JOÃO, 95

Por ROBERTO VIEIRA

João Saldanha salvou João Havelange.

Salvou a CBD.

Salvou o reinado de Médici.

Tudo imperdoável pra quem vestia a camisa do comunismo.

Tudo perdoável pra quem amava o futebol.

Entre a esquerda e o 4-3-3.

João preferia a dialética de um Garrincha.

Materialismo mesmo era do Didi.

Centralismo democrático era do Nilton Santos.

A grande marcha eram as comemorações dos torcedores após cada caneco.

Então.

Quando a barca furada da ditadura com a bola no pé ia pras cucuias.

Chamaram o João.

João que não tinha medo.

João que não era o Goulart.

João que amava o futebol acima de todas as coisas.

Inclusive a política.

João chegou, viu, venceu e enlouqueceu nas tramas da história.

Pelé era míope.

O futuro iria comprovar o fato.

Mas Pelé era apenas mais uma manga no balaio de pressões da década infame.

João se olhou no espelho.

Espelho, espelho meu, quem sou eu?

Um fantoche nas mãos dos gorilas?

João explodiu.

Porque os amigos desapareciam nas esquinas.

Os sonhos morriam nas guerrilhas.

E o João sem medo.

Também era o homem mais solitário do hemisfério ocidental.

Fim da linha.

João diz adeus ao tricampeonato.

E volta para os microfones.

A seleção armada pelo gaúcho indomável vence tudo e todos.

Os jogadores retornam ao Brasil nos braços do ditador.

Imaginar João ao lado de Emílio no Planalto?

Nem nos subterrâneos do futebol…

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