Chapecoense e as ‘homenagens’ não realizadas

Dez anos depois da tragédia que matou 71 pessoas, jogadores de Chapecoense e Atlético Nacional entraram em campo com braçadeiras lembrando as vítimas, torcedores aplaudiram os mortos e colombianos que participaram do resgate receberam a chamada “Capitania vitalícia”.

Há, porém, um contraste incômodo que não deveria ser escondido pelas cerimônias.

Enquanto a memória das vítimas é reverenciada nos gramados, familiares ainda precisam recorrer à Justiça para obter reparações decorrentes da mesma tragédia.

Quase uma década depois, processos relevantes continuaram sem solução financeira definitiva.

Em novembro de 2025, por exemplo, a família do técnico Caio Júnior já havia obtido vitória judicial contra o clube, sem possibilidade de recurso quanto ao dever de indenizar.

Mas nada receberam.

Ainda permanecia em discussão no Tribunal Superior do Trabalho a definição dos valores e da base de cálculo, para que os pagamentos pudessem começar.

Mais constrangedor ainda foi o que ocorreu em maio deste ano.

A Justiça de Santa Catarina condenou a Chapecoense a pagar R$ 450 mil à companheira e aos pais do jornalista Giovane Klein, morto no voo da LaMia.

O juiz reconheceu sua responsabilidade e apontou negligência na contratação da companhia aérea, afirmando que a escolha da LaMia ocorreu por razões financeiras, apesar da existência de alternativas mais seguras e regulares.

No processo, a Chapecoense tentou afastar sua responsabilidade atribuindo a culpa exclusivamente ao piloto e à empresa aérea.

A tese foi rejeitada.

Em outro caso, o Tribunal Superior do Trabalho já havia mantido a condenação do clube a indenizar os pais do jogador Tiaguinho, reconhecendo responsabilidade da Chapecoense pelo acidente ocorrido durante viagem realizada a serviço da agremiação.

Memória não se preserva apenas com braçadeiras, fotografias, discursos emocionados e minutos de aplausos.

Também se preserva assumindo responsabilidades.

Dez anos depois, talvez a homenagem mais importante não seja realizada no Atanasio Girardot.

Ela deveria acontecer longe das câmeras, dos discursos e das cerimônias.

Quitando, com dignidade e sem intermináveis batalhas judiciais, tudo aquilo que ainda for devido às famílias das vítimas.

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