Palavra do Magrão

Da Carta Capital


http://www.cartacapital.com.br/2007/08/457/a-intolerancia-na-vida/


A intolerância na vida



por Sócrates

Todos os meus diferentes amigos têm a sua importância na qualidade de vida que busco. Não consigo entender como alguém pode ser nazista, racista, fascista ou homofóbico



Sócrates



Um dos valores mais importantes na vida de cada um é fazer amigos. Algumas pessoas mais fechadas talvez não tenham a mesma opinião. Outras, medrosas, nem pensam em manter relações mais íntimas e se afastam dessa possibilidade com fervor religioso. Respeitáveis posições. Porém, no meu caso, é quase uma filosofia criar condições de aproximação com o maior número possível de pessoas. Depois que isso acontece, a possibilidade de entender afinidades ou distanciamentos de posição, comportamento ou visão do mundo define se alguém pode se tornar próximo o suficiente para ser cúmplice de muitas jornadas. Pude ter o privilégio de conhecer um sem-número de seres interessantes e alguns nem tanto, mas só o fato de ter tido essa oportunidade já me fez rico em tudo o que me interessa.


E o esporte foi fator decisivo para que isso ocorresse. Pode não parecer, mas eu sempre fui tímido o suficiente para ter dificuldade em abordar alguém desconhecido. Esse fato sempre impediu que eu pudesse ter contato com mais pessoas. Como me tornei um conhecido por meio do esporte, o resultado é que os outros é que me procuram para uma conversa, um comentário ou um simples aperto de mão. Mesmo nessas coisas mais simples é possível saber quem é que se aproxima. E, quanto mais você tem contato com diferentes personalidades, mais facilidade para diagnosticar o caráter de cada uma delas.


Além disso, o futebol é um meio democrático, que abriga seres de diferentes origens, raças ou realidade social. O que oferece um espectro muito mais interessante do que outras comunidades em que as semelhanças são mais prevalentes que as diferenças. Seu arsenal de referências, então, torna-se um baú de conhecimento que te auxiliará no resto da sua existência. E a comunidade de amigos que construí vem sendo erguida desde os meus primórdios no meio do futebol.


Naquela época, eu convivia com dois mundos absolutamente distintos, principalmente quanto à formação educacional. Mesmo assim, consegui unificar interesses em múltiplas ocasiões, já que no fundo essas diferenças existem fundamentalmente pelo fato de uns terem tido oportunidades e outros não. Criar amizades é antes de tudo destruir qualquer resquício de preconceito e estar sempre aberto a novas experiências. Com isso há possibilidade de convivência com todo tipo de gente.


Fiz e tenho amizades de toda forma. Amigos de infância, da faculdade, do esporte, de mesa de bar, de espera em aeroporto, de fila bancária ou de parentesco com outros amigos. Amigos intelectuais, músicos, estafetas, ricos ou desempregados. Amigos, brancos, negros, amarelos ou simplesmente amigos. Sérios como o Juca, alegres e sorridentes como o Oscarzinho, geniais como o Washington, palhaços como o Juninho, diretos como o Junior, sonhadores como o Caxassa, expansivos como o Zé Olavo, discretos como o Chico, atentos como o Aloísio, competentes como o Vander e muitos mais. Tenho sorte ainda de ter meus filhos como grandes amigos, algo que vale mais que qualquer coisa neste mundo.


Sou também amigo de muitas mulheres, apesar de que, aqui, muitas vezes misturo as estações e só um pouco mais tarde descubro que, mais que amor e eventual paixão, o que predominava era amizade eterna. Por outras consigo nutrir os sentimentos concomitantemente e discernindo exatamente onde e como elas se apresentam. Sou amigo de gente de esquerda, de direita, de radicais e de discretos. Sou também amigo de indivíduos das mais diversas opções sexuais.


Todos, sem exceção, têm a sua importância na qualidade de vida que busco e na felicidade que encontrei. E até por isso não consigo entender como alguém pode ser nazista, fascista, homofóbico ou racista. Estes, sem dúvida, jamais estarão no rol dos que podem ser meus amigos. Nestes últimos dias, aliás, muito se discutiu sobre homossexualidade no futebol por causa de uma frase no mínimo infeliz de um dirigente esportivo, claramente induzido por um apresentador de tevê, o qual, este, sim, certamente, apresenta alguns sinais de fazer parte deste último grupo de desumanos.


Os desdobramentos da questão, até na Justiça, em nada agregaram valor nessa discussão, o que, convenhamos, é vergonhoso. Todos nós devemos repudiar de forma calorosa esses desvios, porque senão daqui a pouco nem saberemos o que conhecemos por sociedade e voltaremos à idade da pedra. Se é que ainda não regredimos a tanto.

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