O PCC está dentro da PM de SP

Do ESTADÃO
EDITORIAL
Operação do MPSP aponta estreita relação entre coronéis da cúpula policial paulista e membros da facção. Não há política de segurança pública que sobreviva a esse tipo de contaminação
A Operação Janus, deflagrada na terça-feira passada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), expôs como o Primeiro Comando da Capital (PCC) lava dinheiro e resolve suas querelas por meio dos chamados “tribunais do crime”. É trabalho de investigação sério, fruto da abnegação de servidores comprometidos com o melhor interesse público e de anos de acúmulo de provas colhidas em operações anteriores, como Bazaar, Recidere e Salus et Dignitas, por exemplo. Mas o que a Operação Janus revelou de mais perturbador, por incrível que pareça, não está nas ruas. Está dentro do Estado – mais especificamente, na cúpula da Polícia Militar de São Paulo (PM-SP).
Segundo o Gaeco, dois operadores do núcleo financeiro do PCC, presos no curso da operação, mantinham relação estreita com os coronéis Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho. Este último, pasme o leitor, é ex-comandante-geral da PM-SP e da Rota – a mais reconhecível tropa de elite da polícia de São Paulo. Mensagens obtidas pelas autoridades indicam que um dos membros do PCC buscava dinheiro “para pagar a polícia”. Uma planilha típica do esquema de propina conhecido como “ticketagem” registra pagamento a um coronel identificado como “Patrício”. Um grupo de WhatsApp intitulado “Aniversário General”, com diálogos entre o PCC e a cúpula da PM paulista, sugere um convívio indecente, para dizer o mínimo, entre criminosos e agentes supostamente a serviço da lei.
Nenhum dos coronéis citados foi alvo direto desta fase da Operação Janus. É bom que se registre isso porque suspeita, apuração e condenação são coisas distintas num Estado de Direito, e este jornal não antecipa a culpa de ninguém. Mas também nunca houve espaço para ingenuidade nesta página. As suspeitas que recaem sobre os policiais militares, levantadas pelo MPSP, são gravíssimas.
Se organizações criminosas de contornos mafiosos como o PCC cresceram a ponto de disputar à bala território com o Estado brasileiro, é porque encontraram, ao longo do tempo, espaço dentro do próprio aparato estatal para prosperar. Não há outra explicação racional. E o preço da leniência ou da cumplicidade nunca foi baixo, assim como alta é a conta que recai sobre a sociedade: por mais bem formulada que seja, jamais haverá política de segurança pública que sobreviva a esse tipo de contaminação. Noutras palavras: pouco adianta reforçar efetivos, comprar equipamentos, criar varas judiciais especializadas ou aperfeiçoar leis de combate ao crime organizado se no topo da cadeia de comando das forças públicas houver quem venda seus serviços ao inimigo.
Um só oficial disposto a se associar ao PCC ou simplesmente fechar os olhos em troca de propina compromete o esforço de milhares de outros policiais que cumprem seu dever com honestidade e sob risco de sua própria vida. Ou seja, a corrupção policial é uma violência abominável contra o cidadão comum, mas também contra os próprios colegas do corrupto.
Faz tempo que o PCC deixou de ser uma quadrilha de assaltantes e traficantes de drogas escondida nos porões do sistema carcerário paulista. É uma organização mafiosa com sofisticação financeira, presença na economia formal, na política institucional e, como mostrou a Operação Janus, com capacidade para cooptar policiais nos escalões mais altos da segurança pública de São Paulo. Enfrentar essa ameaça exige, em primeiro lugar, que o Estado volte o seu olhar para dentro com a mesma disposição que emprega suas forças armadas contra o crime nas ruas – sobretudo nas periferias da capital paulista.
Por meio de nota, a PMSP afirmou ter participado da operação e reiterou seu compromisso com o combate ao crime organizado. É o mínimo. Espera-se, contudo, que a corporação demonstre, com transparência e rigor, que não hesitará em depurar seus próprios quadros, sobretudo em posições de comando. Espírito de corpo nessa hora é o mesmo que cumplicidade com o PCC.
Se há algo de auspicioso nessa história sombria, é constatar que o MPSP e boa parte da PM paulista foram capazes de desvendar essa teia criminosa com destemor. Ainda há servidores que honram o múnus público. E é neles que reside a esperança de que o Estado consiga, um dia, expulsar de suas entranhas os bandidos que se travestem de guardiões da lei.

