Flávio deve explicações ao País

Do ESTADÃO
EDITORIAL
Como candidato, Flávio precisa esclarecer seu envolvimento com Vorcaro, cuja investigação acaba de ser autorizada pelo STF. Não basta dizer que se trata de relação privada
É gravíssimo o fato de um investigado pela Polícia Federal concorrer à Presidência da República. Pois é o que temos para o momento. Anteontem, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça determinou a abertura de inquérito para apurar o repasse de R$ 61 milhões do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), dinheirama supostamente destinada a financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A principal suspeita é de corrupção, entre outros crimes.
É digno de nota que a ordem tenha sido dada por Mendonça, indicado ao STF pelo próprio Jair Bolsonaro. Há anos, o clã Bolsonaro repete a cantilena da “perseguição política”. Esse episódio a desmonta. Um ministro indicado pelo pai do investigado, com respaldo da Procuradoria-Geral da República, não hesitou em autorizar as apurações contra o filho de quem o levou à mais alta corte de Justiça do País. É, no mínimo, uma demonstração de independência de Mendonça, e torna ainda mais ridículo o discurso dos Bolsonaros segundo o qual eles são vítimas dos inimigos encastelados no establishment, que eles dizem enfrentar.
Também convém registrar que Flávio não é culpado de nada até que se prove o contrário. Este jornal tem a defesa do Estado de Direito como um de seus valores mais caros. Mas, como candidato a presidente, o senador precisa explicar ao País a natureza de seu envolvimento com Vorcaro. Flávio não pode simplesmente alegar que se trata de relação privada, na qual ninguém teria o direito de se meter. Ora, quem pretende governar o Brasil precisa mostrar, da forma mais transparente possível, que não tem nada a esconder.
Em postagens em suas redes sociais e numa live transmitida na noite do dia 23 passado, Flávio reagiu às suspeitas que recaem sobre ele dizendo que fez apenas negócios privados – como se isso o isentasse de escrutínio. Ora, quem não deseja que seus negócios privados sejam esquadrinhados pela Justiça, pela imprensa e pela opinião pública deve ficar longe da vida pública. Não se pode ter o melhor dos dois mundos. Não se pode lucrar com transações privadas e, ao mesmo tempo, reivindicar privacidade separando essas transações do exercício do múnus público.
Em maio, quando veio a público o áudio em que Flávio, de viva voz, pede diretamente a Vorcaro o repasse de R$ 134 milhões – dos quais recebeu cerca de metade –, o senador primeiro negou que tivesse qualquer relação com o banqueiro. Depois, confrontado com as provas, Flávio admitiu que pediu dinheiro mesmo, mas exclusivamente para bancar o tal filme sobre o pai.
Considerando-se que o filme teria custado três vezes mais que o premiado Ainda Estou Aqui, considerando-se as muitas suspeitas de lavagem de dinheiro contra Flávio Bolsonaro e considerando-se a quantidade de vezes que o senador mentiu sobre sua relação com Vorcaro, abundam dúvidas sobre a real destinação de parte dessa dinheirama.
Há mais de dois meses, Flávio prometera apresentar “em 30 dias” uma demonstração contábil de como o dinheiro foi empregado na produção do filme. Como sabemos, a tal planilha de gastos segue um mistério.
A isso se soma outro fato que demanda esclarecimentos: a emissão de notas fiscais pelo escritório de advocacia do senador em favor de empresas ligadas ao Banco Master. Flávio alega que tudo não passou de prestação regular de serviços advocatícios. Pode ser. Mas, se assim foi, nada mais simples do que detalhar publicamente que serviços foram esses. Não pode haver zonas de sombra sobre as atividades de quem aspira ao Palácio do Planalto.
Flávio Bolsonaro não é um advogado nem um empresário qualquer. É um senador e candidato à Presidência da República. A dimensão de sua ambição requer uma envergadura moral e política correspondente – a começar pela demonstração de um compromisso irrestrito com a transparência. Por ora, o que se tem é uma candidatura que não se dedica a outra coisa senão a desmentir uma profusão de denúncias.
O País exige respostas. E quanto mais Flávio demorar a dá-las, mais pesarão sobre seus ombros as suspeitas que ele insiste em classificar como “perseguição política” – tese puída pelo excesso de uso por políticos enrolados com a Justiça.

