Há um século batendo à porta nos EUA, socialismo encontrou a entrada de serviço

Da FOLHA
Por JOÃO PEREIRA COUTINHO
- Apesar da expansão no Partido Democrata, sistema nunca floresceu por lá
- O bipartidarismo norte-americano sempre dificultou a vida de terceiros partidos
Dizem que só há duas certezas na vida: a morte e os impostos. Nos Estados Unidos, era preciso adicionar uma terceira: o fracasso do socialismo em terras do Tio Sam. Acabou essa exceção?
Veremos. Com as midterms à porta, candidatos socialistas ou simpatizantes do credo tem ganhado espaço nas eleições primárias do Partido Democrata. Não é o velho proletariado que os elege. É o eleitorado jovem, branco, urbano, educado —ou, pelo menos, diplomado—, que tanto quer saúde universal como abolir a polícia e os presídios.
O fenômeno sempre mereceu atenção: cientista político que se preze já perguntou por que as profecias do sr. Karl Marx nunca se cumpriram por ali. Seymour Martin Lipset e Gary Marks, em obra que já virou um clássico, plasmaram o espanto no título: “It Didn’t Happen Here”.
O mistério sempre foi um quebra-cabeça para os teóricos do marxismo: se a revolução proletária necessita de um sistema capitalista avançado, pronto para ruir sob o peso de contradições internas, não haveria solo mais fértil que o americano.
E, no entanto, os Estados Unidos eram a exceção das economias industriais: nem partido comunista relevante, nem partido socialista, nem sequer uma frente comum trabalhista e sindical.
A culpa era da sua gênese burguesa, diziam Lênin e Trótski: sem passado feudal, os trabalhadores não herdaram uma consciência de classe como a europeia.
Além disso, como fazer a revolução num país mais democrático e igualitário que os congêneres europeus —e onde o proletariado vivia melhor que as massas exploradas de Manchester ou Paris? No seu livro, Lipset e Marks não compram as explicações mais forçadas dos marxistas desiludidos. O socialismo não frutificou por razões institucionais e culturais.
Para começar, o bipartidarismo sempre dificultou a vida de terceiros partidos: nas eleições presidenciais, democratas e republicanos monopolizam quase todos os votos, deixando as sobras para excêntricos diversos. Em 1912, na melhor prestação dos socialistas, Eugene Debs não foi além de 6%.
Mas o sistema partidário não explica tudo. A inteligência estratégica dos democratas explica muito mais. Um exemplo: Franklin Roosevelt, quando se viu ameaçado pelo populismo de esquerda em plena Grande Depressão, soube integrar as pautas mais progressistas —e até alguns dos seus líderes— na grande coalizão do New Deal. “O radicalismo tornou-se indistinguível do liberalismo”, escrevem Lipset e Marks.
Houve resistências, claro. Mas as resistências também ajudam a explicar o insucesso socialista nos Estados Unidos: entre a pureza ideológica e a participação no jogo eleitoral pelas primárias, os socialistas nunca penetraram no Partido Democrata com o mesmo sucesso que facções conservadoras e libertárias tiveram no Partido Republicano. Não houve, até hoje, um Barry Goldwater ou um Newt Gingrich de esquerda.
Se juntarmos a tudo isso a distância entre setores importantes do sindicalismo e os socialistas —uma característica marcante da história americana— e as divisões étnicas, raciais e religiosas que dificultaram uma “consciência de classe” entre a vasta mão de obra imigrante, entendemos melhor os autores: “Muitos socialistas eram imigrantes, mas poucos imigrantes eram socialistas”.
Finalmente, há motivos ainda mais decisivos —nos Estados Unidos, o antiestatismo e o individualismo não eram exclusividade da direita. Pelo contrário: a sensibilidade anarquista de parte da esquerda nunca tolerou as tentações coletivistas que os mais ortodoxos defendiam no deserto.
E hoje?
O livro de Seymour Lipset e Gary Marks tem 26 anos —e, nesse quarto de século, muita coisa mudou. Institucionalmente, os socialistas americanos aprenderam uma lição que o fenômeno Trump tornou impossível ignorar: se querem chegar ao poder, precisam pegar carona no ônibus democrata. “Máxima flexibilidade na tática, máxima rigidez nos princípios”, já dizia o camarada Vladimir Ilitch Ulianov.
E assim tem sucedido: depois de um século batendo à porta, o socialismo americano encontrou a entrada de serviço.
Por outro lado, o antiestatismo e o individualismo são valores cada vez mais raros. Não interessa se falamos de esquerda ou de direita. A célebre frase de Benjamin Constant —”não há mais indivíduos, apenas batalhões uniformizados”— aplica-se bem aos identitarismos rivais que ganharam força na política dos Estados Unidos (e não só). Saber quem sairá vencedor dessa batalha é conversa para os próximos capítulos.
Uma coisa é certa: o velho produto ganhou embalagem nova —e, desta vez, há fila no caixa.

