Leia antes do domingo; ou se o Brasil vencer

Da LIBERTA
Por JUCA KFOURI
Dá vontade de usar o Método Matinas diante da dúvida: comemorar ou chorar?
Corria o ano de 1988 e o Campeonato Mundial de Fórmula 1 seria decidido no GP do Japão, entre o ídolo brasileiro Ayrton Senna e o francês Alain Prost, no Autódromo de Suzuka.
Os jornais não tinham como dar o resultado da prova que aconteceria na madrugada brasileira e a Folha de S.Paulo, dirigida então por Matinas Suzuki, brilhante, irrequieto e criativo, decidiu resolver o problema do fuso horário, e do fechamento do jornal, de forma heterodoxa: a capa do caderno de Esportes foi dividida em dois textos, um para cada campeão.
No alto da página, a instrução aos leitores era clara:
“Leia o texto da esquerda se Prost venceu o GP do Japão e o texto da direita caso Senna tenha vencido”.
O episódio despertou debates intermináveis entre os jornalistas, e até protestos nas redações do Jornal do Brasil e do Globo.
Dá vontade de usar o Método Matinas, embora Suzuki e Suzuka não sejam parentes, diante de ter de fechar a coluna para ir ao ar no sábado que antecede a enorme prova, ou seria provação?, do domingo: se Lula venceu, festeje aqui; se perdeu, chore aqui.
Porque é exatamente disso que se trata.
A arrancada final da campanha dos democratas indicou a vitória apertada dos que votam pelo avanço, com multidões nas ruas, impulsionadas pela vibração de estudantes de todo o Brasil, pavio aceso pelos estudantes de Niterói logo no dia seguinte ao resultado do primeiro turno.
O povo explodiu nas ruas, avenidas e praças das principais cidades brasileiras em comoventes manifestações cívicas e permitiu uma reviravolta progressista nas redes sociais.
Tudo apontou para a vitória da luz contra as trevas, da civilização contra a barbárie.
Se, no primeiro turno, as pesquisas mostravam situação de empate, sempre com Lula à frente, no segundo os resultados eram os mesmos, com sinal invertido.
Apostamos, então, otimistas, na repetição do fenômeno.
Entre o céu e o inferno
O candidato da extrema direita, miliciano de carteirinha, que primeiramente sentou no trono para logo se dar conta de que ainda tinha muito jogo pela frente, revelou-se por inteiro, no debate da Band, quando se comportou exatamente como é, cafajeste e mentiroso, carimbo de corrupto na mão.
Apesar do prognóstico sombrio do que possa ser a gestão de um presidente com o Congresso Nacional radicalizado à direita, além de quase a metade do país contra ele, a esperança na habilidade de Lula, e as consequências do pacote de benefícios à maioria trabalhadora, alentavam para quatro anos de progresso e alegria.
O óbvio desmonte prometido pela vanguarda do atraso não poderia triunfar.
Flávio Bolsonaro se viu diante do céu ou do inferno, o Palácio do Planalto no dia 5 de janeiro, ou a Papuda, ou a Flórida ao lado do irmão fugitivo, depois de 1º de fevereiro, quando terminaria seu mandato como senador e ele perderia a imunidade parlamentar.
O simples fato de ser tal o horizonte dele deveria ser suficiente para decidir votos de indecisos ou levar quem se absteve às urnas no domingo, 25 de outubro, Dia da Democracia, homenagem a Vladimir Herzog, o jornalista torturado e morto no DOI-CODI de Brilhante Ustra, o torturador ídolo da família Bolsonaro.
Daí, rara leitor e raro leitor, a tentação do jornalista diante da tela em branco hoje em dia, como da lauda (não confundir com o austríaco Niki) em 1988, entre Senna e Prost: comemorar ou chorar?
Em tempo: em 1988, o Brasil venceu.

