Presidente do Corinthians escreveu certo por linhas tortas

O Ministério Público de São Paulo denunciou criminalmente Osmar Stabile, presidente do Corinthians, por apropriação indébita qualificada.
No centro da acusação está a Bear Security, empresa contratada com dinheiro do clube para realizar a segurança do cartola e, segundo o MP, possivelmente também de seus familiares.
O Corinthians desembolsou R$ 721.194,66 entre julho de 2025 e agosto de 2026.
A Promotoria sustenta que a despesa teria caráter pessoal, embora paga pelos cofres alvinegros.
O assunto é conhecido dos leitores do Blog do Paulinho.
Em 8 de novembro de 2025, este espaço revelou que a Polícia Federal foi acionada para investigar irregularidades envolvendo os seguranças utilizados pelo presidente do Corinthians.
Naquela ocasião, mostramos que a Bear Security havia sido constituída em janeiro daquele mesmo ano, possuía capital social de apenas R$ 10 mil e, segundo a denúncia encaminhada à PF, não tinha autorização para exercer a atividade de segurança privada nos moldes em que vinha trabalhando.
Também relatamos que policiais militares do Rio de Janeiro estariam atuando armados na Arena, no Parque São Jorge e no CT, acompanhando Stabile, com pagamentos realizados por intermédio da Bear.
Sete meses depois, em 3 de junho de 2026, o Blog avançou na apuração e identificou um dos policiais que realizavam a segurança do presidente: Natanael Carlos Vieira, o “Nael”.
Ele é marido de Antonia Regina Oliveira Vieira, o nome em que a Bear foi formalmente constituída.
Familiares do casal também estavam vinculados à empresa.
Naquele mesmo dia, publicamos a íntegra de um pedido de impeachment apresentado por conselheiros e associados contra Osmar Stabile.
O documento incorporava justamente o caso da Bear Security.
Três meses depois, a discussão deixou de estar restrita à política interna do Corinthians.
O Ministério Público menciona, entre os elementos reunidos, notas fiscais, registros dos seguranças acompanhando familiares em situações particulares e declarações do próprio presidente sobre o serviço de proteção.
Também ressalta que a Bear não possuía autorização da Polícia Federal para funcionar como empresa de segurança privada.
A Promotoria pediu o bloqueio de R$ 721 mil em bens de Stabile para eventual ressarcimento ao Corinthians e outros R$ 540,8 mil por danos morais atribuídos ao abalo institucional causado ao clube.
Requereu ainda medidas cautelares pesadas: proibição de Stabile frequentar as dependências do Corinthians, de manter contato com testemunhas e dirigentes, de exercer funções associativas e de representar institucionalmente o clube, além de restrições a viagens.
A Justiça ainda terá de analisar a denúncia e decidir se a recebe, tornando Stabile réu.
O cartola alega que a segurança não foi contratada para beneficiá-lo como pessoa, mas em razão do exercício da Presidência e das ameaças que teria recebido, inclusive contra familiares.
Afirma ainda que a utilização de segurança para dirigentes já ocorreu em outras administrações do Corinthians e promete contestar o pedido de afastamento.
Diante do contexto político que assombrava o Timão à época, com o presidente anterior envolvido em investigação que posteriormente o levaria à condição de réu sob acusação de apropriação de recursos do clube, além de episódios envolvendo pessoas investigadas por criminalidade circulando nos ambientes alvinegros, era justificável que o presidente, no exercício do cargo, dispusesse de segurança custeada pelo Corinthians — inclusive, diante de ameaça concreta, extensiva a seus familiares.
O problema não está necessariamente na existência dos seguranças.
Está na maneira como a contratação foi realizada.
O que não poderia ocorrer — e, pelos elementos conhecidos, ocorreu — era a inexistência de concorrência, de mecanismos adequados de compliance e de controles capazes de assegurar transparência em todas as etapas do negócio.
É nesse ponto que a atuação da Promotoria encontra fundamento relevante para a denúncia.
Resta agora a decisão judicial.
Se Stabile se tornar réu, deveria renunciar ao cargo e abandonar a disputa presidencial marcada para novembro.
Seria, inclusive, coerente com o padrão que integrantes de sua própria gestão cobraram do antecessor.
O mesmo raciocínio deveria alcançar seu vice-presidente, que será julgado sob acusação relacionada ao desvio de uniformes do Corinthians e que, apesar das cobranças feitas no passado, não teve até agora a mesma disposição para aplicá-las a si próprio.

