, sofre como consequência aquilo que chamo de ressaca emocional.

Quando nos entregamos totalmente a uma causa, descarregamos as nossas forças físicas e psíquicas.

Atingido ou não o objetivo e ainda na proximidade do fato, começamos a tentar readquirir o equilíbrio e a normalidade.

Não é tão simples, mas é algo necessário.

Até porque é impossível manter o nosso organismo em situação de estresse por um longo tempo.

Na período pós-esforço extremo, devemos encontrar fórmulas para retornar ao estado normal no menor prazo possível.

E comecemos a nos preparar para eventuais novas batalhas.

Quando o despendido for, porém, de dimensões inusitadas torna-se muito mais difícil a recuperação.

É esse o caso de uma partida decisiva.

Lembro-me de uma ocasião em especial em que, mesmo não sendo uma final de campeonato, tivemos de enfrentar algo desse porte.

Eu, em particular.

Foi no Campeonato Brasileiro de 1984, quando nós, do Corinthians, enfrentaríamos nas quartas-de-final o melhor time do País: o Flamengo.

Poucos dias antes da primeira partida eliminatória, participei de um evento beneficente em minha cidade que já estava agendado há meses.

Era algo simples e aparentemente inofensivo: um jogo festivo em que meio tempo seria futebol de salão e a outra metade basquete, entre a minha família e a do Hélio Rubens, de Franca.

E não é que consegui me lesionar nessa brincadeira?

Uma lesão muscular pequena, mas que me impediu de jogar a primeira partida ocorrida dois dias depois.

Comecei o tratamento de forma intensiva na mesma noite, com a pressão de que na segunda e decisiva partida, no Morumbi, eu teria de estar em campo.

Mesmo que fosse de muletas.

Perdemos o primeiro jogo por uma diferença de dois gols e, para nos classificarmos, tínhamos de vencer, no mínimo, pela mesma diferença – o que não seria nada fácil, dada a qualidade da equipe carioca.

A mobilização da torcida corintiana foi de certa forma incomum.

Desde muito cedo o estádio já estava tomado quase que totalmente pela Fiel.

E o clima era de festa.

Quando isso acontece, parece que em um único jogo se aposta a vida – e foi com esse espírito que entramos no gramado.

Eu ainda não me encontrava nas melhores condições, mas não havia como não participar daquela partida – até pelos antecedentes recentes que me alijaram do jogo anterior.

A partida foi extremamente tensa.

Iniciamos pressionando e tentando impedir que o Flamengo pudesse jogar o que sabia.

Com a torcida em êxtase e empurrando o time para a frente, conseguimos ainda no primeiro tempo os dois gols de que precisávamos.

Jogamos como nunca.

A emoção que tomou conta de todos no estádio era extraordinária.

O amigo e psiquiatra Flávio Gikovati, que nos acompanhava, afirmou jamais ter presenciado algo semelhante.

E era exatamente o que todos sentíamos.

Foi uma loucura.

Os 90 minutos de jogo, a vitória por 4 a 1, a suada classificação e todo aquele clima que nos cercava, porém, nos esgotaram de tal maneira que foi impossível nos recuperarmos para o desafio seguinte, sete dias depois, na semifinal contra o Fluminense.

Nessa partida parecia que cada um de nós carregava um fardo imenso, pesadíssimo, que nos impedia de correr da mesma maneira.

A capacidade de concentração estava limitada e o desempenho também.

Um caos.

Tudo muito diferente da semana anterior.

Aquela entrega total e exclusiva nos derrotara por não termos tido tempo nem capacidade suficiente de recuperarmos nossas forças.

Principalmente no aspecto emocional.

Era uma carga muito maior do que poderíamos suportar.

E isso é muito mais frequente do que se pode imaginar.

Foi exatamente isso o que aconteceu com o Sport Recife, nos dois últimos anos sempre entre os protagonistas do nosso futebol: acabou derrotado por suas próprias limitações emocionais e sucumbiu caindo para a Segunda Divisão.

Agora, o Corinthians joga todas as suas fichas na campanha da Libertadores, prestes a se iniciar.

Todo corintiano sonha com esse título e o sonho está sendo mais que estimulado pelo clube em busca de retorno financeiro e de marketing.

Incluem-se aí os jogadores do atual elenco.

E isso é extremamente perigoso pelas consequências que poderão advir.

Somos apenas humanos e grandes fardos podem nos sufocar irremediavelmente.

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7 comentários sobre “Um inesquecível day after

  1. daniel

    Resumindo , quando o curintia perde a libertadores a segunda divisão é apenas consequencia

  2. vinao 6-3-3

    caramba… o que o cara falou ali tem de ser mto discutido e “ouvido”

    faz muito sentido tudo isso….

    me lembro que nos jogos de libertadores do sao paulo tinham alguns jogos chaves que todo mundo queria… mas nos jogos “mais faceis” o time acabava pipocando

  3. Thor-Palmeirense

    genial dr Sócrates

    Porém a torcer por um time de forma fanática como existe nas religiões e nas ideologias políticas, o fanatismo desperta as maiores bestialidades humanas, é só ler na historia as grandes bárbaries a que foram cometidas pelos homens em nome de Deus, ou de uma ideologia política (Nazismo, Comunismo, Facismo etc).

    As emoções exarcebadas descontrolada de tudo ou nada, acabam desestabilizando nossas energias e a derrota eé a consequência dessas emoções descontroladas.

    Por isso que acredito eu que o Corinthians nõa vai ganhar essa libertadores e nem o Chão Paulo, pois eles tem uma verdadeira obsessão por este torneio

  4. Marcos Plebe Rude

    Grande Doutor!Resume em poucas palavras todo o sentimento de pressão que os jogadores sofrem, agora comecem a reforçar o alambrado do Pacaembu….

  5. Thor-Palmeirense

    hehehehe de preferência construam jaulas de aço reforçado, para conter as bestas corinthianas

  6. VANDERLEI

    GRANDE DOUTOR!

    MAIOR JOGADOR DO BRASIL DE SUA GERAÇÃO.

    GÊNIO. BRASILEIRO. CORINTHIANO.

  7. lemos

    Doutor: Será dificil rever alguém como vc em campo. O nosso maior problema hoje é que temos um pavão chamado Rolemberg.
    Rolo Eu?
    Não Rosemberg .
    Rose eu ?
    Tire suas conclusões

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