Três Zés-Ninguém querem comprar o Ninguém FC

Por LEONARDO CORRÊA

Em 9 de abril de 2022, após um empate sem gols com o Fluminense no Maracanã, e um futebol paupérrimo em campo, o jornalista Juca Kfouri chamou o Santos de Ninguém FC.

“Fluminense 0, Ninguém FC 0” era o título da sua coluna publicada no UOL. Muita gente ficou enfurecida com o articulista. Eu, inclusive.

Mas a verdade é que Juca não poderia estar mais certo. Mais de quatro anos depois, eis que três zés-ninguém querem comprar o time da Vila Belmiro, em proposta tornada pública pelo clube a cerca de 120 dias para o término do mandato de Marcelo Pirilo Teixeira.

Segundo nota oficial, “o Santos FC e a SDC Sports assinaram um term sheet não vinculante para a aquisição, pela SDC Sports, de uma participação acionária de controle na Santos SAF. Os termos refletem cinco meses de diligência conduzida com o apoio da Rothschild & Co., Alvarez & Marsal e BMA, desde a apresentação da proposta não vinculante em 20 de fevereiro de 2026, abrangendo os ativos, passivos e operações do Clube”.

Mas o que é a SDC Sports? Segundo o site da companhia — simples, até amador, e criado recentemente no meio do processo de apresentação da proposta ao Santos —, a SDC se define como uma plataforma global de investimentos dedicada ao desenvolvimento a longo prazo do esporte e da mídia.

No bojo da estratégia de Relações Públicas, no dia anterior à nota do Santos, a SDC (com a ajuda ou não do próprio Santos, não se sabe) tratou de alimentar a mídia com informações sobre a proposta e uma entrevista ao site Pipeline, do Valor Econômico. Três pessoas se apresentaram como à frente da SDC: Michael Lipman, Jesse Fioranelli e Diego Garcia. O título da reportagem do Pipeline dizia: “A SDC Sports está comprando a SAF do Santos. Entrevistamos os novos donos”.

Primeiro cabe uma ressalva. Não existe “comprando” ou “novos donos”. A SAF no Santos ainda precisa passar por mudança estatutária, a ser aprovada pelo Conselho e depois pela Assembleia de Sócios. Depois disso, o mesmo processo deve ser respeitado em relação à proposta da SDC Sports. Falar que a SDC é a nova dona do Santos seria o mesmo que dizer que alguém comprou um imóvel sem que esse estivesse efetivamente à venda e com os atuais donos ainda morando no local.

Quando olhamos com cuidado o currículo de Lipman, Fioranelli e Garcia, algumas coisas chamam atenção. Lipman e Garcia são os managing partners da SDC. Em tese, os sócios principais da empresa e aqueles responsáveis pela gestão da SDC. Lipman se apresenta como alguém que passou a primeira década da sua carreira na NFL, a liga de futebol americano. Ocorre que não se encontra nenhum registro que conecte o seu nome ao da NFL.

Fioranelli é uma pessoa do futebol e atuaria na SDC como conselheiro sênior de esportes.

No site da SDC, é apresentado como executivo de futebol. No entanto, segundo sua página no LinkedIn, rede social profissional, hoje atua como assistente-técnico de Stefano Pioli, atual treinador da Fiorentina. Tem desde 2022 feito parte da comissão técnica do treinador italiano, passando também por Milan e Al Nassr. Sua experiência em gestão remonta a 2017, quando foi general manager do San Jose Earthquakes, time da Major League Soccer (MLS) – cargo que ocupou por quatro anos.

Já Diego Garcia seria o representante do mercado financeiro dentro da SDC. Trabalhou na Riverstone Holdings, uma firma de private equity que basicamente compra e vende empresas. Seu LinkedIn não aponta nenhuma referência à SDC, mas, sim, à Saint-Dominique Capital como cofundador.

Muitas reportagens têm apontado que, por trás da Saint-Dominique Capital, estaria a bilionária família colombiana Santo Domingo – informação que já foi publicamente rechaçada. Segundo nota, o Grupo Santo Domingo “não está participando de processos relacionados à compra do time Santos FC, nem diretamente, nem por meio de seus veículos de investimento ou de suas empresas afiliadas”.

No entanto, o Santos parece nutrir essa confusão como forma de dar peso ao negócio. Por trás da Saint-Dominique Capital estaria Lauren Santo Domingo, cunhada de Alejandro Santo Domingo — o manda-chuva da família. A Saint-Dominique Capital seria, portanto, um veículo de investimento particular de Lauren. Lauren seria amiga de Diego Garcia dos tempos de faculdade. Também segundo o LinkedIn, apenas quatro pessoas apontam a Saint-Dominique Capital como seu local de trabalho.

Também chama atenção o fato de que, embora se noticie que a Saint-Dominique Capital estaria por trás da SDC, nem o site da SDC e tampouco a minibiografia de Diego Garcia na página da SDC mencionam a Saint-Dominique Capital.

As informações públicas permitem algumas conclusões:

1. O Santos recebeu uma proposta de compra de uma empresa recém-criada e dirigida por pessoas pouco conhecidas e sem currículo suficiente para o tamanho de uma operação gigante, que é a compra do Santos Futebol Clube.

2. A SDC é uma LLC, uma estrutura societária que, em regra, separa o patrimônio da empresa do patrimônio de seus sócios e membros. Em caso de disputas ouobrigações envolvendo a Santos SAF, a responsabilidade tende a ficar limitada à própria SDC.

Essas mesmas informações, porém, deixam mais perguntas do que respostas:

1. A Saint-Dominique Capital está por trás da SDC Sports? Se sim, quem são os acionistas da Saint-Dominique Capital?

2. Se a Saint-Dominique Capital está por trás da SDC Sports, por que essa relação não é informada de maneira clara no site da SDC e na apresentação de seus
executivos?

3. Quem são, afinal, os sócios ou beneficiários finais da SDC Sports? Se a SDC é uma LLC, quem está por trás desse veículo?

4. Qual é a relação entre Diego Garcia, a Saint-Dominique Capital e Lauren Santo Domingo? E qual é, exatamente, o papel de Lauren na estrutura que pretende controlar o Santos?

5. Por que a SDC Sports foi constituída tão recentemente e por que não há histórico público relevante da companhia antes da negociação com o Santos?

6. Se Michael Lipman se apresenta como alguém que passou a primeira década da carreira na NFL, onde está esse histórico profissional? Quais foram exatamente suas funções e em que período trabalhou na liga?

7. Jesse Fioranelli é apresentado pela SDC como executivo de futebol e conselheiro sênior de esportes, mas há quatro anos atua como assistente-técnico de Stefano Pioli. Sua experiência no San Jose Earthquakes é suficiente em um projeto de SAF que visaria recolocar o Santos em um patamar competitivo?

8. Por que Diego Garcia se apresenta no LinkedIn como cofundador da Saint-Dominique Capital, mas não menciona a SDC Sports, enquanto a própria SDC não menciona a Saint-Dominique Capital?

No fim das contas, a questão não é se Michael Lipman, Jesse Fioranelli e Diego Garcia são boas ou más pessoas. Também não é se a SDC Sports tem ou não boas intenções. É algo muito mais simples: quem, afinal, quer comprar o Santos?

Transparência não deveria ser um problema para quem pretende comprar o Santos.

Deveria ser uma condição básica.

Em 2022, Juca Kfouri chamou o Santos de “Ninguém FC”. Eu fiquei indignado. Hoje, mais de quatro anos depois, talvez a pergunta seja outra: quem seria o “alguém” que vai ser dono do time do Rei Pelé?


*Leonardo Corrêa é jornalista e um santista qualquer morando em Toronto, no Canadá.

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1 Comentário

  1. Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso, portanto, quando não nos declaramos contra uma ilicitude, devemos ser julgados por conivência a isso

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